Nicolas Narrando
Pior que eu já dormi com várias mina na vida. Modelo, funkeira, até filha de desembargador. Mas nenhuma, nenhuma, mexeu comigo igual essa tal de Maya. A mina apareceu no bar do nada, olhando pro lado como quem tava perdida. Mas, no fundo... sei lá. Parecia que ela tava se procurando. E achou logo eu. Quando ela colou no sofá comigo lá em casa... irmão... Era pra ser só uma trepada. Só uma descarga. Um momento. Mas teve um bagulho diferente ali.
Ela se entregou. Sem medo. Ou talvez com medo sim, mas sem recuar. E isso, pra mim, vale mais que qualquer palavra bonita. Acordei antes dela. Fiquei só olhando.
A pele clara dela brilhando com a luz que passava pela fresta da janela. Os fios do cabelo todo bagunçado. A boca levemente inchada de tanto beijo.
Era linda, né? Linda e problema.
Respirei fundo, levantei, botei o short e fui até a janela fumar um. Meu peito tava pesado. Não pelo trampo. Não pelo corre. Mas por ela.
— c*****o, Nicolas... onde cê foi amarrar seu burro, mano?
A mina era filha do promotor. O próprio d***o de terno que passa a vida tentando enterrar os meus. Se ele descobre que a filha dele tá se esfregando comigo? Ele destrói minha quebrada. Me destrói.
Mas, por outro lado... Ela tava ali. Na minha cama. Dormindo tranquila. Com a respiração leve, como se confiasse que nada de r**m ia acontecer com ela perto de mim.
E eu não queria que acontecesse mesmo. Nem agora, nem nunca. Voltei pro quarto, sentei na beira da cama. Ela abriu os olhos devagar, ainda com aquela cara de quem não sabia se tava sonhando.
— Bom dia, princesa.
Ela sorriu. E porra... eu me fudi.
Esse sorriso aí... é o tipo de coisa que destrói homem.
— Dormiu bem? — perguntei.
— Com você... sim.
Fiquei em silêncio. Não queria prometer nada. Mas eu já sabia: essa mina ia ser minha ruína. Ou minha salvação.
E o problema? É que, no meu mundo... às vezes as duas coisas vêm juntas.
Fiquei um tempinho só olhando ela se espreguiçar. Cabelo bagunçado, lençol escorregando pela cintura, corpo todo marcado por mim. Cena de novela? Não. Cena de perigo.
Ela não fazia ideia da bomba que era tá aqui comigo.
E o pior? Nem eu sabia se queria livrar ela disso... ou segurar ela ainda mais forte.
— Tem café? — ela perguntou, com aquela voz rouca de quem foi bem usada a noite inteira.
Sorri, levantei e fui até a cozinha. Fiz do jeito que eu sabia: forte, preto, sem frescura.
Enquanto a água esquentava, fiquei pensando. E se alguém viu? E se já rodou no morro que a filha do promotor dormiu na minha cama?
Aqui não tem segredo que dure. Tudo vaza. Tudo espalha. E n**o é língua solta quando quer me derrubar.
Voltei com duas xícaras, ela sentada no sofá, enrolada no lençol, olhando minhas fotos na parede. Minha mãe, meu irmão, o finado pai... Família é tudo pra mim. E é por eles que eu faço o que faço.
— Esse é seu pai? — ela perguntou, apontando pra foto.
— Era. Morreu num confronto com a polícia. — Olhei nos olhos dela, direto. Quis ver se ela ia mudar de expressão, se ia me julgar, se ia se afastar.
Mas ela só abaixou os olhos e disse baixo:
— Sinto muito.
Ela não era só bonita. Era humana. E isso é raro no meio dos dela. A gente tomou café em silêncio. Cada um com seus fantasmas. Depois que ela se vestiu, ficou parada na porta, meio sem saber o que dizer. Eu também. Nunca fui bom com despedida.
— Se eu sumir... você vai entender, né? — ela perguntou.
— Não. — Respondi seco. Direto. Porque eu tava sendo sincero.
Ela mordeu o lábio. Desviou o olhar.
— Mas vai respeitar?
— Não sei. Talvez eu vá atrás de tu, nem que seja pra brigar.
Ela riu. Riu de verdade. E isso me deixou ainda mais preso.
— Você é louco, Nicolas.
— E você é problema. — Ela virou de costas e foi embora.
Sem beijo, sem promessa. Só um silêncio que ficou berrando no meu peito.
Quando a porta bateu, eu soube. Era tarde demais. Já era dela. E se o pai dela quiser guerra... Então que venha.
Porque agora, eu tenho motivo pra lutar diferente.
A casa ficou vazia. E o silêncio... mano, o silêncio pesava mais que fuzil na mão.
Acendi outro cigarro, joguei o corpo no sofá e fiquei olhando pro teto. Maya me bagunçou. Mexeu nas parte que nem eu sabia que existia mais. E isso... isso dá medo.
Porque quando o coração de bandido bate por alguém, ele bate com tudo. Sem freio, sem plano B. E na quebrada, amar é se expor.
Nem deu dez minutos e meu celular vibrou.
Mensagem do Nando:
— Mermão, tua casa virou assunto. Viram a filha do promotor saindo daí. Já tem burburinho rolando na boca. Se cuida, tu tá jurado de saber demais.
Fechei os olhos, respirei fundo. Sabia que ia acontecer. Só não achei que seria tão rápido.
A língua do povo aqui corre mais que tiro. E nesse jogo, n**o é c***l. Se não puder te matar, vai te queimar.
Levantei, fui até a pia, joguei água no rosto.
Eu tava ferrado. Mas largar ela? Nem a p*u.
Peguei o rádio e chamei o Vitinho, que segura a segurança da parte alta do morro.
— Fica esperto com qualquer movimentação estranha. Se algum cuzão da milícia ou da polícia pintar aqui, quero saber antes deles pisar no chão.
— Fechou, chefe. Mas o papo tá forte, hein. Tão dizendo que tu tá pegando filha de gente grande.
— Quem falou isso?
— Um tal de Carlinhos da Grota. Aqueles verme da Zona Oeste. Disse que vai levar a fofoca direto pro pai dela.
Bati a mão na parede. Raiva subindo. Esse Carlinhos sempre quis meu lugar. Se ele acha que vai usar ela pra me derrubar... ele tá brincando com a morte. Fui até o quarto, olhei o lençol ainda bagunçado. Tinha o cheiro dela. Misturado com o meu. Com o nosso.
Fechei os olhos.
— Que merda tu fez, Nicolas... — sussurrei pra mim mesmo.
Mas já era. A mina me atravessou. Agora, ou eu protejo... ou perco tudo.
Porque Maya não é só a filha do promotor. É a mina que mexeu com o coração de um cara que jurou nunca amar de novo. E quem encostar nela... Vai conhecer o lado mais escuro do morro.