Gabriella desligou a tela com um movimento brusco.
O reflexo do próprio rosto apareceu por um segundo no vidro escuro do monitor — olhos arregalados, respiração irregular, as bochechas quentes demais. O coração batia tão forte que ela teve certeza de que o som ecoava pela sala inteira.
Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus.
Ela se levantou da cadeira como se tivesse levado um choque, andando de um lado para o outro da sala de Magno sem saber exatamente o que fazer primeiro. A sala, minutos antes palco de algo que ela jamais deveria ter visto, agora parecia grande demais, silenciosa demais, limpa demais.
Ela tinha que apagar qualquer rastro.
Qualquer indício.
Qualquer possibilidade de ele desconfiar.
Voltou até a mesa dele rapidamente, ajeitando os papéis que haviam sido deslocados, limpou a cadeira. Alinhou pastas, empurrou uma caneta para o lugar certo, girou o porta-retratos discretamente torto. Seus dedos tremiam.
Respira. Respira agora.
Foi até a janela, abriu um pouco as persianas, deixando a luz entrar como se estivesse ali há tempos. Depois lembrou do cheiro, ele poderia desconfiar. O ar parecia pesado demais para sua paranoia recém-nascida.
Pegou o perfume da bolsa — um aroma leve, feminino, nada chamativo — e borrifou duas vezes no ar, caminhando lentamente pela sala para não exagerar. Não podia parecer suspeito. Não podia parecer que tentava esconder algo.
Por fim, sentou-se no sofá lateral, longe da mesa, longe do computador. Pegou o celular e fingiu deslizar a tela, os olhos fixos em nada, a mente em tudo.
Cada segundo parecia uma eternidade.
Ela ensaiou mentalmente expressões.
Um sorriso normal.
Um olhar curioso.
Nenhuma culpa.
Foi quando ouviu passos.
O som firme dos sapatos de Magno no corredor fez seu estômago revirar. O corpo dela reagiu antes da mente — a postura se ajeitou automaticamente, as pernas se cruzaram, o celular subiu um pouco mais, como se estivesse realmente concentrada ali havia tempo.
A porta se abriu.
Magno entrou.
Ele parecia… normal.
Arrumado. Composto. A camisa agora fechada até o botão correto, o paletó sobre os ombros, a expressão controlada de sempre. Mas Gabriella, agora, enxergava além da superfície.
Viu o maxilar levemente tenso.
O olhar que evitou o computador por um breve segundo.
A respiração que demorou um pouco mais a se estabilizar.
— Desculpa a demora — ele disse, com a voz firme demais. — Surgiu um imprevisto.
— Imagina — ela respondeu rápido demais, depois se controlou. — Eu fiquei mexendo aqui… tentando entender aqueles relatórios.
Ele assentiu, caminhando até a mesa.
— Conseguiu avançar?
— Um pouco — mentiu, levantando-se do sofá e se aproximando com cuidado. — Ainda é tudo meio confuso pra mim.
Magno ficou de frente para ela, a uma distância segura. Segura demais.
— É normal. Ninguém aprende isso em um dia.
Ele puxou a cadeira, sentou-se, ligou o monitor.
Gabriella observava cada gesto com uma atenção quase dolorosa. As mãos dele no teclado. O relógio no pulso. O perfume masculino que agora ela reconhecia com outra intensidade.
— Vou te explicar melhor — ele disse. — Vem ver.
Ela se aproximou, ficando ao lado da mesa, mas não se sentou no colo dele dessa vez. Não precisava. Agora ela sabia que o impacto não vinha só do toque.
Enquanto ele explicava números, contratos e projeções, Gabriella m*l ouvia. A mente dela reconstruía cenas, sobrepunha imagens, misturava o que era realidade com o que agora morava dentro dela como uma verdade perigosa.
Ela sabia algo sobre ele que não devia.
E isso mudava tudo.
— Gabriella?
Ela piscou.
— Oi?
— Você tá bem? — ele perguntou, observando-a com atenção mais cuidadosa do que pretendia.
— Tô, sim — respondeu, forçando um sorriso leve. — Só… muita informação.
— A gente pode ir com calma.
Ela assentiu.
O silêncio que se instalou não era desconfortável.
Era carregado.
Magno se levantou novamente.
— Vou precisar sair mais cedo hoje — disse, pegando alguns documentos. — Resolve o que der aqui. Se precisar de qualquer coisa, fala com a secretária.
— Tá bom.
Ele caminhou até a porta, parou com a mão na maçaneta.
— Gabriella.
Ela ergueu os olhos.
— Sim?
Por um segundo, pareceu que ele ia dizer algo a mais. Algo que não estava nos planos. Algo que escapava do controle.
Mas ele apenas completou:
— Não mexe no sistema da empresa sozinha, tá? Algumas áreas são… restritas.
O coração dela disparou.
— Claro — respondeu, firme. — Nem pensei nisso.
Magno a encarou por mais um instante. Longo o suficiente para deixá-la insegura. Curto o bastante para manter a dúvida viva.
Então saiu.
A porta se fechou.
Gabriella permaneceu parada no meio da sala, o celular ainda na mão, o corpo imóvel.
Quando finalmente respirou fundo, um sorriso lento surgiu em seus lábios — não de vitória, mas de consciência.
Ela não era mais apenas a afilhada.
Não era mais apenas a herdeira.
Não era mais apenas a menina aprendendo.
Ela agora carregava um segredo.
E segredos mudam relações.
Desejos mudam jogos.
E, a partir daquele dia, Gabriella sabia:
Magno podia continuar fingindo que controlava tudo.
Mas ela tinha acabado de aprender onde ficavam as câmeras.