Maya Narrando
A viela era estreita, e a luz fraca das lâmpadas amareladas não escondia os olhares curiosos. Eu sentia cada batida do meu coração ecoar no peito como se estivesse prestes a explodir. Um passo depois do outro, e tudo em mim gritava que era loucura.
Mas eu continuava. Como se estivesse hipnotizada.
O bar do Tuca ficava numa esquina m*l iluminada, com mesas de madeira, fumaça de cigarro no ar e um cheiro forte de cerveja barata. Homens jogavam dominó e riam alto, mas foi como se o tempo parasse quando meus olhos encontraram os dele.
Nicolas.
Encostado no balcão, camisa preta, mangas dobradas, algumas correntes no pescoço e o mesmo olhar de ontem. Um olhar que me despiu na hora.
Ele ergueu o copo, me encarando como quem já esperava que eu fosse aparecer.
E eu odiei — e amei — como ele estava certo.
— Olha só... A princesa voltou — disse ele, com um meio sorriso que fez meu ventre apertar.
— Eu disse que queria entender mais sobre a comunidade — respondi, tentando soar firme. Mas minha voz tremia.
Ele me olhou de cima a baixo, descarado, e depois deu um gole na bebida antes de apontar para a cadeira ao lado.
— Senta. Mas cuidado... aqui é perigoso.
— E você? — perguntei, sentando. — É perigoso também?
Ele se inclinou devagar, tão perto que eu pude sentir o cheiro da sua pele: uma mistura de cigarro, suor e algo masculino demais para ser decente.
— Eu sou o perigo, doutora.
A forma como ele disse aquilo me arrepiou inteira.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, e eu me perdi no traço da boca dele, no jeito como ele segurava o copo, na tensão que se formava entre nós, densa como fumaça.
— Você não devia estar aqui — ele continuou, mais sério dessa vez. — Teu pai declararia guerra se soubesse.
— E como você sabe quem é meu pai?
Ele sorriu de lado.
— Eu sei tudo o que entra e sai desse morro. Inclusive você.
Arfei sem querer. Meu corpo reagia a ele como se tivesse mente própria. Como se tivesse esperado por aquele momento a vida inteira.
— Então por que me deixou entrar?
— Porque eu quis ver até onde você ia. Se era só curiosidade... ou algo a mais.
Nossas pernas se encostaram. De leve, mas foi o suficiente para eletrizar o ar.
— E o que você acha? — perguntei, quase sussurrando.
Ele se aproximou ainda mais, os olhos fixos nos meus.
— Acho que você tá brincando com fogo, princesa. E aqui, fogo... queima de verdade.
Minhas pernas apertaram uma contra a outra. Meu peito subia e descia com rapidez. E eu sabia. Sabia que, se ficasse mais cinco minutos ali, ia me perder.
Mas eu não queria fugir. Eu queria ser queimada. Por ele.
— Então me mostra — desafiei. — Me mostra esse fogo todo que você diz ter.
O sorriso dele sumiu. E quando ele segurou meu queixo com firmeza, os olhos ardendo, eu soube:
Eu tinha acabado de abrir uma porta sem volta. E dentro dela, ele era o dono de tudo.
Do pecado. Do desejo. De mim.
O toque dele era firme. Dominante. Mas não agressivo.
Era como se me lembrasse de que, ali, ele tinha o controle.
E, por algum motivo que me deixava ainda mais molhada por dentro, eu não queria discutir isso.
— Você tem certeza do que tá fazendo? — ele perguntou, com a voz baixa e rouca, quase como um aviso.
— Não — sussurrei de volta. — Mas quem disse que certeza é necessária?
O canto da boca dele se ergueu, divertido com a minha ousadia. Ele se levantou, fez sinal com a cabeça e saiu pela lateral do bar. Não falou nada, não pediu pra eu ir — só andou. Mas eu fui. Meus pés se moviam sozinhos. Meu corpo, agora, era dele.
Passamos por vielas estreitas, subimos algumas escadas de concreto, cruzamos com moradores que o cumprimentavam com respeito. “Boa noite, Nick.” “Fala, chefe.” “Tranquilo?”
E ele só respondia com um aceno, como se nada pudesse tocá-lo. Como se ele fosse rei naquele mundo. E talvez fosse mesmo. Paramos diante de uma casa pequena, simples por fora. Ele destrancou, abriu a porta e me deixou entrar primeiro.
O lugar era diferente do que eu esperava. Tinha quadros na parede, livros empilhados em uma estante improvisada, e cheiro de limpeza. Aquele homem que intimidava o mundo lá fora... tinha um lar.
Ele fechou a porta com um clique seco.
E antes que eu pudesse pensar, ele me encostou na parede.
— Se você me provocar de novo como fez lá no bar — ele sussurrou contra minha boca — eu juro que vou te fazer esquecer até teu nome.
Meus lábios se entreabriram. Meu coração martelava no peito.
— Então esquece o meu nome — falei, quase sem voz.
E foi a última coisa que disse antes da boca dele colidir com a minha.
Era quente. Urgente. Desesperado. Ele me beijava como se tivesse esperado por isso a vida inteira. As mãos dele desceram pela minha cintura, explorando meu corpo sem pudor. Eu me rendia a cada toque. Cada parte de mim gritava por ele. Por mais. Por tudo.
As roupas foram se perdendo pelo chão da sala. O mundo lá fora, as regras, meu sobrenome... tudo foi esquecido naquele instante.
Fiquei deitada no sofá com ele por cima de mim, os olhos cravados nos meus, como se quisesse gravar aquela imagem. Como se já soubesse que aquilo era perigoso demais pra durar.
Mas mesmo que fosse só aquela noite, eu não me importava. Porque, pela primeira vez na vida, eu não era a filha do promotor. Eu era só... eu.
E eu queria arder até o fim.
O toque dele me consumia. Não era só físico. Era como se ele soubesse exatamente onde me quebrar... e onde me reconstruir.
A sala pequena se encheu de sons abafados: meus suspiros, os gemidos que escapei tentando prender, a respiração dele cada vez mais pesada enquanto se perdia em mim.
Nicolas era intenso. Cada beijo, cada investida, cada toque me fazia esquecer quem eu era — ou quem me disseram que eu deveria ser.
Quando ele me virou no sofá e prendeu meus pulsos acima da cabeça, eu tremi. De desejo. De medo. De entrega.
— Você não tem noção do que está fazendo, princesa — ele rosnou no meu ouvido. — Isso aqui... vai mudar tudo.
— Que mude — respondi, arfando. — Eu cansei de viver pela metade.
Ele me encarou por um segundo, os olhos ardiendo como fogo. E então me tomou de novo, mais forte, mais profundo, mais verdadeiro do que qualquer toque que eu já tinha sentido na vida.
Ali, entre os lençóis improvisados daquele sofá gasto, com o corpo suado, marcado e entregue, eu entendi. Eu nunca mais seria a mesma.
Horas depois, o silêncio entre nós não era incômodo. Era cheio de perguntas não ditas. De promessas perigosas.
Estávamos deitados lado a lado, nus, a respiração ainda descompassada. Ele me observava com o canto dos olhos, e eu fingia não perceber.
— Arrependida? — ele perguntou, quebrando o silêncio.
Pensei por um momento. Pensei no meu pai, na imagem perfeita que ele criou de mim. Pensei na promotoria, nas festas elegantes, nas mentiras da elite. E depois pensei no toque de Nicolas, no seu corpo sobre o meu, no seu cheiro grudado na minha pele.
Sorri de lado.
— Nem um pouco.
Ele soltou uma risada baixa e virou de lado, puxando meu corpo contra o dele. A mão firme em minha cintura me ancorava, como se ele também estivesse se segurando para não se afogar.
— Isso aqui não vai ser fácil, Maya. Eu tenho inimigos. E você... você é filha do homem que mais quer me ver preso ou morto.
Engoli seco. Eu sabia. Desde o início.
Mas o coração não quer o fácil. Ele quer o que queima.
E Nicolas era fogo puro.
— A gente lida com isso depois — sussurrei. — Agora... só me beija de novo.
E ele beijou. E eu deixei. Mesmo sabendo que, a cada beijo, eu afundava mais. Mais nele. Mais nesse mundo onde amor e crime andavam lado a lado. Quando adormeci, já era madrugada. E, antes de fechar os olhos, a última coisa que pensei foi: Se meu pai descobrir... ele mata a gente dois.