Nicolas Narrando
O dia tava nublado, mas dentro de mim o clima era outro. Desde aquela noite com a patricinha, eu não consegui mais dormir direito. Maya mexeu comigo de um jeito que eu nem sei explicar... É tipo botar fogo no peito e gelo na mente ao mesmo tempo.
Eu sabia que tava errado, que era problema na certa.
Mas também sabia que quando ela me olhou daquele jeito, com os olhos pedindo pra ficar... já era. Coração de ladrão também bate, fi.
Tava sentado ali na laje, fumando um, quando o celular vibrou. Era mensagem dela.
— A gente precisa conversar. É sério.
Meu peito deu um pulo. Eu já esperava que isso ia acontecer. O barato foi intenso demais pra ela sair como se nada.
Respondi seco, mas no fundo eu queria ver ela logo.
— Cola aqui então, mas vem discreta. O clima tá meio tenso no morro.”
Tinha dado uns BO por aqui… polícia tinha subido outro dia, uns cara do comando rival tavam se movimentando, e o bonde precisava ficar esperto. Mas mesmo assim… por ela, eu arriscava.
Desci pra base, troquei umas ideia com o Nando, deixei ele no comando por umas horas.
— Se der merda, me liga. — falei, já saindo.
— Tu vai ver a novinha, né? — ele riu. Dei um sorriso torto.
— Se ela vale o risco... vale o corre.
Quando ela chegou, vi de longe. Toda errada praquele lugar, mas com uma presença que me tirava o ar.
— Cê tá maluca de subir aqui sozinha? — perguntei, puxando ela pra um beco mais reservado.
— Eu precisava te ver, Nico... — a voz dela tremia.
— Que foi, princesa? Teu coroa descobriu?
Ela assentiu devagar.
— Ele desconfia... e eu tô com medo. Medo do que pode acontecer contigo... comigo.
Suspirei pesado. Sabia que o barato ia dar r**m uma hora ou outra, mas ouvir da boca dela foi f**a.
— Vamo sair daqui — falei. — Bora sumir um tempo, até o clima acalmar.
Ela me olhou surpresa, talvez esperando que eu dissesse pra gente parar. Mas não tem mais volta, não.
Ela me ganhou.
Ela me olhava como se eu fosse a salvação… ou a perdição.
E talvez eu fosse os dois.
— Sumir? — ela perguntou baixinho, meio assustada. — Eu não posso desaparecer assim… tem minha família, minha vida lá fora...
— E eu? — encostei devagar na parede do beco e puxei ela pra perto. — Eu sou o quê, Maya? Só um erro pra tu esquecer depois?
Ela não respondeu. Só abaixou os olhos. Mas eu vi… tava na cara dela. Ela tava dividida. Peguei no queixo dela e fiz ela olhar pra mim.
— Eu sei que teu mundo é outro, cheio de regra, de gravata, de lei.
Aqui embaixo é diferente. Aqui a gente vive com o que tem… e morre por quem ama. Ela mordeu o lábio, e juro, quase perdi a linha ali mesmo. Mas me controlei.
— Se tu quiser ir embora… eu entendo. Mas não mente pra tu mesma, Maya. Tu sente o que eu sinto.
Ela se jogou no meu peito, respirando fundo.
— Eu tô com medo, Nico...
— Eu também tô — confessei. — Mas eu prefiro viver um dia contigo… do que uma vida inteira fingindo que cê não existe.
A gente ficou ali um tempo, só respirando junto, escondido do mundo. Mas o morro não dorme, e celular tocou.
Era o Nando. Mensagem rápida.
— Visita indesejada na base. Civil perguntando de ti. Disse que é da justiça.
Franzi a testa. Coração acelerou.
— Merda... — sussurrei.
— O que foi?
— Teu pai, Maya... acho que ele já começou a caçada.
Quando vi aquela mensagem, o sangue gelou. Promotor subindo o morro? Não era só visita… era ameaça.
Olhei pra Maya. Ela tava pálida.
— Tu acha que é meu pai?
— Não acho, eu tenho certeza.
Peguei ela pela mão, saí puxando no passo firme.
— Vamo sair daqui agora. Se for teu coroa mesmo, e ele me vê contigo aqui em cima… vai dar merda, Maya. Merda grande.
— Mas e você? — ela perguntou, quase tropeçando. — E se ele te encontrar?
— Aí ele vai ter que lidar comigo.
Desci por uma viela lateral, caminho que só quem é cria conhece. A cada passo, minha mente fritava. Se o véio dela realmente tivesse subido com gente da justiça, podia ser começo de operação, investigação, invasão... Tudo por causa de sentimento.
Tudo por causa dela.
Levei Maya pra um barraco de confiança, da dona Luci, uma das antigas, que me viu crescer.
— Deixa a menina aqui um tempo, tia. Ninguém pode ver ela.
Ela assentiu com a cabeça e nem perguntou nada.
Sabia como as coisas funcionavam.
Beijei a testa da Maya.
— Fica aqui. Não abre pra ninguém. Eu vou ver qual é.
Ela segurou minha mão, firme.
— Se cuida, Nicolas.
— Sempre, princesa. Mas se der ruim... só lembra que eu não me arrependo de nada com tu.
Saí no sapatinho. Coração pesado. Mas mente afiada. Porque agora o jogo mudou.
Não era só o morro que eu precisava proteger.
Agora, era ela também.
Desci o morro ligeiro, mente a mil. Cada canto era uma lembrança, cada olhar era julgamento. Os cria me olhavam estranho, como se soubessem que eu tava diferente. E tão sabendo mesmo.
Desde que Maya chegou, minha cabeça não é mais a mesma. Antes era só dinheiro, respeito e blindar os meus.
Agora tem sentimento no meio. E sentimento, nesse mundo… enfraquece. Ou fortalece, dependendo de como tu usa.
Cheguei na base e Nando já veio na reta.
— Era ele mesmo, Nico. O promotor. Tava com uns dois civil junto, engravatado, falando manso, mas olhando como se quisesse enfiar uma algema em cada esquina.
— E falou de mim?
— Falou não… mas perguntou de "alguém influente", que poderia estar “aliciando gente de fora”.
— Maya... — murmurei.
O cara tava rodando, cavando, querendo puxar alguma ponta pra destruir meu nome e minha quebrada. Só porque a filha dele se apaixonou por um cara como eu.
Fiquei uns segundos parado, tentando pensar.
Se eu sumo, ele ganha. Se eu apareço, ele ataca.
Mas eu sou cria. Não corro de homem nenhum. Muito menos de farda ou gravata.
— Vamo manter o morro em silêncio, avisa geral pra ficar na miúda. E se esse promotor subir de novo... eu mesmo troco ideia com ele.
Nando arregalou o olho.
— Tu vai trocar ideia com o pai da tua novinha? Tá doido?
— Ele quer guerra. Eu quero paz. Mas se precisar… eu dou guerra sorrindo.
Voltei pro barraco da dona Luci só pra olhar ela mais uma vez. Maya tava lá, sentada, abraçada nela mesma. Quando me viu, levantou na hora, os olhos brilhando.
— Tá tudo bem?
— Ainda tá. Mas teu pai tá no jogo. E a gente vai ter que jogar junto, ou o tabuleiro engole nós dois.
Ela veio, me abraçou forte. Coração dela colado no meu.
Dois mundos que não deviam se cruzar… mas se amaram mesmo assim.
— Eu não vou te deixar, Nico. Nem que o mundo inteiro tente.
Sorri de canto, com dor e desejo no peito.
— Então vamo ver até onde a gente vai, princesa.
Porque a partir de agora, era nós contra todos.