Capítulo 6

1609 Words
Rita narrando O sol no Morro dos Prazeres não perdoa ninguém, mas o fogo que queimava no meu peito era pior que qualquer mormaço do Rio eu estava sentada na laje do meu barraco, ajeitando o biquíni de fita isolante e olhando pro nada, sonhando acordada com o dia que o Ceifador ia parar de me tratar como "o lanche da madrugada" pra me assumir como a Primeira-Dama daquela p***a toda. Eu sou a amante oficial, todo mundo sabe, todo mundo vê, mas o que eu quero não é "ser amante", é o respeito quero ser a fiel, a que senta do lado dele no baile e faz todas as vadias do morro baixarem a cabeça. Meus pensamentos foram cortados pelo ronco pesado de um motor meu coração deu um salto eu conheço o som dos brinquedos dele de longe. — É ele! — murmurei, levantando num pulo, ajeitando o meu cabelo que eu tinha acabado de pranchar. Corri pro portão, esperando ver a Hornet preta ou o SUV blindado parando pra ele me dar aquele olhar de "mais tarde eu passo ai". Mas quando o carro passou voando, quem tava no volante era o Letinho o Ceifador não tava dirigindo, aquilo já me deu um nó no estômago no morro, quando o patrão muda a rotina, ou é guerra, ou é mulher e o meu instinto de loba nunca falhou. Não aguentei coloquei uma roupa às pressas, calcei um tamanco e decidi subir a ladeira que levava pra casa grande o suor escorria entre meus s***s, mas a raiva me empurrava pra cima eu precisava ver o que tava rolando. Assim que me aproximei do portão de ferro da fortaleza dele, o clima mudou, três vapores, todos de fuzil atravessado e cara de poucos amigos, se fecharam na minha frente como uma muralha de concreto. — Opa, opa, v***a! Segura a onda aí, bonitona. — O menor um moleque que eu vi crescer na boca, botou a mão no peito pra me barrar. — Daqui tu não passa. — Sai da frente, seu verme! — rosnei, tentando empurrar o braço dele. — Eu vou falar com o meu homem, ceifador tá aí dentro e eu sei que ele quer me ver. — Teu homem o c*****o v***a tu é só o passatempo — o outro debochou, cuspindo no chão. — O patrão deu ordem: ninguém entra. Ninguém. Eu ia abrir a boca pra gritar o nome dele, pra fazer um escândalo que ia ecoar até na Baixada o SUV logo parou na frente da casa. O porta do SUV abriu e eu vi o Ceifador desceu mas ele não tava sozinho. Ele se inclinou pra dentro do carro e tirou de lá uma garota, mas não era qualquer garota era uma patricinha de terno alinhado, pele de seda e um cheiro de perfume caro que chegou em mim como um tapa ela parecia uma boneca de porcelana quebrada, ele a segurava pelo braço, mas não era com o desleixo que ele me tratava tinha algo ali uma possessividade que me fez sentir um frio na espinha. — Quem é essa aí com o meu homem?! — gritei, perdendo a linha de vez. — Ceifador! Quem é essa p*****a de terno?! Ele nem sequer olhou pra trás ignorou minha existência como se eu fosse uma vira-lata latindo no portão mas os vapores não deixaram barato. — Cala essa boca, c****a! — O mais velho me empurrou pelo ombro, o cano do fuzil batendo no meu ombro. — Isso aqui não é assunto de v***a. É assunto do patrão. Tu tá querendo ganhar um lugar no micro-ondas, é? — Eu sou a mulher dele! — berrei, as minhas lágrimas de ódio começando a queimar meus olhos. — Mulher? Tu é marmita, Rita abaixa a tua bola. — Ele riu na minha cara, um som sujo que me rasgou por dentro. — O Ceifador não quer saber de lixo no portão dele. Vaza daqui agora antes que eu te arraste pela ladeira. Ele deixou bem claro: hoje ele tem uma joia pra lapidar, e tu não passa de bijuteria de feira. — Vaza, Rita! O patrão não gosta de v***a fazendo cena na porta de casa. Vai rebolar lá na laje e espera ele te chamar... se ele ainda lembrar que tu existe. Eles riram o som do portão batendo foi como uma bofetada final. Fiquei ali, parada no meio da poeira, tremendo de humilhação eu vi o jeito que ele olhou pra ela, vi como ele a carregou pra dentro da Casa o lugar onde eu nunca tive permissão de dormir. Virei as minhas costas e comecei a descer a ladeira, mas cada passo meu era um juramento de sangue o meu ódio tava me cegando, transformando meu amor em veneno puro. — Tu pode ser patricinha, pode ser o que for... — murmurei pra mim mesma, limpando o rímel borrado com uma fúria maníaca. — Mas aqui em cima, o asfalto não te protege, eu vou descobrir quem tu é, e tu não dura uma semana na minha favela. O Ceifador acha que me conhece, mas ele ainda não viu do que uma mulher rejeitada é capaz. Se ela acha que vai roubar o meu trono, ela vai descobrir que o trono do morro é feito de espinhos e pólvora, naquele momento meu ódio era um combustível perigoso, e ele era a única coisa que me mantinha de pé enquanto eu descia a ladeira em direção à boca principal. Cheguei na boca com o meu sangue fervendo o movimento tava pesado, radinho apitando, molecada armada até os dentes, assim que me viram, os vapores já entraram na frente. — Ih, ó a Rita aí de novo. Já te deram o papo lá em cima, mulher. O Ceifador não tá pra tu hoje não, rala daqui, vai — mandou um deles, o DG, ajustando o fuzil no peito. — Eu sei muito bem que ele não tá aqui agora, seu animal — rebati, estufando o meu peito e parando no meio do setor. — Mas eu vou esperar, ele vai ter que descer pra dar o papo da noite e eu não vou sair e ó, se algum de vocês tentar ralar a mão em mim pra me tirar, eu vou fazer o Ceifador cobrar um por um ele me adora, e falta pouco pra eu virar a Fiel dessa p***a, estão avisados. O silêncio durou dois segundos, antes de explodir numa gargalhada geral, os moleques se curvavam de tanto rir, batendo no joelho, me olhando como se eu fosse a palhaça do circo. — Fiel? Tu? — DG se engasgou com a própria risada. — Sonha, v***a, sonhar não paga imposto. Antes que eu pudesse voar na cara dele, o Letinho apareceu com a cara fechada de sempre. — Qual é a piada, seus comédia? Estão na função ou no stand-up? — a voz do Letinho cortou a diversão como uma lâmina. — Foi m*l, Letinho... é que a Rita aqui disse que vai ser a Fiel do patrão. Tá ameaçando a gente de cobrança — um dos vapores soltou, ainda rindo pelo nariz. Letinho me olhou de cima a baixo, com uma cara de quem tá vendo um bicho estranho. — Que que tu tá fazendo aqui, Rita? Já não bastou o show lá no portão da Casa do Ceifador? — ele perguntou, cruzando os braços. — Eu vim falar com o meu homem, Letinho! — gritei, sem medo. — Quero saber que cachorra é aquela que ele trouxe pra favela e por que colocou dentro da casa dele, eu nunca dormi lá! Por que aquela v***a de terno tem esse direito e eu não? O semblante do Letinho mudou na hora. — Isso não diz respeito a tu, Rita, o Ceifador faz o que quer, com quem quer, e tu tá passando dos limites, ele não precisa se explicar pra ninguém muito menos pra você. — Se explicar pra quem? — A voz veio fria, rouca, carregada com o peso de quem decide quem vive e quem morre antes de tomar o café da manhã. O Ceifador estava atras de me a postura era de um rei bárbaro. Ele nem olhava pros lados, mas todos os vapores ficaram em posição de sentido, o riso morrendo na garganta de cada um. Ele caminhou devagar até parar a dois passos de mim, o cheiro dele me invadiu, mas o olhar... o olhar era de gelo puro. — Então tu veio cobra o patrão no meio da boca, Rita? — ele perguntou, a sua voz baixa, o que era mil vezes pior que um grito. — Tá achando que o tempo que eu passo entre as tuas pernas te dá o direito de questionar quem eu boto dentro da minha casa? Tu é o que, advogada? Juíza? — Eu só quero o que é meu por direito, Ceifador! Eu te amo, eu... Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço, a mão descendo pesada para o cabo da arma na cintura, os olhos brilhando com uma fúria contida que me fez perder a voz. — Escuta aqui, porque eu só vou falar uma vez pra tu não esquecer nunca mais: eu não sou homem de ser cobrado por p**a, e muito menos de dar satisfação da minha vida pra quem eu pago por hora. — Ele olhou pros vapores, que tremiam, e depois voltou pra mim, o rosto a centímetros do meu. — Tu acabou de cometer o erro de achar que a tua boca serve pra falar, quando eu só te chamo pra ela servir pra outra coisa.
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