Magno demorou mais do que esperava para conseguir deitar.
O quarto dele era maior, mais sóbrio, decorado com linhas limpas e tons escuros que sempre o ajudaram a manter a mente organizada. Aquela noite, porém, nada parecia cumprir sua função. Ele tirou o paletó, largou a camisa sobre a poltrona, afrouxou a gravata como se estivesse sendo sufocado por algo invisível.
Deitou-se apenas quando o corpo pediu descanso à força, tirou a roupa e ficou apenas de cuec4, como costuma dormir.
A luz apagada, o silêncio quebrado apenas pelo som distante do mar, o colchão firme sob as costas. Ele fechou os olhos e repetiu mentalmente, como um mantra:
Ela está bêbada.
Ela está confusa.
Ela é só uma menina.
Você é o adulto.
Você é o responsável.
A imagem dela ajoelhada no banheiro veio sem pedir licença.
Magno virou de lado.
Respirou fundo.
Foi quando as batidas começaram.
Fortes. Rápidas. Desordenadas.
Ele abriu os olhos no mesmo instante, o coração acelerando antes mesmo da razão alcançar o corpo.
— Porr4…
As batidas não paravam.
Magno levantou num pulo, ainda meio desorientado, caminhou até a porta e abriu sem pensar.
Gabriella estava ali.
Descalça, de lingerie.
Os olhos marejados.
O cabelo bagunçado.
O corredor vazio demais para aquela cena existir.
O mundo pareceu parar por meio segundo.
— Gabi… — ele começou, mas não terminou.
Ela falou primeiro.
— Eu… eu não consigo ficar sozinha.
A voz saiu pequena. Frágil. Nada da provocação de antes.
Magno reagiu por instinto.
Olhou rapidamente para os lados e puxou-a para dentro, fechando a porta atrás deles com urgência.
— Você enlouqueceu? — sussurrou. — Alguém podia ter visto você assim, sem roupa.
Ela deu de ombros, como se aquilo não importasse.
— Eu só bati na porta que eu sabia que ia abrir.
O comentário passou rápido demais para ele responder.
Magno se afastou um passo, passando a mão pelo rosto.
— Você precisa voltar pro seu quarto.
— Não — ela respondeu na hora.
Não foi provocação. Foi medo.
Ela começou a chorar.
Não o choro bonito de quem quer atenção, mas aquele descontrolado, infantil, que vem do fundo do peito. As lágrimas desceram sem aviso, e ela levou as mãos ao rosto, como fazia quando era mais nova.
— Toda vez que eu fecho o olho… — a voz falhou — …eu vejo o acidente.
Magno sentiu o estômago apertar.
— Eu ouço o barulho… — ela continuou. — O vidro… o silêncio depois…
Ele não pensou.
Apenas a abraçou.
O corpo dela se encaixou no dele com uma facilidade que o assustou. Gabriella se agarrou à ele — Magno sem roupa e ela também — como se fosse uma âncora. O choro veio mais forte, abafado contra o peito dele.
Magno fechou os olhos.
Ali não existia desejo.
Existia culpa.
Existia responsabilidade.
Existia amor — daquele tipo perigoso, que confunde tudo.
— Tá tudo bem — ele murmurou, a mão passando com cuidado pelos cabelos dela. — Eu tô aqui.
Ela respirava irregularmente, o corpo ainda tenso.
— Eu tô com medo de dormir sozinha — sussurrou.
Magno sentiu o próprio corpo reagir de um jeito que ele odiou perceber, sentindo o p4u endurecer devido à aproximação do abraço, ver Gabriella só de lingerie andando perto dele, encostando nele.
Afastou-se devagar.
— Gabi… — a voz saiu firme, mas baixa. — Isso não é uma boa ideia.
Ela ergueu o rosto, os olhos vermelhos, inchados.
— Eu não tô pedindo nada errado.
Silêncio.
— Só… não me deixa sozinha hoje.
Ele ficou parado, lutando consigo mesmo.
— Você pode dormir aqui — ele disse por fim, cada palavra pesada. — Mas só dormir. Entendeu?
Ela assentiu rápido demais.
— Prometo.
Magno puxou o lençol, ajeitou a cama, indicou o lado mais afastado. Gabriella deitou-se devagar, como se tivesse medo de mudar de ideia se se mexesse rápido demais.
Ele apagou a luz.
Deitou-se do outro lado, rígid0, olhando para o teto.
O espaço entre eles parecia pequeno demais.
— Magno… — ela chamou, baixinho.
— O quê?
— Você pode… ficar mais perto?
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Não faz isso comigo.
— Eu tô com medo — ela repetiu. — Só isso.
Ele se virou com cuidado, posicionando-se atrás dela, mantendo distância suficiente para não confundir gestos. Um braço passou por cima dela, protetor, contido, consciente demais de cada centímetro.
Gabriella relaxou quase imediatamente.
— Obrigada — murmurou.
Magno ficou imóvel.
O corpo tenso.
A mente em guerra.
Magno de cuec4, encaixado perfeitamente em Gabriella, fazia seu p4u latejar.
Gabriella percebia, mas não falava nada.
Ele sabia que aquela noite não terminaria ali — mesmo que nada mais acontecesse.
Porque o que já tinha acontecido…
não podia mais ser desfeito.