2- O Gosto Proibido

1272 Words
Maya Narrando O caminho de volta parecia o mesmo. As casas humildes, as vielas estreitas, o cheiro de comida no ar... tudo continuava ali. Mas eu não. Alguma coisa em mim tinha mudado. Eu m*l troquei duas frases com Nicolas, e mesmo assim ele ficou gravado na minha pele como perfume forte que se recusa a sair. Era o tipo de homem que meu pai apontaria como a ruína de qualquer mulher — principalmente da filha dele. E talvez fosse. Talvez eu estivesse começando a querer ser arruinada. — Você ficou estranha depois daquele cara — comentou um dos policiais enquanto descíamos o morro. — Foi só um cara qualquer — menti. Mas não foi. Havia algo nos olhos dele. Um tipo de escuridão que não assustava... seduzia. Como se me dissesse que havia mais na vida do que as regras que me ensinaram. Cheguei em casa no fim da tarde. Meu pai estava no escritório, como sempre, mergulhado em processos e denúncias. — Como foi no Vale? — ele perguntou, sem tirar os olhos dos papéis. — Tranquilo. Entreguei tudo, tirei as fotos, conversei com algumas pessoas... Ele assentiu, satisfeito. — Amanhã essas imagens estarão no site do MP. Vamos mostrar que temos presença nas comunidades. Presença. Que piada. O que eu tive hoje foi o primeiro contato real com algo que ele jamais entenderia. Ele acha que presença se resume a mandar uma filha mimada, escoltada, para distribuir papel. Mas lá em cima... eu vi outra coisa. Outra vida. Outro mundo. Outro homem. Mais tarde, já no meu quarto, sentei na cama e abri o notebook, querendo pesquisar algo banal para distrair a mente. Mas meus dedos digitaram sozinhos: “Nicolas morro do Vale” “Nicolas traficante comunidade Rio” “Nick morro do Vale líder” Nada apareceu. Nenhuma imagem. Nenhuma notícia. Nada além de boatos em fóruns obscuros e citações vagas. Ele era uma sombra. E sombras... sempre me atraíram. Fechei o notebook. Deitei na cama. E por mais que eu tentasse, não conseguia parar de pensar nele. No modo como ele me olhou, como se soubesse exatamente quem eu era. E, pior: como se soubesse quem eu queria ser, mesmo antes de eu descobrir. Eu devia esquecê-lo. Devia agir como a filha perfeita. Mas naquela noite, fechei os olhos e deixei a imagem dele me tocar por dentro. E o gosto do proibido... foi doce demais para ignorar. Na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz foi abrir a janela. Meu quarto dava para o jardim da frente, onde tudo era podado, milimetricamente alinhado — assim como minha vida. A grama verde, as rosas vermelhas, o cheiro do café que a governanta preparava. Aquilo deveria me trazer paz. Mas parecia sufocante agora. Falso. Vesti uma calça de alfaiataria e uma blusa de seda. Olhei no espelho e vi uma mulher perfeita... Mas eu não me reconhecia. Eu estava irritada. Irritada por estar irritada. Porque uma parte de mim, bem lá no fundo, queria voltar lá. Queria vê-lo de novo. Desci para o café da manhã. Meu pai já estava sentado à mesa, com o celular em uma mão e o tablet na outra. — Dormiu bem? — ele perguntou, sem me olhar. — Dormi. Mentira. Eu sonhei. E não com o futuro brilhante que ele quer pra mim. — Hoje você vai com o doutor Marcelo a um evento da OAB. É importante manter presença. Revirei os olhos discretamente. — Não posso faltar? Eu queria ir à universidade organizar o evento de direitos humanos. Ele finalmente me olhou. Com aquele olhar frio e controlado. — Direitos humanos demais estragam o senso de justiça, Maya. Suspirei, cansada. Ele era sempre assim. Para ele, justiça era uma espada, não uma balança. — E a comunidade que visitamos ontem? Você chegou a ler os relatórios da situação deles? — Li. Mas é só mais um buraco no meio da cidade. A polícia cuida disso. Você não precisa se envolver com aquilo. Muito menos com quem vive lá. A xícara tremeu levemente na minha mão. Ele não fazia ideia de quem eu tinha encontrado ali. Do que eu tinha sentido. — E se eu quisesse entender melhor? Estudar de perto? — Não. Você é minha filha. E eu não quero você andando com qualquer tipo de gente. Nem se misturando com criminosos disfarçados de líderes comunitários. Era como se ele estivesse lendo minha mente. Ou, pior: como se ele já soubesse. Subi sem dizer nada. Fechei a porta do quarto e encostei as costas nela. Fechei os olhos. A imagem de Nicolas me invadiu com uma força absurda. O olhar dele. A voz. A presença. Pus a mão entre as pernas, sem pensar. Era impulso, era fogo. Era o que eu escondia do mundo. Me toquei devagar, ainda com a roupa do corpo, deixando minha mente vagar até ele. Até sua boca grossa, sua barba arranhando minha pele. Seus dedos firmes, sua voz dizendo meu nome de um jeito sujo e íntimo. Gozei rápido. Com culpa. Com fome. Com ele no centro de tudo. E quando caí de volta na cama, sem fôlego, soube que não havia mais volta. Eu ia vê-lo de novo. Nem que fosse em segredo. Nem que isso me destruísse inteira. No fim da tarde, dispensei o convite do evento da OAB com uma desculpa esfarrapada sobre dores de cabeça. Meu pai bufou, resmungou algo sobre fraqueza, mas não insistiu. Ele não percebeu que a dor que eu sentia não era física. Era outra. Era fome. A mesma fome que queimava entre minhas pernas quando eu pensava naquele homem. Na forma como ele me desafiou com os olhos. No tom debochado quando disse: “Ou só de problema, se preferir.” Eu queria saber mais sobre ele. Sobre o que ele fazia. Sobre quem ele era, de verdade. Mas não havia nada online. Nada concreto. Era como se ele existisse apenas nas entrelinhas do mundo — nos becos, nas sombras, nos cochichos. E, mesmo assim, era mais real do que tudo que eu tinha em casa. Desci as escadas com o celular nas mãos. Caminhei até a varanda e encarei a rua. Os carros importados. Os vizinhos discretos. As câmeras. As grades. Tanta segurança. Tanta prisão. Peguei um táxi sem avisar ninguém. Pedi para ir até o centro, mas com a intenção de descer antes. Quando me vi perto da entrada da comunidade do Vale, hesitei. Olhei para os lados. Pensei em voltar. Mas algo dentro de mim gritou mais alto: Se você recuar agora, vai passar a vida inteira obedecendo ordens que não foram suas. Respirei fundo. E entrei. As ruas ainda estavam vivas, mesmo com o sol se escondendo. Músicas, vozes, crianças jogando bola descalças. Algumas pessoas me olharam com estranheza, outras com curiosidade. Um garoto passou por mim e disse: — Você é a doutora, né? Que veio ontem com a polícia? Assenti, surpresa. Ele sorriu, simpático. — O Nick tá no bar do Tuca. Lá no final da viela. Meu coração disparou. — Eu... não tô procurando por ele — menti. Ele deu de ombros, como se não ligasse. — Mas ele tá te esperando. Disse que você voltaria. Engoli em seco. Ele sabia. Sabia que eu não resistiria. Segui em frente, com os passos trêmulos, o sangue quente, o corpo pulsando. Não sabia o que ia encontrar. Não sabia o que ele queria. Mas eu sabia o que eu queria. E naquele momento, o gosto do proibido já não era só uma fantasia. Era uma decisão. Uma que eu estava prestes a cometer. E não me importava mais com as consequências.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD