PEDIR DEMAIS

1140 Words
A mudança não aconteceu de uma vez. Foi gradual, quase imperceptível, como o deslocamento lento de uma placa tectônica sob a superfície. Nada quebrava. Nada explodia. Mas tudo rangia por dentro. Magno começou a perceber que Gabriella já não ocupava apenas os espaços físicos da casa e da empresa. Ela ocupava o tempo entre um pensamento e outro. O intervalo entre decisões. Aquela fração de segundo antes de dormir em que a mente, cansada de se defender, baixava a guarda. Ela estava ali. E o pior — ou o mais perigoso — era que ela não parecia ter pressa. Naquela sexta-feira, a empresa estava mais vazia do que o normal. Muitos funcionários tinham saído mais cedo, e o prédio inteiro parecia respirar num ritmo mais lento, quase íntimo. Magno passou a tarde resolvendo pendências, assinando documentos, encerrando reuniões por chamada. Gabriella permaneceu na sala ao lado, trabalhando em silêncio. Quando ele saiu para buscar um café, encontrou-a sentada à mesa, concentrada, os óculos apoiados no nariz, o cabelo preso de qualquer jeito. A luz do fim da tarde entrava pela janela, desenhando sombras suaves sobre o rosto dela. — Vai embora cedo hoje? — ela perguntou, sem tirar os olhos do papel. — Pretendia — respondeu. — Você também deveria. — Ainda quero terminar isso aqui. Ele assentiu, observando-a por um segundo a mais do que deveria. — Não precisa se cobrar tanto. Ela ergueu os olhos devagar. — Eu sei. Mas quero aprender de verdade. Não só ocupar espaço. Aquilo o atingiu de um jeito silencioso. — Você já ocupa — ele disse, antes de pensar. — Espaço suficiente. O olhar que ela lançou em resposta não foi provocativo. Foi atento. Como se estivesse registrando algo importante. — Então fico mais um pouco — respondeu, tranquila. Mais tarde, quando o prédio estava quase vazio, Magno chamou: — Gabriella. Ela apareceu na porta da sala dele. — Oi? — Vem cá um instante. Ela entrou, fechando a porta atrás de si sem pressa. — Senta — ele disse, apontando para a cadeira à frente da mesa. — Quero te mostrar uma coisa. Ela se aproximou, mas não se sentou de imediato. — O quê? — Um relatório antigo. Do seu pai. Acho que vai te interessar. A menção ao pai sempre mudava algo entre eles. Tornava tudo mais sério. Mais sensível. Ela sentou. Magno puxou o arquivo no computador, começou a explicar, passando os dedos pela tela, apontando gráficos, linhas, decisões estratégicas. Gabriella acompanhava com atenção real, fazendo perguntas boas, inteligentes. Em determinado momento, ela se inclinou para frente. — Espera… isso aqui — disse, apontando. — Ele fez isso sozinho? — Não — Magno respondeu. — Eu estava com ele. O silêncio se instalou. — Você sempre esteve — ela comentou, mais como constatação do que pergunta. — Sim. — Sempre cuidando. Ele respirou fundo. — Era meu trabalho. — Não era só isso — ela disse, com suavidade. — Nunca foi. O ar pareceu mais denso. Ela se levantou devagar, aproximando-se da mesa para enxergar melhor a tela. Ficou ao lado dele, próxima o suficiente para que ele sentisse o perfume leve que ela usava. Nada marcante. Quase íntim0 demais. — Magno… — ela começou, hesitando de propósito. — Posso te perguntar uma coisa? — Pode. — Você ainda me vê como… aquela menina? Ele não respondeu de imediato. — Por que essa pergunta? — Porque às vezes parece que você me trata como se eu fosse algo que pode quebrar — ela disse, sem acusação. — E eu não sou mais uma criança. Magno girou a cadeira, ficando de frente para ela. — Eu sei que você não é — disse, sério. — Mas isso não muda o fato de que eu me sinto responsável por você. — Responsável… — ela repetiu, pensativa. — Ou tem medo? Ele sustentou o olhar dela. — As duas coisas. Ela sorriu de leve. — Medo do quê? — De errar — respondeu. — De cruzar uma linha que não pode ser desfeita, eu te vi crescer, prometi para seu pai que se ele não estivesse aqui, eu cuidaria de você. O silêncio voltou a crescer entre eles, pesado, carregado. Gabriella apoiou as mãos na mesa, inclinando-se levemente para frente. O gesto foi lento, natural, sem pressa. — E se a linha já tiver sido cruzada… só que em pensamento? O coração de Magno acelerou. — Gabriella… — Eu não estou te acusando — ela interrompeu, a voz baixa, calma. — Só estou sendo honesta. Ela deu a volta na mesa devagar, parando muito perto dele. Não tocou. Não precisou. — Às vezes eu sinto que você segura demais — continuou. — Como se estivesse sempre se afastando um passo antes de algo acontecer. — Porque é o certo. — Certo pra quem? Ele se levantou. Agora estavam frente a frente. Muito perto. — Pra nós dois. — Ou pra você? — ela devolveu, os olhos fixos nos dele. O tempo parecia ter desacelerado. Magno sentia o corpo reagir contra a razão. A presença dela, o tom da voz, a maneira como ela ocupava aquele espaço… tudo conspirava contra o autocontrole que ele vinha sustentando havia semanas. — Você não faz ideia do efeito que tem — ele disse, baixo, quase contra a própria vontade. O olhar dela escureceu um pouco. — Faço, sim. Ela deu um passo à frente. O suficiente para que ele sentisse o calor do corpo dela. — E é exatamente por isso que estou sendo cuidadosa. Magno fechou os olhos por um segundo. — Isso é perigoso. — Eu sei — ela respondeu. — Mas também é real. A mão dela subiu devagar, parando a poucos centímetros do peito dele. Não tocou. Esperou. — Se eu encostar… — ela murmurou. — Você vai me afastar? Ele respirava mais pesado agora. — Provavelmente. — E se eu não encostar? Ele abriu os olhos. Sem resposta. Um meio sorriso surgiu nos lábios dela. — Então acho que chegamos a um impasse. Ela se afastou um passo, dando a ele espaço — e tirando o chão sob seus pés ao mesmo tempo. — Eu vou embora — disse, pegando a bolsa. — Já está tarde. Magno assentiu, rígido demais. — É melhor. Ela caminhou até a porta, mas parou antes de sair. — Magno. — Sim? Ela se virou. — Só pra você saber… eu não brinco com o que sinto. O olhar que eles trocaram naquele instante foi tudo menos inocente. Quando a porta se fechou, Magno permaneceu ali, imóvel, o corpo tenso, a mente em caos absoluto. Ele sabia. Sabia que estava no limite. Sabia que a próxima vez não seria apenas conversa. Sabia que o controle estava escapando pelas frestas. E, pela primeira vez em muito tempo… Ele não tinha certeza se queria segurá-lo de volta.
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