A CASA DELE

859 Words
A alta hospitalar veio numa manhã silenciosa demais para um acontecimento tão grande. Gabriella acordou com o sol entrando fraco pela janela e, pela primeira vez em dias, sentiu algo diferente no ar. Não era alívio. Também não era felicidade. Era uma espécie de suspensão — como se estivesse prestes a atravessar uma porta sem saber o que havia do outro lado. A enfermeira ajudou-a a se levantar com calma, explicou novamente os cuidados, os remédios, o repouso. Falava com a naturalidade de quem fazia aquilo todos os dias, mas para Gabriella, tudo parecia definitivo demais. — Então… é isso? — perguntou, sentando-se devagar na beira da cama. — Eu vou embora? — Vai — respondeu a enfermeira com um sorriso gentil. — Mas ainda precisa se cuidar bastante. Ela assentiu. Magno chegou poucos minutos depois, trazendo uma bolsa com roupas novas que ele mesmo havia escolhido. Simples, confortáveis. Nada que chamasse atenção. — Eu tentei lembrar do que você gosta — disse, um pouco sem jeito. — Se não servir, a gente troca depois. Gabriella segurou o tecido entre os dedos. — Tá perfeito. Ela se vestiu com ajuda, cada movimento ainda um pouco lento, e quando finalmente ficou de pé, sentiu o peso real da mudança. Hospital ficava para trás. Os pais ficavam para trás. E agora… a vida começava de novo. Diferente. Estranha. Magno assinou os últimos papéis, agradeceu a equipe, conversou com o médico mais uma vez. Sempre firme, sempre seguro — como se aquela segurança fosse emprestada a ela. O carro aguardava na porta. Quando Gabriella entrou, sentiu o cheiro do couro, o silêncio acolchoado do interior, a sensação estranha de estar indo para um lugar que não era dela… mas seria. Ela observou o caminho em silêncio. — Se quiser parar em algum lugar antes… — começou Magno. — Não — respondeu rápido. — Quero chegar logo. A mansão de Magno ficava em uma área alta da cidade, afastada, cercada por verde e muros discretos. Não era ostentosa como a casa dos pais dela — era moderna, imponente, fria de um jeito elegante. Quando o portão se abriu, Gabriella prendeu a respiração. Vidro, concreto, linhas retas. Tudo parecia calculado. — É bonita — comentou. — É grande demais pra uma pessoa só — respondeu ele, estacionando. — Mas agora… — parou. — Bom. Agora não vai ser só uma pessoa. Ela não respondeu. Apenas entrou. O interior era amplo, silencioso, com tons neutros. Havia obras de arte discretas, móveis sofisticados, um cheiro limpo, masculino. Tudo ali parecia refletir Magno: controle, poder, ordem. — Seu quarto já está pronto — disse ele. — Fica no andar de cima, mais afastado. — Obrigada. Ele a conduziu até lá, explicando onde ficava cada coisa, sem invadir demais, sem tocar nela além do necessário. — Se precisar de algo, meu quarto fica no fim do corredor — apontou. — E eu fico no escritório quase sempre durante o dia. Ela assentiu. Os primeiros dias passaram num ritmo lento. Gabriella dormia muito, acordava desorientada às vezes, explorava a casa com passos cuidadosos. Magno respeitava o espaço dela, mas estava sempre por perto. Preparava refeições simples, perguntava se ela estava bem, lembrava os horários dos remédios. Era atencioso. Presente. Seguro. E isso mexia com ela mais do que deveria. Numa das noites, depois do jantar, Gabriella se sentiu estranhamente inquieta. O silêncio da casa era diferente do hospital — mais profundo, mais íntimo. Ela caminhou descalça pelo corredor, segurando um copo de água, até parar diante da porta do quarto de Magno. Estava entreaberta. Ela ia chamar por ele. Tinha ensaiado o nome na mente. Mas então ouviu o som. Água caindo. O vapor escapando pelo vão da porta. Gabriella parou. O coração acelerou sem motivo claro. Ela deu um passo à frente, devagar, quase sem perceber. A visão que se abriu não foi direta, nem explícita — era fragmentada, distante. O reflexo do espelho, o vidro do box embaçado, a silhueta masculina se movendo sob a água. Magno. Sem camisa. Sem barreiras. Sem o terno, sem o controle visível. Era apenas o corpo dele, marcado, adulto, real. Gabriella não entrou. Não se aproximou mais. Ficou ali, imóvel, sentindo algo estranho se espalhar por dentro. Não era exatamente desejo — ainda não. Era curiosidade. Impacto. Consciência. Ela sentiu o rosto esquentar, o estômago contrair de um jeito novo, confuso. Não sabia por que estava olhando… mas também não conseguia desviar. Era a primeira vez que via Magno assim. Não como padrinho. Não como protetor. Como homem. O som da água desligando a fez despertar. O coração disparou. Ela se afastou rápido, quase tropeçando, voltando para o próprio quarto com o copo ainda cheio na mão. Fechou a porta atrás de si. Encostou-se nela, respirando fundo. — O que foi isso…? — murmurou para si mesma. Deitou na cama, o corpo quente demais, a mente cheia de imagens que não deveriam estar ali. Não havia culpa ainda. Nem intenção. Só uma sensação nova, inquieta… que ela não sabia nomear. E, do outro lado do corredor, Magno saía do banho sem imaginar que, naquela casa silenciosa, algo havia mudado para sempre.
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