QUANDO ELA ACORDOU SOZINHA

1443 Words
A primeira coisa que Gabriella sentiu foi o cheiro. Álcool. Remédio. Algo estéril demais para ser confortável. O segundo foi o peso do próprio corpo, como se estivesse afundada em algo denso, incapaz de se mover direito. As pálpebras pareciam coladas, e quando tentou abri-las, uma dor fina atravessou sua cabeça, obrigando-a a gemer baixinho. O som saiu fraco. Estranho. Como se não fosse dela. — Hm… Tentou engolir em seco, mas a garganta estava seca demais, arranhando. Um bip constante ecoava próximo, ritmado, irritante. Cada som parecia bater direto dentro do crânio. Ela piscou. Luz branca. Tudo estava branco. O teto, as paredes, as cortinas parcialmente fechadas. Por um segundo, achou que ainda estivesse sonhando — ou presa naquele espaço sem forma entre um sonho e outro. Tentou se mexer. Uma fisgada atravessou o corpo inteiro. — Ai… — sussurrou, a voz rouca, quase inexistente. O movimento foi mínimo, mas suficiente para disparar uma onda de dor que a fez fechar os olhos de novo, respirando fundo. Algo puxava seu braço. Um acesso. Soro. Sentiu o frio do líquido entrando na veia. Hospital. A palavra surgiu na mente com um atraso estranho. Hospital. O coração acelerou de leve. Por quê? A lembrança veio como flashes desconexos. O carro. A estrada. A música baixa. A risada do pai. E então— Um barulho seco. Luz. Impacto lembrado mais pelo corpo do que pela mente. Os olhos dela se abriram de novo, agora mais atentos, mais assustados. — Mãe? — chamou, quase sem som. Silêncio. — Pai…? Nada. A respiração começou a ficar irregular. O peito apertou de um jeito diferente, não exatamente dor física — algo mais fundo, mais instintivo. Um pressentimento r**m, pesado, que se instalava antes mesmo de qualquer confirmação. — Alguém…? — tentou outra vez, a voz falhando. A porta do quarto se abriu segundos depois, e uma enfermeira entrou, com passos rápidos e profissionais. — Gabriella? — disse com suavidade, aproximando-se da cama. — Você acordou. Que bom. Gabi tentou focar o rosto da mulher, mas tudo ainda parecia meio fora de lugar. — Onde… — parou para tossir de leve. — Onde estão meus pais? A enfermeira manteve o sorriso treinado por mais um segundo do que o necessário. — Calma, querida. Você sofreu um acidente. Está no hospital desde ontem à noite. — ajeitou o soro, observando os monitores. — Você precisa ficar tranquila agora. — Meus pais — repetiu, mais firme, sentindo o coração bater mais rápido. — Eles estavam comigo. A mulher desviou o olhar por um instante mínimo. Quase imperceptível. Mas Gabriella viu. E foi ali que tudo começou a desmoronar. — Eu vou chamar o médico, tá bem? — disse a enfermeira, evitando responder diretamente. — E alguém da sua família. Família. A palavra ecoou estranha. Antes que Gabriella pudesse insistir, a enfermeira saiu do quarto, deixando a porta se fechar num clique baixo demais para o tamanho do silêncio que ficou. Sozinha. De novo. O aperto no peito virou pânico. Ela tentou se sentar, mas o corpo protestou com força. Uma dor atravessou o abdômen, o ombro, o pescoço. Havia curativos. Sentia-os mesmo sem olhar. — Não… — murmurou, as lágrimas surgindo sem pedir permissão. — Não, não, não… As imagens voltavam fragmentadas. O carro rodando. Um clarão. Um som impossível de esquecer. A porta se abriu novamente, agora com mais de uma pessoa entrando. Um médico de meia-idade, a enfermeira e… alguém que Gabriella não reconheceu de imediato. Um homem alto, de terno escuro, postura firme, expressão séria demais para aquele ambiente. O rosto marcado por noites m*l dormidas, a mandíbula travada como se estivesse segurando algo pesado por dentro. Ele parou assim que a viu acordada. E naquele instante, mesmo sem entender quem ele era, Gabriella sentiu algo diferente. Segurança. — Gabriella — disse o médico, aproximando-se da cama. — Sou o doutor Henrique. Você sofreu um acidente grave, mas está fora de perigo agora. Ela quase não ouviu. O olhar estava preso no homem atrás dele. — Quem é…? — perguntou, com dificuldade. O médico respirou fundo antes de continuar. — Seus pais… — começou, com a voz cuidadosa. — Infelizmente, não resistiram aos ferimentos. O mundo não acabou de uma vez. Ele simplesmente parou. O som do monitor ficou distante. O ar parecia rarefeito. Gabriella encarou o médico, esperando que ele continuasse, que corrigisse, que dissesse que era um erro. — Não — sussurrou. — Não… eles estavam falando comigo. A gente ia viajar. O homem de terno deu um passo à frente. — Gabi… A forma como ele disse o apelido fez algo dentro dela se romper. Ela o reconheceu. — Magno…? — a voz saiu quebrada. Magno Carvalho assentiu devagar, aproximando-se da cama. — Eu tô aqui — disse, firme. — Desde ontem. As lágrimas desceram com força agora. O choro veio pesado, sem controle, arrancado do fundo do peito. — Eles… — tentou dizer, mas não conseguiu completar. Magno segurou a lateral da cama com força, como se fosse a única coisa que o mantinha de pé. — Eu sei — respondeu, com a voz mais baixa. — Eu sei, pequena. Pequena. Era assim que ele a chamava desde criança. O médico deu alguns minutos, orientou sobre sedação leve, explicou coisas que Gabriella não absorveu. Tudo parecia distante demais para fazer sentido. Quando ficaram sozinhos, o silêncio voltou a se instalar. Magno puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. Ele parecia deslocado ali, grande demais para aquele espaço branco. O terno impecável contrastava com o ambiente hospitalar, mas havia algo cansado nele. Os olhos carregavam uma dor contida, controlada à força. — Eu queria que você não tivesse acordado sozinha — disse, depois de um tempo. — Mas precisei resolver algumas coisas. Gabriella o observava como se ele fosse a única coisa real naquele quarto. — Eu sonhei que eles estavam rindo — murmurou. — Meu pai estava dirigindo… minha mãe brigando com ele por causa do celular. Magno engoliu em seco. — Eles te amavam mais do que qualquer coisa — respondeu. — E estavam felizes. Isso ninguém tira. Ela virou o rosto, deixando as lágrimas caírem no travesseiro. — Eu não tenho mais ninguém. A frase saiu sem drama. Apenas constatação. Magno se inclinou um pouco mais. — Tem a mim. Ela voltou o olhar para ele, confusa. — Você é meu padrinho… — disse, como se aquilo não fosse suficiente. — E melhor amigo do seu pai — completou. — E sócio. E alguém que prometeu cuidar de você se algum dia fosse preciso. A mão dele pousou sobre a dela, com cuidado. O toque era firme, quente. Diferente de tudo o que ela sentia naquele momento frio e estéril. — Eu vou ficar — garantiu. — Pelo tempo que for preciso. Ela respirou fundo, tentando segurar o choro que insistia em voltar. — O que vai acontecer agora? — perguntou, com medo da resposta. Magno desviou o olhar por um segundo, pensativo. — A herança do seu pai… — começou. — Vai entrar em disputa. Alguns familiares já se manifestaram. O estômago dela se revirou. — Família? — repetiu. — Agora eles aparecem? — Não para te acolher — respondeu com honestidade dura. — Só para contestar bens, decisões, porcentagens. Gabriella fechou os olhos. — Então eu não tenho nada. — Você tem — corrigiu ele. — Só não acesso imediato. Ela riu sem humor. — Nunca trabalhei. Nunca precisei saber como o mundo funciona de verdade. Magno a observou com atenção. — Então vamos aprender. Ela abriu os olhos, encontrando o olhar firme dele. — Como? — Primeiro, você vem comigo — disse. — Pra minha casa. Não vai ficar sozinha. — E depois? Um silêncio carregado se instalou. — Depois — continuou — a gente reconstrói. A palavra ecoou diferente. Reconstruir. Gabriella apertou os dedos contra o lençol. — Você tem certeza? — perguntou. — Eu não quero ser um peso. Magno se levantou, ajeitando o paletó, e a encarou de cima, com uma seriedade que a fez prender a respiração. — Gabriella, olha pra mim. — esperou até ela obedecer. — Você nunca foi, não é e nunca será um peso. Algo naquele tom… naquela autoridade natural… fez o coração dela bater diferente. Ela assentiu devagar. — Tá. Magno respirou fundo. — Descansa agora. Eu vou cuidar de tudo. Antes de sair, ele olhou para ela uma última vez. — Você não está sozinha — repetiu. — Nunca esteve. A porta se fechou. Gabriella ficou olhando para o teto branco. Tudo tinha acabado. E, ao mesmo tempo, algo completamente novo — desconhecido, perigoso — estava começando.
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