RETORNO E GELO

1531 Words
Não havia comunicado, nem anúncio formal sobre a briga na ponte. O cronograma do evento seguia no papel, como se nada tivesse acontecido. Mas os olhares mudaram. As conversas eram mais baixas. Os cumprimentos, mais contidos. A notícia tinha corrido rápido demais para ser ignorada. Magno parecia outra pessoa, o corpo doía em lugares diferentes a cada movimento — ombro, costelas, maxilar. O corte no lábio já começava a escurecer. O reflexo no espelho não era o de um homem que tinha “resolvido” alguma coisa. Era o de alguém que tinha perdido o controle. Ele apoiou as mãos na bancada do banheiro por alguns segundos, respirando fundo, encarando o próprio reflexo. Henrique estava sendo discreto. Isso ele já sabia. Um dos organizadores tinha ligado, pedindo “bom senso” de ambas as partes. A segurança do resort estava reforçada. E havia um esforço quase desesperado para que o assunto morresse ali. Mas não morreria. Não para Gabriella. E isso pesava mais. Magno saiu do bangalô já com o celular na mão. — Preciso do jatinho pronto em três horas — disse ao comandante assim que a chamada foi atendida. — Decolagem imediata assim que chegarmos. Do outro lado, confirmação objetiva. Ele desligou. Sem hesitar. Sem consultar ninguém. Era hora de ir embora. Gabriella também não estava bem. Mas, ao contrário dele, não tinha hematomas visíveis. O que doía nela era menos aparente — e mais estratégico. Ela estava sentada na varanda do próprio bangalô quando recebeu a mensagem do assistente de Magno: “Partida antecipada. Voo em três horas.” Ela leu duas vezes. Nenhuma surpresa. Ele sempre fazia isso. Tomava decisões. Resolvia. Executava. E ela… agora era mais uma pessoa que apenas seguia. O maxilar dela travou levemente. Não dessa vez. Ela entrou, fechou a porta com cuidado e começou a organizar as malas. Dobrou cada peça com precisão quase irritante. Vestidos embalados. Sapatos protegidos. Joias guardadas na caixa rígida. Cada movimento era metódico demais. Porque, se ela parasse, pensaria. E se pensasse… sentiria. O evento não era apenas uma festa de luxo. Era um encontro estratégico. Muitos dos homens que tinham presenciado a briga seriam, em breve, sócios dela. Parceiros. Investidores. Pessoas que avaliariam cada passo, cada postura, cada associação. Ela precisava ser vista como estável. Firme. Capaz. Não como a herdeira envolvida em escândalo público. E, naquele momento, o nome dela estava associado à palavra “briga”. Ela fechou a mala com força um pouco maior do que o necessário. Raiva. Mas não só dele. Dela mesma também. Porque tinha provocado. Porque tinha beijado Henrique sabendo que Magno estava olhando. Porque, no fundo, queria mexer com ele. E mexeu. Demais. Eles se encontraram no saguão principal do resort. Não foi combinado. Foi inevitável. Magno já estava lá quando ela apareceu. Ele estava de terno leve, óculos escuros novamente, expressão neutra demais para ser natural. Malas ao lado. Postura firme. Ele a viu antes que ela percebesse. O vestido dela era simples dessa vez. Elegante. Contido. Cabelos presos em um coque baixo. Óculos grandes cobrindo parte do rosto. Armadura. Ela caminhou até ele. Parou a dois passos de distância. — O voo está pronto — ele disse. Só logística. Ela assentiu. — Obrigada por avisar. Formal. Ele pegou uma das malas dela antes que ela pudesse impedir. Ela não agradeceu. Não reclamou. Só deixou. O silêncio entre os dois era quase audível. O motorista já aguardava. Durante o trajeto até o aeroporto privado, o único som era o do motor e o da respiração controlada dos dois. Gabriella olhava pela janela. O mar passando ao lado. O mesmo mar onde, horas antes, ele quase tinha se afogado. Ela não comentou. Ele também não. O aeroporto particular era discreto. Sem filas. Sem tumulto. O jatinho branco com detalhes escuros já estava preparado na pista. A escada posicionada. O comandante aguardando. Magno trocou poucas palavras técnicas com a equipe. Gabriella ficou alguns passos atrás. De braços cruzados. Distante. Ele percebeu. Claro que percebeu. Mas não tentou encurtar a distância. Ainda não. Quando subiram a escada, ela entrou primeiro. Escolheu o assento do lado oposto ao habitual. Não ao lado dele. Não na mesma fileira. Do outro lado da cabine. A mensagem era clara. Magno acomodou-se sem comentar. O interior do jatinho era silencioso, luxuoso, revestido em couro claro e madeira escura. A iluminação suave contrastava com a tensão invisível no ar. O motor começou a ganhar força. Eles não se olharam durante a decolagem. Gabriella abriu o notebook. Magno abriu o tablet. Ambos fingindo produtividade. Ela realmente começou a trabalhar. Revisou relatórios. Respondeu e-mails estratégicos. Escreveu uma mensagem formal para dois investidores que estavam no evento, reforçando agenda futura e ignorando completamente o ocorrido. Profissional. Fria. Controlada. Mas, a cada vez que precisava se concentrar por mais de cinco minutos, a imagem da ponte voltava. A água. O sangue. O grito. Ela fechou o notebook com um pouco mais de força. Magno levantou os olhos. — Algum problema? Ela nem o encarou. — Nenhum. Silêncio novamente. O voo estava estável. Nuvens abaixo deles. Altitude segura. Mas o clima ali dentro era turbulento. Magno observava. Sem invadir. Mas observava. O jeito como ela cruzava as pernas. Como evitava qualquer contato visual. Como mantinha o queixo levemente elevado — postura de quem se protege com dignidade. Ele sabia que ela estava magoada. Sabia que tinha ultrapassado um limite público. Mas também sabia que, se tivesse que voltar no tempo… Não tinha certeza se faria diferente. E isso o incomodava. Depois de quase uma hora de silêncio, ele levantou-se. Foi até o pequeno bar do avião. Serviu água para ela. Levou até o assento dela. Ela percebeu a aproximação antes de olhar. Ele colocou o copo na mesinha lateral. — Você não bebeu nada desde que embarcamos. Ela manteve os olhos na janela. — Eu não pedi. Ele respirou fundo. — Eu sei. Ela finalmente olhou para ele. Não havia grito. Não havia choro. Só frieza. — Você não pode continuar tomando decisões por mim, Magno. Ele manteve a postura firme. — Eu organizei o voo antecipado porque era o melhor a fazer. — Para quem? A pergunta era a mesma. Ele respondeu mais rápido dessa vez. — Para nós dois. Ela inclinou levemente a cabeça. — Não existe “nós dois” quando você age sozinho. O golpe foi preciso. Ele absorveu. — Eu precisava tirar você daquele ambiente. — Eu precisava ficar. Ele franziu o cenho. — Para quê? — Para mostrar que eu não sou instável e manipulável. A palavra pesou. — Eu vou assumir tudo o que meu pai deixou. Ela falou devagar. Com clareza. — E aqueles homens estavam me observando. Ele ficou em silêncio. Ela continuou. — Eles não viram só você brigando. Viram a herdeira envolvida naquilo. O ar ficou mais pesado. — Eu não posso ser vista como emocional. — Você não é emocional. A sinceridade foi crua. Ele sentiu. Ela respirou fundo. — Eu tenho que ser respeitada. Não protegida como se fosse frágil. Ele se ajoelhou levemente ao lado do assento dela, para ficar na altura do olhar. — Eu nunca achei que você fosse frágil. — Mas você age como se eu fosse. Silêncio. O motor do avião parecia mais alto naquele momento. — Você acha que eu briguei por vaidade? — ele perguntou, mais baixo. Ela hesitou. — Eu acho que você não sabe separar proteção de posse. A frase ficou entre eles. Ele não reagiu de imediato. Absorveu. — Eu não queria te expor. — Mas expôs. Ela não elevou o tom. E isso era pior. — Meu pai passou anos construindo uma imagem. Ela olhou para ele agora sem desviar. — Eu não posso ser “a menina do escândalo”. Ele fechou os olhos por um segundo. Porque ela estava certa. Ele tinha pensado nela. Mas tinha pensado com emoção. Não com estratégia. E isso, no mundo deles, custava caro. Ele levantou devagar. Voltou para o próprio assento. Não discutiu. Não rebateu. E o silêncio voltou. O restante do voo foi assim. Longo. Suspenso. Cada um em seu lado da cabine. Separados por alguns metros. E por algo maior. Quando começaram a descer, a cidade apareceu pela janela. Familiar. Imponente. Cheia de compromissos esperando. O pouso foi suave. O taxiamento silencioso. A porta abriu. O ar da cidade entrou. Eles desceram juntos. Mas não lado a lado. O carro já aguardava na pista privada. O motorista abriu a porta. Gabriella entrou primeiro. Magno depois. O trajeto até a mansão foi curto demais. Porque ali… a conversa ainda não tinha terminado. E o gelo que ela estava impondo não era só punição. Era defesa. Ela não estava brava apenas pela briga. Estava brava porque ele mexia com ela. Porque ele a protegia. Porque ele a controlava. Porque ele a amava. E porque, no fundo, ela queria que esse amor fosse outra coisa. Mas não podia. Ainda não. E ele… estava começando a perceber que talvez tivesse perdido o direito de fingir que era só proteção. A casa apareceu no fim da rua. Portões abrindo. Um território seguro. Mas a guerra entre eles estava só começando.
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