QUANDO AS LUZES APAGAM

1257 Words
Os últimos dias no hospital chegaram sem aviso. Gabriella só percebeu que o tempo estava avançando quando a rotina começou a mudar. Menos exames invasivos, menos entradas apressadas de médicos e enfermeiros. O corpo ainda doía, mas já não gritava o tempo todo. O cansaço continuava ali, profundo, porém diferente — agora misturado a uma ansiedade silenciosa. Ela já não dormia tanto. Passava longos períodos acordada, observando o quarto, o relógio na parede, o céu mudando de cor pela janela estreita. Às vezes lia algumas páginas de um livro que Magno tinha comprado para ela — algo leve, quase infantil, como se ele quisesse poupá-la de qualquer peso extra. Em outras, apenas ficava olhando para nada, perdida nos próprios pensamentos. E eles eram muitos. O acidente. Os pais. O vazio. A justiça. E Magno. Ele continuava ali. Todos os dias. Sem falhar. Agora já não usava terno com tanta frequência. Muitas vezes aparecia de camisa escura, mangas dobradas, expressão cansada, mas postura firme. Falava ao telefone no corredor, sempre em voz baixa, sempre sério. Resolvia coisas que Gabriella nem sabia nomear — advogados, empresas, reuniões adiadas, assinaturas urgentes. — Você não precisa se preocupar com isso — dizia sempre que ela perguntava. — Não agora. Mas era impossível não se preocupar. Naquela manhã, o advogado apareceu. Um homem mais velho, postura formal, pasta de couro sob o braço. Gabriella sentiu o estômago revirar só de vê-lo entrar no quarto, acompanhado por Magno. — Bom dia, Gabriella — disse o homem, com um sorriso educado. — Meu nome é Roberto. Eu era o advogado do seu pai. Ela assentiu devagar. — Ele… — a voz falhou. — Ele falava muito do senhor. — Seu pai foi um homem muito organizado — respondeu Roberto. — E muito cuidadoso com o seu futuro. Magno permaneceu em silêncio, parado ao lado da cama, como uma presença sólida. — Há algumas decisões que precisam ser oficializadas — continuou o advogado. — E preferimos fazer isso com calma, enquanto você ainda está sob cuidados médicos. Gabriella sentiu o peito apertar. — Decisões… sobre o quê? Roberto abriu a pasta com cuidado. — Sobre sua tutela temporária e sobre a administração dos bens da família Antunes. Ela olhou para Magno, confusa. — Tutela? Magno respirou fundo antes de falar. — Seu pai deixou isso definido em vida, Gabi. — Definido como? O advogado assumiu novamente. — Em caso de falecimento dos dois, seu pai deixou registrado que você ficaria sob tutela legal de Magno Carvalho até completar vinte anos. — fez uma pausa breve. — Nesse período, ele também ficaria responsável por administrar os bens dele e da sua mãe, garantindo que tudo fosse preservado para você. O mundo pareceu inclinar um pouco. — Vinte anos? — repetiu, sentindo-se estranhamente pequena. — Mas eu já tenho dezoito… — Seu pai acreditava que essa seria uma idade mais segura — explicou Roberto. — Onde você teria maturidade emocional e financeira para lidar com tudo isso sem riscos. Gabriella engoliu em seco. — E… — olhou para Magno. — Você sabia disso? — Sim — respondeu ele, direto. — Eu concordei quando ele me pediu. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Então… legalmente… você… — Sou responsável por você — completou, com firmeza tranquila. — Até você fazer vinte anos. O advogado fechou a pasta. — Precisamos apenas da sua assinatura, Gabriella, confirmando que está ciente. Não muda nada no dia a dia agora. É apenas uma formalização. A caneta parecia pesada demais na mão dela. — Todo mundo tá brigando por causa do dinheiro, né? — perguntou, de repente. Roberto trocou um olhar rápido com Magno. — Alguns familiares entraram com questionamentos — respondeu com cautela. — Mas nada que vá comprometer sua segurança. Segurança. A palavra voltou a ecoar. Depois que o advogado saiu, o quarto ficou silencioso de novo. — Você tá bem? — perguntou Magno, sentando-se ao lado dela. — Eu me sinto… — ela suspirou. — Como se minha vida estivesse sendo decidida por outras pessoas o tempo todo. — Eu sei — respondeu ele. — Mas isso é temporário. — Temporário quanto? — Até você estar pronta. Ela olhou para ele. — E se eu nunca estiver? Magno sustentou o olhar. — Você vai estar. Eu confio nisso. Naquela noite, Gabriella teve dificuldade para dormir. A cabeça não desligava. A lembrança dos pais vinha em ondas mais fortes quando o hospital ficava quieto demais. O barulho distante de passos no corredor, o bip ocasional de algum monitor em outro quarto… tudo parecia amplificar o vazio. Magno estava ali, sentado na poltrona, mexendo no celular, mas ela sabia que ele não estava realmente distraído. — Magno… — chamou, baixo. — Oi. — Você pode… ficar mais perto? Ele se levantou imediatamente. — Tá doendo? — Não — respondeu. — Só… não quero ficar sozinha agora. Ele hesitou por um segundo, depois puxou a cadeira e sentou-se mais próximo da cama. Gabriella mordeu o lábio. — Você pode deitar aqui comigo? O pedido saiu quase num sussurro. Magno congelou por um instante. — Gabi… — começou, cuidadoso. — Só pra dormir — apressou-se em dizer. — Como quando eu era pequena. Eu não tô bem hoje. O olhar dele suavizou. — Só isso? — Só isso. Ele respirou fundo, avaliando. Depois assentiu. — Tá. Com cuidado extremo, Magno afastou um pouco o lençol e deitou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa no começo. O corpo dele ocupava mais espaço do que parecia possível naquela maca estreita, e Gabriella sentiu o calor imediato da presença dele. Ela virou de lado, instintivamente, buscando algo conhecido. Magno ficou rígido por um segundo, depois passou um braço ao redor dela, leve, quase protetor demais para ser questionado. — Assim tá bom? — perguntou. — Tá — respondeu, fechando os olhos. O corpo dela se encaixou naturalmente contra o dele. Era estranho… e confortável ao mesmo tempo. O cheiro dele — algo limpo, masculino, familiar — a acalmou de um jeito que nada mais tinha conseguido. Por alguns minutos, tudo ficou quieto. A respiração dela começou a desacelerar. Até que ela sentiu. Não de imediato. Não de forma óbvia. Mas havia algo diferente. Uma rigidez inesperada, um contato que não estava ali antes. Gabriella abriu os olhos devagar, o coração acelerando. Ela não se mexeu. Não disse nada. Sentiu o corpo dele ficar tenso no mesmo instante. Magno percebeu. O braço em volta dela se afastou rápido demais. — Gabi… — disse, baixo, constrangido. — Desculpa. Ele se levantou quase num salto, passando a mão pelo rosto. — Eu não… isso não devia… — respirou fundo, visivelmente desconcertado. — Me desculpa. Ela sentou-se um pouco, confusa, sentindo o rosto queimar. — Eu… eu não fiz nada — murmurou. — Eu sei — respondeu ele, firme, mas claramente abalado. — A culpa não é sua. O silêncio que se seguiu foi denso. — Foi só… — ele procurava as palavras. — Foi um reflexo. Nada mais. Gabriella assentiu, mesmo sem entender completamente o que tinha acabado de acontecer. — Eu vou… — Magno apontou para a poltrona. — Ficar aqui. Ele se sentou, de costas um pouco rígidas, claramente tentando recuperar o controle. — Boa noite, Gabi. — Boa noite… Ela deitou de novo, mas o sono não veio. O corpo estava estranho. A mente, cheia de perguntas. Ela não sentiu medo. Nem nojo. Nem repulsa. Sentiu curiosidade. E aquela sensação — nova, quente, confusa — se alojou em algum lugar dentro dela, silenciosa… esperando.
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