ENTRE UM SUSPIRO E OUTRO

1355 Words
Os dias no hospital não passavam. Eles se arrastavam. Para Gabriella, o tempo parecia diluído em uma sequência interminável de luz branca, sons mecânicos e um cansaço profundo que não tinha nada a ver apenas com o corpo. Era um esgotamento que vinha de dentro, como se cada pensamento exigisse esforço demais. Ela dormia e acordava várias vezes ao dia, nunca por muito tempo. Sempre que abria os olhos, precisava de alguns segundos — às vezes minutos — para se lembrar de onde estava… e por quê. Hospital. Acidente. Pais. A lembrança vinha em ondas, nunca inteira, mas sempre pesada. Na primeira noite após acordar, a dor física se intensificou. O corpo reclamava dos hematomas, das costelas sensíveis, do corte no ombro, do pescoço rígido pelo impacto. Mas nada disso se comparava à dor invisível que se instalava no peito, constante, silenciosa. E, em quase todas as vezes que ela acordava, ele estava lá. Magno. Sentado na poltrona ao lado da cama, o paletó abandonado em algum lugar, a camisa social com as mangas dobradas, o rosto cansado, mas atento. Às vezes lendo algo no celular, outras apenas observando-a dormir, como se tivesse medo de desviar o olhar e perdê-la também. — Você não foi embora… — murmurou ela numa dessas vezes, a voz fraca. Magno levantou os olhos imediatamente. — Nem pretendo — respondeu, aproximando-se. — Como você tá se sentindo? Gabriella pensou por alguns segundos antes de responder. — Confusa — disse, por fim. — E cansada. Muito cansada. Ele assentiu, compreensivo. — É normal. Seu corpo levou um impacto grande. E sua cabeça… — parou, escolhendo as palavras. — Também. Ela fechou os olhos por um instante. — Eu não consigo parar de pensar neles. — Nem deveria — respondeu com suavidade. — Eles fazem parte de você. Magno puxou a cadeira para mais perto e sentou-se ao lado da cama. O gesto já era automático, íntimo de uma forma simples, quase doméstica. — Lembra quando você tinha uns cinco anos e insistia em dormir só se alguém contasse a história do coelho azul? — perguntou de repente. Gabriella franziu a testa, surpresa. — Você lembra disso? — Eu inventei aquela história — disse, com um meio sorriso cansado. — Seu pai sempre ria porque eu nunca contava igual. Cada vez o coelho fazia uma coisa diferente. Ela deixou escapar um sorriso pequeno, frágil. — Eu ficava brava quando você mudava o final. — E mesmo assim pedia pra eu contar de novo no dia seguinte. O silêncio que se seguiu não foi pesado. Foi suave. Nostálgico. — Você sempre foi muito observadora — continuou Magno. — Quietinha, mas atenta a tudo. Lembro de você sentada no chão do escritório do seu pai, brincando com aquelas miniaturas de carro… enquanto fingia que não estava ouvindo nossas conversas. — Eu ouvia tudo — confessou. — Achava que negócios eram tipo um jogo. — De certa forma, são — respondeu. — Só que com consequências reais. Ela respirou fundo. — Eu nunca precisei pensar nisso. Meu pai sempre dizia que eu teria tempo. Magno abaixou o olhar por um instante. — Ele queria te proteger do peso cedo demais. — E agora? — perguntou ela, quase num sussurro. — Eu não sei fazer nada sozinha. Magno estendeu a mão e pousou sobre a dela, com cuidado. — Você vai aprender. E não vai fazer isso sozinha. Nos dias seguintes, ficou claro que Gabriella não teria alta tão cedo. O médico explicou que, apesar de não haver risco imediato, o impacto havia sido forte demais para uma recuperação rápida. Ela precisava ficar em observação, fazer exames complementares, descansar. — Seu corpo precisa de tempo — dissera o doutor Henrique. — E sua mente também. Magno foi quem assinou tudo. Resolveu tudo. Questionou horários, pediu explicações, ajustou medicações. E ficou. Ele chegava cedo e só saía quando a equipe praticamente o expulsava. Algumas vezes, nem saía — apenas dormia m*l na poltrona, com o pescoço torto e o celular esquecido no bolso. — Você não precisa ficar o tempo todo — disse Gabriella certa noite, a voz baixa. — Você deve ter mil coisas pra resolver. — Tenho — respondeu ele, sem hesitar. — Mas nenhuma mais importante que você agora. Ela engoliu em seco. — Você tá cansado. — Faz parte. Houve um dia em que ela acordou chorando, sem saber exatamente o motivo. As lágrimas simplesmente vieram, silenciosas, quentes, acumuladas. Magno percebeu antes mesmo de ela chamá-lo. — Ei… — aproximou-se, sentando-se na beira da cama. — O que foi? Ela tentou falar, mas a voz não saiu. Apenas balançou a cabeça. Ele não insistiu. Apenas a puxou, com cuidado extremo, para um abraço lento, contido, respeitoso. O corpo dela ainda doía, então ele foi delicado, mantendo-a apoiada mais no peito do que nos braços. Gabriella chorou ali. Sem pressa. Sem palavras. Magno ficou em silêncio, uma mão firme nas costas dela, a outra apoiando-lhe o braço, como se estivesse segurando algo precioso demais para cair. — Você pode chorar — disse, baixo. — Não precisa ser forte agora. — Eu não sei quem eu sou sem eles — confessou, entre soluços. Magno respirou fundo. — Você ainda é você. A filha deles. A afilhada que eu vi crescer. — afastou-se só o suficiente para olhá-la nos olhos. — E alguém que ainda tem muita coisa pela frente, mesmo que agora não pareça. Ela assentiu, cansada demais para argumentar. Em outra tarde, enquanto a chuva caía fina contra a janela do quarto, Gabriella observava as gotas escorrerem pelo vidro. — Você lembra do meu aniversário de dez anos? — perguntou, de repente. — Claro que lembro. — Você me deu uma bicicleta azul. — E você caiu no mesmo dia. Ela riu baixinho. — Meu pai ficou desesperado. Minha mãe dizia “deixa cair, assim aprende”. — E eu fui quem te ensinou a subir de novo. Ela virou o rosto para ele. — Você sempre esteve por perto, né? Magno sustentou o olhar. — Sempre. As visitas da família começaram a acontecer, mas nenhuma delas parecia realmente interessada em Gabriella. Eram rápidas, formais, cheias de perguntas que não tinham a ver com a saúde dela. — Quando ela vai ter alta? — Ela já sabe da herança? — Quem está cuidando das decisões? Magno respondia tudo. Controlado. Frio quando precisava. Quando ficavam sozinhos de novo, Gabriella suspirava aliviada. — Eles não querem saber de mim — comentou certa vez. — Eu sei. — Só do que eu tenho. — E por isso mesmo você não vai lidar com isso agora — afirmou ele. — Você só precisa se recuperar. — Você fala como se tivesse certeza de tudo. — Eu preciso ter — respondeu. — Alguém precisa. Na terceira noite, Gabriella teve um pesadelo. Acordou assustada, o coração disparado, o corpo suado. — Magno! — chamou, quase em pânico. Ele estava de pé em um segundo. — Tô aqui. — Eu sonhei que o carro rodava de novo… — disse, a voz tremendo. — E eu não conseguia gritar. Magno sentou-se ao lado dela e segurou seu rosto com as duas mãos, firme, presente. — Olha pra mim — pediu. — Você tá aqui. Tá segura. Já passou. Ela respirou fundo, seguindo o ritmo que ele impunha com a própria voz. — Você sempre fez isso — murmurou, mais calma. — Quando eu tinha medo de trovão. — Ainda funciona, então. — Funciona. Ela se recostou de novo, e Magno ficou ali até ter certeza de que ela dormia. Aos poucos, Gabriella começou a perceber algo novo: a presença dele não apenas a consolava… ela a ancorava. Ele era constante. Previsível. Forte. Num mundo que tinha desmoronado, Magno Carvalho era a única coisa que permanecia de pé. E, sem perceber, ela passou a esperar pelos momentos em que ele chegava. Pela voz grave chamando seu nome. Pelas histórias antigas. Pelo silêncio confortável que se instalava entre eles. Ainda era apenas cuidado. Proteção. Nostalgia. Mas as raízes de algo muito mais complexo já começavam a se formar — silenciosas, profundas… e perigosas.
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