Magno não olhou para trás quando saiu da área da ponte.
A camisa colava no corpo, pesada, ensopada. O gosto de sal ainda estava na boca, misturado com ferro. O maxilar doía. O lábio ardia onde havia sido cortado. O peito subia e descia rápido demais.
Mas nada disso incomodava tanto quanto o que Henrique tinha dito.
“Ela não é sua propriedade.”
A frase repetia.
Martelava.
Ele atravessou o resort sob olhares silenciosos. Conversas interrompidas. Pessoas fingindo não encarar. O evento estava oficialmente marcado por aquilo.
E ele sabia.
Sabia que tinha perdido o controle.
Sabia que tinha sido público demais.
Sabia que tinha sido… pessoal demais.
Entrou no bangalô e fechou a porta com mais força do que pretendia.
Ficou parado alguns segundos.
A água escorria pelo chão de madeira.
O silêncio ali dentro era sufocante.
Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo, tentando organizar a cabeça.
Não conseguiu.
Dois minutos depois, ouviu passos apressados do lado de fora.
A porta abriu sem bater.
Gabriella entrou.
Molhada, por ter tentado separar a briga na água.
O vestido colado ao corpo, pesado, os cabelos escuros grudados no rosto e nos ombros. A respiração acelerada. O olhar queimando.
E ele percebeu — não era só raiva.
Era algo misturado.
Vergonha.
Frustração.
E algo mais profundo.
— Você perdeu a noção?!
A voz dela saiu mais alta do que ela queria.
Magno virou devagar.
— Você veio aqui para gritar?
— Eu vim porque você fez um espetáculo ridículo!
Ela avançou dois passos.
— Na frente de todo mundo!
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Ele mereceu.
— Não é sobre ele!
Ela apontou para o próprio peito.
— É sobre mim!
O silêncio caiu pesado entre os dois.
Ela estava tremendo.
Não só de frio.
— Você me expôs. Me tratou como se eu fosse uma coisa sua. Como se eu não tivesse escolha. Como se eu fosse incapaz de decidir com quem eu falo ou beijo.
A palavra ficou no ar.
Beijo.
Magno sentiu o estômago revirar.
— Você fez aquilo para me provocar.
Ela deu uma risada incrédula.
— Sério?
Ele deu um passo à frente.
— Você sabia que eu estava olhando.
— E daí?!
— E daí que você não precisava fazer aquilo.
— Eu não precisava?
A voz dela tremeu.
— Eu não precisava beijar alguém porque você estava olhando?
Ele travou o maxilar.
— Não com ele.
— Ah, então agora você escolhe quem eu posso beijar?
O ar ficou mais denso.
Magno tentou controlar o tom.
— Eu conheço aquele tipo de homem.
— E você é o quê, Magno?
A pergunta veio afiada.
— O que você é, afinal?
Ele não respondeu imediatamente.
E ela continuou.
— Você nunca se envolve. Nunca se compromete. Nunca deixa ninguém chegar perto. Mas acha que pode decidir por mim?
Ele respirou fundo.
— Isso não é a mesma coisa.
— Não? Então me explica.
Ela estava próxima agora.
Perto demais.
O cheiro de água salgada, perfume e tensão misturados.
— Por que você se incomoda com quem eu falo ou beijo?
Silêncio.
Ela sustentou o olhar.
— Você não tem nada a ver com isso.
A frase atingiu.
Ele sentiu.
Ela viu.
E isso a fez tremer por dentro.
Porque ela não queria que fosse verdade.
Magno passou a mão pelo cabelo molhado, frustrado.
— Eu tenho, sim.
— Não, não tem!
— Eu sou responsável por você.
— Eu não sou mais uma criança!
Ele avançou um passo instintivo quando ela tentou se afastar.
E segurou o braço dela.
Não agressivo.
Mas firme.
O suficiente para fazê-la parar.
O toque queimou.
Não de dor.
De consciência.
Ela olhou para a mão dele no braço dela.
Depois para os olhos dele.
— Me solta.
A voz saiu mais baixa.
Ele não soltou imediatamente.
— Você acha que eu fiz aquilo por ego?
Ela não respondeu.
— Você acha que foi só orgulho?
Ela engoliu seco.
Ele aproximou um pouco mais.
O tom já não era explosivo.
Era pesado.
— Eu vi você crescer.
A frase saiu diferente.
Não como argumento.
Mas como memória.
— Eu estava lá quando você ainda não alcançava a mesa da cozinha.
Ela piscou.
— Eu segurei você no colo no dia do seu batizado.
A respiração dela mudou.
— Eu prometi aos seus pais que estaria aqui.
O silêncio agora era outro.
— Eu vi você perder os dois.
A voz dele falhou levemente.
Quase imperceptível.
Mas ela ouviu.
— Eu estava lá quando você não conseguia dormir porque tinha medo de esquecer o som da voz deles.
Ela sentiu os olhos arderem.
O braço dela ainda estava na mão dele.
Mas já não parecia uma prisão.
Parecia… apoio.
— E desde aquele dia, Gabi… — ele continuou, mais baixo — você nunca esteve sozinha.
O coração dela batia tão forte que doía.
— Você acha que eu me meto porque eu quero mandar?
Ele balançou a cabeça.
— Eu me meto porque você é a única família que eu tenho.
A frase caiu como um peso.
Ela respirou fundo.
— Nós só temos um ao outro.
Agora ele soltou o braço dela.
Mas não se afastou.
— Eu te amo.
O mundo pareceu parar.
Não foi um “eu gosto”.
Não foi um “eu me importo”.
Foi um “eu te amo”.
Simples.
Direto.
Cru.
— Eu te amo desde que você era um bebê enrolado numa manta rosa horrível que sua mãe insistia em usar.
Um sorriso quase triste surgiu no canto da boca dele.
— Eu fui escolhido para ser seu padrinho porque eles confiavam em mim. Porque sabiam que eu nunca ia virar as costas.
Os olhos dela já estavam cheios.
Mas não era só emoção familiar.
Era conflito.
Porque o amor que ela sentia por ele não cabia só nessa palavra.
E ela odiava isso.
— Você não pode misturar as coisas — ela sussurrou.
Ele franziu o cenho.
— Misturar o quê?
Ela hesitou.
Não podia dizer.
Não conseguia.
Mas também não conseguia ignorar.
— Você me trata como se eu ainda tivesse dez anos.
— Porque eu vi você com dez anos!
— Eu não tenho mais dez!
A voz dela quebrou.
Ele passou a mão pelo rosto, exausto.
— Eu sei.
— Não, você não sabe.
Ela deu um passo para trás.
— Você olha para mim e vê responsabilidade. Promessa. Proteção.
Ela tocou o próprio peito.
— Mas eu sou uma mulher.
O ar mudou.
A frase ficou entre eles.
Não explícita.
Mas carregada.
Magno a encarou de um jeito diferente agora.
Como se estivesse realmente vendo.
O vestido molhado desenhava as curvas. A respiração irregular levantava e abaixava o tecido. O olhar dela não era mais o de uma criança contrariada.
Era o de alguém que sentia.
E muito.
Ele desviou primeiro.
— Isso não muda o que eu sinto.
— E o que você sente?
A pergunta foi um sussurro.
Ele hesitou.
Pela primeira vez desde que entrara naquela briga.
— Eu sinto que preciso cuidar de você.
Ela respirou fundo.
— E eu sinto que você não me deixa escolher.
Silêncio.
— Você acha que eu não sei me proteger?
— Eu sei que você acha que sabe.
Ela quase sorriu, amarga.
— E você acha que sabe tudo.
Ele aproximou novamente.
Devagar.
Sem toque agora.
Só proximidade.
— Eu sei que aquele cara não é bom para você.
— E se eu quisesse descobrir sozinha?
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Eu não suportaria ver você machucada.
A sinceridade desarmou.
Mas não resolveu.
— Você quase se afogou hoje.
Ele deu de ombros, minimizando.
— Não era profundo.
— Não é disso que eu estou falando!
Ela avançou.
— Você perdeu o controle!
— Ele falou de você.
— Ele falou de você também!
A frase atingiu.
“Você nunca casou.”
“Você não presta para isso.”
Ela viu o impacto.
— Foi isso que te fez avançar?
Magno ficou em silêncio.
Ela entendeu.
E aquilo mexeu com ela mais do que esperava.
Porque, no fundo, ela sabia.
Sabia que a briga não tinha sido só sobre Henrique.
Tinha sido sobre insegurança.
Sobre medo.
Sobre perder.
Ela respirou fundo.
— Você não pode me proteger do mundo inteiro.
Ele respondeu sem hesitar:
— Mas eu posso tentar.
O silêncio que veio depois não era mais explosivo.
Era denso.
Cheio de coisas não ditas.
A água continuava pingando no chão.
O vento fazia a cortina se mover lentamente.
Eles estavam a poucos centímetros.
— Eu não sou sua responsabilidade o tempo todo — ela disse mais baixo.
— Você é.
— Eu não quero ser só isso.
Ele franziu o cenho.
— Só isso?
Ela desviou o olhar.
— Esquece.
Ele segurou levemente o queixo dela, fazendo-a encará-lo.
Não agressivo.
Mas decidido.
— Fala.
Ela respirou fundo.
E ali estava.
O limite.
Entre o que podia ser dito.
E o que mudaria tudo.
— Eu não quero ser só a menina que você prometeu proteger.
O ar ficou pesado de novo.
Ele não soltou o queixo dela.
Os olhos dele buscavam algo no dela.
— Você nunca foi só isso.
Ela quase riu.
— Não parece.
O polegar dele deslizou involuntariamente pela lateral do rosto dela, afastando uma mecha molhada.
O gesto era íntimo demais para padrinho e afilhada.
Ambos perceberam.
E nenhum recuou imediatamente.
A respiração dela falhou.
A dele também.
Mas ele foi o primeiro a recuperar a consciência do limite.
Abaixou a mão.
Deu meio passo para trás.
— Você está confusa.
Ela sentiu o golpe.
— Não coloca isso em mim.
— Eu estou tentando fazer o certo.
— Para quem?
Silêncio.
Ele não tinha resposta pronta.
Ela enxugou as lágrimas que não tinham chegado a cair.
— Você me ama?
— Amo.
— Então para de decidir por mim.
A frase ficou ecoando.
Ele não respondeu.
Porque, no fundo, ele não sabia como fazer isso.
Ela virou-se para sair.
Parou na porta.
Sem olhar para trás, disse:
— Eu não sou sua promessa. Eu sou sua escolha.
E saiu.
Magno ficou sozinho no quarto.
Molhado.
Machucado.
Respirando pesado.
E, pela primeira vez desde que ela tinha dez anos…
Com medo.
Não de Henrique.
Não do evento.
Mas de que o amor que ele sempre nomeou de uma forma talvez não fosse mais só aquilo.
E que, se ele deixasse de protegê-la…
Talvez tivesse que encará-la de outro jeito.