5- Entre Dois Mundos

1074 Words
Maya Narrando Acordei com a cabeça cheia e o corpo cansado. Não só pelo que aconteceu na noite passada, mas pelo turbilhão de sentimentos que não me deixava em paz. Eu sei que aquilo não devia ter acontecido. Que não devia ter deixado o Nicolas me levar pra aquele mundo. Mas, na hora, parecia que tudo que eu queria era fugir da rigidez do meu mundo, das cobranças do meu pai, da minha vida perfeita e engessada. O pior é que, mesmo querendo negar, meu corpo ainda queimava com a lembrança dos beijos, dos toques dele. Aquele misto de perigo e proteção que só ele sabia dar. Na faculdade, tentei me concentrar nas aulas, mas minha mente vagava pro morro, pro olhar dele, pra promessa silenciosa que parecia ter ficado no ar entre nós. O celular vibrou várias vezes, mas eu evitava olhar. Sabia que se meu pai descobrisse, tudo ia explodir. Ele sempre me ensinou que o mundo lá fora é cheio de perigo mas nada me preparou pra enfrentar esse. À noite, em casa, meu pai me chamou para conversar. Senti o peso da responsabilidade apertar meu peito. — Maya, tenho ouvido coisas... — ele começou, com a voz grave, tentando parecer calmo, mas com o tom que conheço bem. Meu coração acelerou, e eu congelei. — Coisas? — consegui responder, tentando disfarçar. — Você sabe do que eu estou falando. Essa sua ida ao morro, seus encontros... — ele continuou. Olhei nos olhos dele, e pela primeira vez, não tive resposta pronta. — Pai, eu só queria entender aquele lugar... — falei, tentando me explicar. — Entender? — ele riu, um riso amargo e cansado. — Maya, você não entende o que está se metendo. Esse mundo não é pra você. Saí do quarto e me tranquei no banheiro, onde ninguém pudesse me ver chorar. Eu estava dividida. Entre a filha obediente que meu pai queria e a mulher que estava descobrindo o que realmente queria para sua vida. E, no meio disso tudo, estava Nicolas. Com seu sorriso torto, seus olhos que diziam tudo, menos segurança. Eu não sabia o que o futuro reservava. Mas, pela primeira vez, sabia que não podia mais fugir. Passei a noite virando e revirando no travesseiro, pensando em tudo que meu pai falou. Aquele medo no olhar dele me atravessava a alma. Não era só um homem preocupado com a filha — era o peso de toda a honra da família que me esmagava. Eu queria contar pra ele tudo, falar do Nicolas, do jeito que ele me fez sentir viva, do medo e da adrenalina misturados. Mas como? Como explicar que no meio daquele mundo escuro, eu encontrei uma luz que não sei se posso seguir? No dia seguinte, tentei manter a rotina. Faculdade, livros, reuniões. Mas tudo parecia vazio, sem sentido. Minha cabeça não parava de pensar nele. No jeito como ele me olhou antes de me deixar ir, no toque forte e delicado ao mesmo tempo, na promessa não dita entre nossos silêncios. Mas ao mesmo tempo, o receio apertava o peito: e se meu pai descobrisse? E se isso acabasse com tudo? Com a família, com meus planos, comigo? Tentei me convencer que podia fugir disso, que era só uma noite, que aquilo nunca poderia virar algo real. Mas meu corpo negava, minha mente se rebelava. Eu queria mais. No fundo, sabia que já estava perdida. Os dias que se seguiram foram uma montanha-russa de emoções. Tentava manter tudo sob controle, mas a verdade é que eu não sabia mais quem eu era — a filha perfeita do promotor ou aquela garota que arriscava tudo por um amor proibido. Meu pai não falava muito, mas o olhar dele dizia tudo. Ele desconfiava, estava alerta, pronto pra agir. Eu podia sentir o peso da decepção no ar, como uma nuvem escura prestes a desabar. No trabalho, as cobranças aumentavam. Meus colegas comentavam de casos, de política, mas minha mente estava longe, lá no morro, naquele mundo que eu m*l entendia, mas que já me dominava. Uma noite, decidi que precisava falar com alguém. Não podia mais carregar tudo sozinha. Liguei para a Laura, minha melhor amiga desde a infância, a única que sabia um pouco do que eu estava passando. — Maya, cê tá sumida, tá estranha... o que tá acontecendo? — ela perguntou, preocupada. Respirei fundo e disse o básico, tentando esconder o medo e a vergonha. — Tô... me metendo numa encrenca. E não sei como sair. Ela não perguntou mais nada. Acho que ela entendeu. Mas no fundo, eu sabia que aquela encrenca não era só minha. Era do Nicolas, da minha família, do meu futuro. E entre os dois mundos, eu tinha que escolher. Ou pelo menos tentar. A noite caiu pesada sobre a cidade, e eu estava presa entre o silêncio da minha casa e o barulho ensurdecedor da minha mente. Tentei focar no que meu pai me disse, nas p************s que cortaram como faca. Ele tinha medo — medo do que eu estava me envolvendo, medo de perder a filha que ele sempre quis proteger. Mas eu também tinha medo. Medo do desconhecido, do morro, do que poderia acontecer com Nicolas... e comigo. Me peguei pensando na última vez que estive com ele, no jeito como ele segurou minha mão, forte e firme, como se dissesse: “Eu tô contigo, não importa o que aconteça.” Era um mundo tão diferente daquele que eu conhecia — um mundo perigoso, onde a linha entre o certo e o errado era tão fina que podia desaparecer num piscar de olhos. Eu queria acreditar que o amor fosse mais forte que qualquer barreira. Mas o que eu sentia era confusão. Culpa. Desejo. E uma vontade louca de fugir de tudo isso. Na manhã seguinte, decidi que precisava tomar uma atitude. Não podia deixar essa história me destruir nem deixar meu pai descobrir antes da hora. Precisava proteger Nicolas, precisava proteger a mim mesma. Peguei o celular e escrevi uma mensagem curta: — A gente precisa conversar. É sério. Mandei para ele, com o coração batendo forte. Esperava que ele entendesse que, apesar de tudo, eu não estava pronta para desistir. Mas enquanto esperava a resposta, sabia que estava entrando num jogo perigoso. Um jogo onde a traição, a mentira e a violência podiam aparecer a qualquer momento. E que, para sobreviver, eu teria que aprender a jogar.
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