A PORTA

794 Words
Magno demorou mais do que esperava para conseguir deitar. O quarto dele era maior, mais sóbrio, decorado com linhas limpas e tons escuros que sempre o ajudaram a manter a mente organizada. Aquela noite, porém, nada parecia cumprir sua função. Ele tirou o paletó, largou a camisa sobre a poltrona, afrouxou a gravata como se estivesse sendo sufocado por algo invisível. Deitou-se apenas quando o corpo pediu descanso à força, tirou a roupa e ficou apenas de cuec4, como costuma dormir. A luz apagada, o silêncio quebrado apenas pelo som distante do mar, o colchão firme sob as costas. Ele fechou os olhos e repetiu mentalmente, como um mantra: Ela está bêbada. Ela está confusa. Ela é só uma menina. Você é o adulto. Você é o responsável. A imagem dela ajoelhada no banheiro veio sem pedir licença. Magno virou de lado. Respirou fundo. Foi quando as batidas começaram. Fortes. Rápidas. Desordenadas. Ele abriu os olhos no mesmo instante, o coração acelerando antes mesmo da razão alcançar o corpo. — Porr4… As batidas não paravam. Magno levantou num pulo, ainda meio desorientado, caminhou até a porta e abriu sem pensar. Gabriella estava ali. Descalça, de lingerie. Os olhos marejados. O cabelo bagunçado. O corredor vazio demais para aquela cena existir. O mundo pareceu parar por meio segundo. — Gabi… — ele começou, mas não terminou. Ela falou primeiro. — Eu… eu não consigo ficar sozinha. A voz saiu pequena. Frágil. Nada da provocação de antes. Magno reagiu por instinto. Olhou rapidamente para os lados e puxou-a para dentro, fechando a porta atrás deles com urgência. — Você enlouqueceu? — sussurrou. — Alguém podia ter visto você assim, sem roupa. Ela deu de ombros, como se aquilo não importasse. — Eu só bati na porta que eu sabia que ia abrir. O comentário passou rápido demais para ele responder. Magno se afastou um passo, passando a mão pelo rosto. — Você precisa voltar pro seu quarto. — Não — ela respondeu na hora. Não foi provocação. Foi medo. Ela começou a chorar. Não o choro bonito de quem quer atenção, mas aquele descontrolado, infantil, que vem do fundo do peito. As lágrimas desceram sem aviso, e ela levou as mãos ao rosto, como fazia quando era mais nova. — Toda vez que eu fecho o olho… — a voz falhou — …eu vejo o acidente. Magno sentiu o estômago apertar. — Eu ouço o barulho… — ela continuou. — O vidro… o silêncio depois… Ele não pensou. Apenas a abraçou. O corpo dela se encaixou no dele com uma facilidade que o assustou. Gabriella se agarrou à ele — Magno sem roupa e ela também — como se fosse uma âncora. O choro veio mais forte, abafado contra o peito dele. Magno fechou os olhos. Ali não existia desejo. Existia culpa. Existia responsabilidade. Existia amor — daquele tipo perigoso, que confunde tudo. — Tá tudo bem — ele murmurou, a mão passando com cuidado pelos cabelos dela. — Eu tô aqui. Ela respirava irregularmente, o corpo ainda tenso. — Eu tô com medo de dormir sozinha — sussurrou. Magno sentiu o próprio corpo reagir de um jeito que ele odiou perceber, sentindo o p4u endurecer devido à aproximação do abraço, ver Gabriella só de lingerie andando perto dele, encostando nele. Afastou-se devagar. — Gabi… — a voz saiu firme, mas baixa. — Isso não é uma boa ideia. Ela ergueu o rosto, os olhos vermelhos, inchados. — Eu não tô pedindo nada errado. Silêncio. — Só… não me deixa sozinha hoje. Ele ficou parado, lutando consigo mesmo. — Você pode dormir aqui — ele disse por fim, cada palavra pesada. — Mas só dormir. Entendeu? Ela assentiu rápido demais. — Prometo. Magno puxou o lençol, ajeitou a cama, indicou o lado mais afastado. Gabriella deitou-se devagar, como se tivesse medo de mudar de ideia se se mexesse rápido demais. Ele apagou a luz. Deitou-se do outro lado, rígid0, olhando para o teto. O espaço entre eles parecia pequeno demais. — Magno… — ela chamou, baixinho. — O quê? — Você pode… ficar mais perto? Ele fechou os olhos por um segundo. — Não faz isso comigo. — Eu tô com medo — ela repetiu. — Só isso. Ele se virou com cuidado, posicionando-se atrás dela, mantendo distância suficiente para não confundir gestos. Um braço passou por cima dela, protetor, contido, consciente demais de cada centímetro. Gabriella relaxou quase imediatamente. — Obrigada — murmurou. Magno ficou imóvel. O corpo tenso. A mente em guerra. Magno de cuec4, encaixado perfeitamente em Gabriella, fazia seu p4u latejar. Gabriella percebia, mas não falava nada. Ele sabia que aquela noite não terminaria ali — mesmo que nada mais acontecesse. Porque o que já tinha acontecido… não podia mais ser desfeito.
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