A primeira coisa que Gabriella sentiu foi o cheiro.
Álcool. Remédio. Algo estéril demais para ser confortável.
O segundo foi o peso do próprio corpo, como se estivesse afundada em algo denso, incapaz de se mover direito. As pálpebras pareciam coladas, e quando tentou abri-las, uma dor fina atravessou sua cabeça, obrigando-a a gemer baixinho.
O som saiu fraco. Estranho. Como se não fosse dela.
— Hm…
Tentou engolir em seco, mas a garganta estava seca demais, arranhando. Um bip constante ecoava próximo, ritmado, irritante. Cada som parecia bater direto dentro do crânio.
Ela piscou.
Luz branca.
Tudo estava branco.
O teto, as paredes, as cortinas parcialmente fechadas. Por um segundo, achou que ainda estivesse sonhando — ou presa naquele espaço sem forma entre um sonho e outro.
Tentou se mexer.
Uma fisgada atravessou o corpo inteiro.
— Ai… — sussurrou, a voz rouca, quase inexistente.
O movimento foi mínimo, mas suficiente para disparar uma onda de dor que a fez fechar os olhos de novo, respirando fundo. Algo puxava seu braço. Um acesso. Soro. Sentiu o frio do líquido entrando na veia.
Hospital.
A palavra surgiu na mente com um atraso estranho.
Hospital.
O coração acelerou de leve.
Por quê?
A lembrança veio como flashes desconexos.
O carro.
A estrada.
A música baixa.
A risada do pai.
E então—
Um barulho seco.
Luz.
Impacto lembrado mais pelo corpo do que pela mente.
Os olhos dela se abriram de novo, agora mais atentos, mais assustados.
— Mãe? — chamou, quase sem som.
Silêncio.
— Pai…?
Nada.
A respiração começou a ficar irregular.
O peito apertou de um jeito diferente, não exatamente dor física — algo mais fundo, mais instintivo. Um pressentimento r**m, pesado, que se instalava antes mesmo de qualquer confirmação.
— Alguém…? — tentou outra vez, a voz falhando.
A porta do quarto se abriu segundos depois, e uma enfermeira entrou, com passos rápidos e profissionais.
— Gabriella? — disse com suavidade, aproximando-se da cama. — Você acordou. Que bom.
Gabi tentou focar o rosto da mulher, mas tudo ainda parecia meio fora de lugar.
— Onde… — parou para tossir de leve. — Onde estão meus pais?
A enfermeira manteve o sorriso treinado por mais um segundo do que o necessário.
— Calma, querida. Você sofreu um acidente. Está no hospital desde ontem à noite. — ajeitou o soro, observando os monitores. — Você precisa ficar tranquila agora.
— Meus pais — repetiu, mais firme, sentindo o coração bater mais rápido. — Eles estavam comigo.
A mulher desviou o olhar por um instante mínimo. Quase imperceptível.
Mas Gabriella viu.
E foi ali que tudo começou a desmoronar.
— Eu vou chamar o médico, tá bem? — disse a enfermeira, evitando responder diretamente. — E alguém da sua família.
Família.
A palavra ecoou estranha.
Antes que Gabriella pudesse insistir, a enfermeira saiu do quarto, deixando a porta se fechar num clique baixo demais para o tamanho do silêncio que ficou.
Sozinha.
De novo.
O aperto no peito virou pânico.
Ela tentou se sentar, mas o corpo protestou com força. Uma dor atravessou o abdômen, o ombro, o pescoço. Havia curativos. Sentia-os mesmo sem olhar.
— Não… — murmurou, as lágrimas surgindo sem pedir permissão. — Não, não, não…
As imagens voltavam fragmentadas. O carro rodando. Um clarão. Um som impossível de esquecer.
A porta se abriu novamente, agora com mais de uma pessoa entrando. Um médico de meia-idade, a enfermeira e… alguém que Gabriella não reconheceu de imediato.
Um homem alto, de terno escuro, postura firme, expressão séria demais para aquele ambiente. O rosto marcado por noites m*l dormidas, a mandíbula travada como se estivesse segurando algo pesado por dentro.
Ele parou assim que a viu acordada.
E naquele instante, mesmo sem entender quem ele era, Gabriella sentiu algo diferente.
Segurança.
— Gabriella — disse o médico, aproximando-se da cama. — Sou o doutor Henrique. Você sofreu um acidente grave, mas está fora de perigo agora.
Ela quase não ouviu.
O olhar estava preso no homem atrás dele.
— Quem é…? — perguntou, com dificuldade.
O médico respirou fundo antes de continuar.
— Seus pais… — começou, com a voz cuidadosa. — Infelizmente, não resistiram aos ferimentos.
O mundo não acabou de uma vez.
Ele simplesmente parou.
O som do monitor ficou distante. O ar parecia rarefeito. Gabriella encarou o médico, esperando que ele continuasse, que corrigisse, que dissesse que era um erro.
— Não — sussurrou. — Não… eles estavam falando comigo. A gente ia viajar.
O homem de terno deu um passo à frente.
— Gabi…
A forma como ele disse o apelido fez algo dentro dela se romper.
Ela o reconheceu.
— Magno…? — a voz saiu quebrada.
Magno Carvalho assentiu devagar, aproximando-se da cama.
— Eu tô aqui — disse, firme. — Desde ontem.
As lágrimas desceram com força agora. O choro veio pesado, sem controle, arrancado do fundo do peito.
— Eles… — tentou dizer, mas não conseguiu completar.
Magno segurou a lateral da cama com força, como se fosse a única coisa que o mantinha de pé.
— Eu sei — respondeu, com a voz mais baixa. — Eu sei, pequena.
Pequena.
Era assim que ele a chamava desde criança.
O médico deu alguns minutos, orientou sobre sedação leve, explicou coisas que Gabriella não absorveu. Tudo parecia distante demais para fazer sentido.
Quando ficaram sozinhos, o silêncio voltou a se instalar.
Magno puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama.
Ele parecia deslocado ali, grande demais para aquele espaço branco. O terno impecável contrastava com o ambiente hospitalar, mas havia algo cansado nele. Os olhos carregavam uma dor contida, controlada à força.
— Eu queria que você não tivesse acordado sozinha — disse, depois de um tempo. — Mas precisei resolver algumas coisas.
Gabriella o observava como se ele fosse a única coisa real naquele quarto.
— Eu sonhei que eles estavam rindo — murmurou. — Meu pai estava dirigindo… minha mãe brigando com ele por causa do celular.
Magno engoliu em seco.
— Eles te amavam mais do que qualquer coisa — respondeu. — E estavam felizes. Isso ninguém tira.
Ela virou o rosto, deixando as lágrimas caírem no travesseiro.
— Eu não tenho mais ninguém.
A frase saiu sem drama. Apenas constatação.
Magno se inclinou um pouco mais.
— Tem a mim.
Ela voltou o olhar para ele, confusa.
— Você é meu padrinho… — disse, como se aquilo não fosse suficiente.
— E melhor amigo do seu pai — completou. — E sócio. E alguém que prometeu cuidar de você se algum dia fosse preciso.
A mão dele pousou sobre a dela, com cuidado.
O toque era firme, quente. Diferente de tudo o que ela sentia naquele momento frio e estéril.
— Eu vou ficar — garantiu. — Pelo tempo que for preciso.
Ela respirou fundo, tentando segurar o choro que insistia em voltar.
— O que vai acontecer agora? — perguntou, com medo da resposta.
Magno desviou o olhar por um segundo, pensativo.
— A herança do seu pai… — começou. — Vai entrar em disputa. Alguns familiares já se manifestaram.
O estômago dela se revirou.
— Família? — repetiu. — Agora eles aparecem?
— Não para te acolher — respondeu com honestidade dura. — Só para contestar bens, decisões, porcentagens.
Gabriella fechou os olhos.
— Então eu não tenho nada.
— Você tem — corrigiu ele. — Só não acesso imediato.
Ela riu sem humor.
— Nunca trabalhei. Nunca precisei saber como o mundo funciona de verdade.
Magno a observou com atenção.
— Então vamos aprender.
Ela abriu os olhos, encontrando o olhar firme dele.
— Como?
— Primeiro, você vem comigo — disse. — Pra minha casa. Não vai ficar sozinha.
— E depois?
Um silêncio carregado se instalou.
— Depois — continuou — a gente reconstrói.
A palavra ecoou diferente.
Reconstruir.
Gabriella apertou os dedos contra o lençol.
— Você tem certeza? — perguntou. — Eu não quero ser um peso.
Magno se levantou, ajeitando o paletó, e a encarou de cima, com uma seriedade que a fez prender a respiração.
— Gabriella, olha pra mim. — esperou até ela obedecer. — Você nunca foi, não é e nunca será um peso.
Algo naquele tom… naquela autoridade natural… fez o coração dela bater diferente.
Ela assentiu devagar.
— Tá.
Magno respirou fundo.
— Descansa agora. Eu vou cuidar de tudo.
Antes de sair, ele olhou para ela uma última vez.
— Você não está sozinha — repetiu. — Nunca esteve.
A porta se fechou.
Gabriella ficou olhando para o teto branco.
Tudo tinha acabado.
E, ao mesmo tempo, algo completamente novo — desconhecido, perigoso — estava começando.