Letinho narrando
Eu já vi muita loucura nessa vida de crime, mas o que o Ceifador fez hoje ultrapassa qualquer entendimento, trazer a Doutora pro morro não é só quebra de contrato, é pedir pra guerra bater na nossa porta com o pé no peito, mas quem sou eu pra bater de frente? Conheço o meu mano desde que a gente dividia marmita fria na contenção, quando o olhar dele fica daquele jeito vidrado, escuro, como se tivesse visto o próprio d***o no espelho ninguém muda a rota.
Eu dirigi o SUV no sequestro, o asfalto tava um inferno, chuva e caos, mas meus olhos tavam no retrovisor, vi o momento exato em que a Valentina acordou, a bicha é brava, não vou mentir.
No momento em que ela focou e percebeu que o mundo dela tinha desabado, ela partiu pra cima do Ceifador como uma leoa, na hora eu pensei comigo:
— "Essa aí ou vai ser a ruína dele, ou a razão dele queimar o mundo".
A chegada no Morro foi naquele clima pesado, o Ceifador desceu do carro com ela, e eu vi o jeito que ele a segurava, não era como se ele estivesse carregando um fardo; era como se estivesse carregando um troféu que ele não pretendia dividir com ninguém.
Foi nesse momento que o circo começou.
A voz da Rita rasgou o silêncio da subida, gritando pelo nome dele, como uma histérica, eu vi o maxilar do Ceifador travar.
Ele ouviu, eu ouvi, até os defuntos do cemitério lá embaixo ouviram.
— Fiquem espertos na contenção! — ordenei pros moleques que tavam de guarda na Casa Grande. — Se essa maluca tentar pular o muro, segurem ela, e digam pro patrão que eu já desci pra boca.
O movimento não para por causa de saia.
Desci pra boca principal e a cena era ridícula, os vapores tavam lá, dobrados de tanto rir, enquanto a Rita fazia o show dela, parece que ela esqueceu que no morro, disciplina é vida.
— Qual é a piada, seus comédia? Estão na função ou no stand-up? — cheguei chutando o balde.
Um dos moleques, ainda rindo, soltou:
— A Rita, Letinho... tá dizendo que vai ser a Fiel. Que o patrão vai cobrar a gente por causa dela.
Olhei pra Rita ela tava possessa.
— Eu vim falar com o meu homem! — ela gritou pra mim. — Quero saber que cachorra é aquela que ele colocou dentro da casa dele!
— Rala daqui, Rita! Tu tá passando dos limites, o Ceifador não tem que te explicar nada.
Eu ia continuar o esculacho, mas a sombra dele surgiu o Ceifador apareceu como um fantasma, frio, exalando aquela aura de morte que faz todo mundo baixar o cano do fuzil a Rita, cega de ciúme, não percebeu o perigo, ela tentou peitar ele, tentou abrir a boca pra cobrar satisfação.
O Ceifador apareceu.
— Eu não sou homem de ser cobrado por p**a, e muito menos de dar satisfação da minha vida pra quem eu pago por hora — ele rosnou, a sua voz tão baixa que dava medo.
Ele se inclinou sobre ela, a mão na cintura, onde a pistola brilhava.
— Some da minha frente, Rita. Se eu te vir na boca ou no portão da minha casa de novo, eu te mando pro asfalto dentro de um saco preto. Tu não é nada. Entendeu? NADA.
Ele olhou pros vapores, que tavam como estátuas.
— Tira essa lixo daqui ela tá proibida de circular na boca.
A Rita saiu arrastada, chorando o ódio dela, e o silêncio que ficou era de velório, cheguei perto do meu mano e falei.
— E a Doutora? — perguntei, baixo. — O que tu fez com ela?
— Tá trancada no quarto — ele respondeu, acendendo um cigarro, os olhos perdidos no horizonte. — Ela acha que vai fugir. m*l sabe ela que o mundo dela agora se resume àquelas quatro paredes e a mim.
— Mano, se o Francisco descobrir que tu não matou ela, ele não vai deixar isso quieto. Tu sabe que...
Antes que eu pudesse terminar, o céu da favela foi iluminado por uma explosão de fogos. Três disparos em sequência. O sinal que todo mundo no crime odeia.
Invasão.
Meu radinho no ombro começou a chiar e a voz de um dos vapor que tava na contenção da entrada da favela veio cortando, cheia de adrenalina e medo:
— P-Patrão! Letinho! É o BOPE! Os caveiras tão subindo pela mata e pela principal! Estão vindo com tudo, blindado tá na base!... o alvo é o Ceifador! Repito: o alvo é o Ceifador!
Olhei pro meu parceiro e o Ceifador nem tremeu ele jogou o cigarro no chão, pisou e destravou o fuzil, o brilho nos olhos dele mudou, o dia que começou com a caçada que ele começou com a Valentina e terminar com os filhos da p**a de farda pra nossa porta.
— Então eles querem o Ceifador? — ele deu um sorriso macabro, o rosário de crânios balançando no peito. — Pois diz pra eles que a Morte tá em casa. E hoje ela tá com fome.
O radinho parecia um enxame de marimbondo de tanta chiadeira. "Blindado na principal!", "Caveirão subindo a ladeira do Caneco!". O som dos fogos ainda ecoava, mas o que dominava o ar agora era o estalo seco dos fuzis.
O BOPE não veio pra brincar de esconde-esconde; os caras vieram pra varrer o morro.
Olhei pro Ceifador e o rosto dele tava uma máscara de ódio e gelo, não demorou ele me deu o papo reto, sem curva:
— Letinho, pega a contenção da entrada sul, segura os caras no beco da Paz, eu vou subir pra crista, vou coordenar o recuo da molecada pela mata e garantir que ninguém chegue perto da Casa Grande, se encostarem na Valentina, eu queimo o Rio de Janeiro de ponta a ponta.
— Tá na mão, parceiro! — bati no ombro dele. — Se cuida, porque hoje o bicho tá com sede!
Nos dividimos ali mesmo, no meio da poeira da boca corri pro meu setor com o fuzil colado no meu peito, assim que cheguei na curva da ladeira, o mundo virou um inferno de faíscas.
Os caveiras tavam vindo por trás dos escudos, avançando taticamente.
— Bota a cara, bando de arrombado! — gritei, descarregando meia rajada na direção deles. — Aqui não é o asfalto de vocês não! Aqui o filho chora e a mãe não vê! — Segura o ferro, molecada! — mandei pros vapores que tavam recuando. — Ninguém corre! Se correr, morre de costas! Se ficar, vive como homem! Foca no pneu do blindado, joga o coquetel agora!
O asfalto tremia com as granadas de efeito moral, mas meu sangue tava a mil por hora, eu trocava bala e xingamento como se fosse um mantra de guerra.
— "Vem me buscar, seu bota imundo! tua farda vai servir de pano de chão!". – A adrenalina naquele momento era o meu único oxigênio.
Pressionei o PTT do rádio, ofegante, enquanto me escondia atrás de uma mureta crivada de balas.
— Ceifador! Na escuta? Ala sul tá um inferno, mas a gente tá segurando o rojão! Como é que tá aí em cima?
A voz dele veio no meio de um barulho ensurdecedor de disparos de .50.
— Tão tentando me cercar, Letinho! Mas eu já deitei três na subida da mata. Ninguém passa por mim! Segura a linha aí, que eu seguro aqui!
— Entendido, irmão! — respondi, rindo feito um louco no meio do tiroteio. — Pois diz pra eles que o Ceifador pode até ser a morte, mas eu Letinho sou próprio pesadelo!
O morro tava em chamas, o céu tava preto de fumaça e o cheiro de pólvora era o único perfume que restava, eu sabia que aquele dia ia ser longo, e que o sangue ia correr ladeira abaixo como chuva de verão, mas uma coisa era certa: quem subiu pra buscar o Ceifador, ia descobrir que o preço daquela alma era alto demais pra qualquer salário do governo.
No Morro dos Prazeres, a gente não se entrega; a gente se eterniza no ferro.