A porta da sala ainda parecia vibrar quando Gabriella foi embora.
Magno permaneceu de pé por alguns segundos depois que o som dos passos dela desapareceu no corredor. O silêncio voltou a ocupar o espaço, mas não era o mesmo silêncio de antes. Agora havia algo suspenso no ar — uma expectativa incômoda, quase palpável, como se a sala tivesse guardado cada palavra não dita, cada gesto interrompido.
Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo, caminhou até a janela e abriu um pouco mais as persianas. A cidade lá embaixo começava a se iluminar, faróis, postes, prédios acendendo como um organismo vivo que não parava nunca. Tudo seguia normalmente. Só ele parecia fora do ritmo.
— Drog4… — murmurou, mais para si mesmo do que para o vazio.
Voltou até a mesa, sentou-se, mas não conseguiu se concentrar. Abriu um documento, fechou sem ler. Pegou o celular, encarou a tela apagada. Nenhuma notificação. Nenhuma distração suficiente.
Gabriella ainda estava ali.
No cheiro leve que permanecia no ar.
No espaço mínimo que ela ocupou — e que agora parecia grande demais.
Na lembrança do olhar dela quando disse que não brincava com o que sentia.
Magno se recostou na cadeira, fechando os olhos por um instante. Era absurdo. Ele sabia. Conhecia todas as razões pelas quais não deveria sequer considerar aquilo. Responsabilidade, passado, promessa silenciosa feita a si mesmo anos atrás.
Mas o desejo não pedia licença para existir.
Ele se levantou de novo, caminhando pela sala como um animal preso. Abriu uma gaveta, conferiu papéis que não precisava. Ajustou um objeto que já estava alinhado. Tudo para evitar pensar no que o corpo insistia em lembrar.
A empresa estava vazia. O último andar, em especial, parecia isolado do mundo. Nenhum som de vozes, nenhum telefone tocando, nenhum elevador subindo. Apenas o zumbido distante do ar-condicionado e o próprio pensamento martelando.
Magno pegou o paletó, jogou sobre o sofá, afrouxou a gravata. Precisava ir embora. Sabia disso. Mas também sabia que, se entrasse no carro naquele estado, levaria tudo com ele.
Decidiu ficar mais um pouco.
Sentou-se novamente à mesa, abriu um relatório qualquer, forçando os olhos a seguirem linhas que não faziam sentido. A concentração vinha e ia, sempre interrompida por imagens que ele não convidara.
O tempo passou sem que ele percebesse.
Foi o som distante do elevador que o trouxe de volta.
Magno ergueu a cabeça de imediato.
O prédio estava quase fechado. Não esperava mais ninguém.
Ouviu passos no corredor.
Calmos.
Seguros.
Conhecidos.
Ele se levantou devagar, sentindo o corpo reagir antes mesmo da mente identificar quem era. A porta da sala dele se abriu sem cerimônia.
Bruna entrou.
A ruiva parecia surpresa ao encontrá-lo ali, mas apenas por um segundo. Logo o olhar avaliador apareceu, seguido de um meio sorriso automático. Ela vestia um tailleur escuro, elegante demais. O cabelo ruivo caía solto sobre os ombros, perfeitamente arrumado.
— Ainda trabalhando? — ela perguntou, fechando a porta atrás de si. — Achei que já tivesse ido embora.
Magno franziu levemente a testa.
— E você? — respondeu, direto. — O prédio está vazio.
Ela deu de ombros, caminhando alguns passos para dentro da sala, como se aquele espaço também fosse dela — o que, em parte, era.
— Esqueci minha bolsa — disse, simples. — Só percebi quando já estava em casa e precisei pegar minha carteira.
Magno cruzou os braços, observando-a com atenção silenciosa.
— Você costuma esquecer coisas importantes agora?
Ela sorriu de canto.
— Depende do dia.
Bruna passou os olhos pela sala, como se procurasse algo além da bolsa. Reparou no paletó jogado, na gravata frouxa, na expressão contida demais dele. Aproximou-se um pouco mais.
— Você não parece bem — comentou. — Algum problema?
— Nada que diga respeito à empresa.
— Nem tudo na sua vida gira em torno da empresa, Magno — ela respondeu, parando a poucos passos dele. — Ou pelo menos não deveria.
Ele sustentou o olhar dela por um instante mais longo.
— O que você quer, Bruna?
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Além da bolsa? — fez uma pausa calculada. — Talvez entender por que o grande controlador está tão… fora de eixo hoje.
O silêncio entre eles era diferente daquele que existira com Gabriella. Menos delicado. Mais direto. Carregado de algo conhecido, previsível.
— Não é um bom momento — Magno disse, sério.
— Nunca é — ela rebateu. — E mesmo assim, aqui estamos.
Bruna caminhou até a própria sala, pegou a bolsa que realmente estava ali, como se provasse seu álibi. Mas não foi embora, voltou até Magno. Girou a bolsa no ombro, apoiou-se no encosto, cruzando os braços.
— Você anda estranho — continuou. — Distante. Tenso. Achei que fosse comigo, mas pelo jeito…
Ela deixou a frase no ar.
— Pelo jeito, o quê? — ele perguntou.
Ela deu um passo à frente.
— Pelo jeito tem outra coisa ocupando sua cabeça.
Magno respirou fundo.
— Não começa.
— Eu não estou começando nada — respondeu, calma demais. — Só estou observando.
Ela parou muito perto agora. Próxima o suficiente para que ele sentisse o perfume dela — mais intenso, mais marcante. Diferente do de Gabriella. Tudo em Bruna era diferente.
— A empresa vazia — ela murmurou. — Você aqui sozinho… confessa, Magno. Não era exatamente isso que você planejava pra essa noite.
Ele desviou o olhar por um segundo, gesto que ela percebeu de imediato.
— Você deveria ir embora — disse.
Bruna sorriu.
— Talvez — respondeu. — Mas acho que você também não quer ficar sozinho agora.
O silêncio que se formou não era confortável. Era denso. Expectante.
Magno sabia exatamente onde aquilo podia levar.
E, naquele instante, com a mente em conflito e o corpo ainda reagindo ao que tinha sido deixado para trás minutos antes…
Ele não tinha certeza se tinha forças para evitar.