Valentina narrando
O desespero não é apenas um sentimento; é um gosto metálico que inunda a boca e um peso que esmaga os pulmões, quando recobrei a consciência, o mundo estava inclinado, instável e barulhento, a percepção de que eu havia sido sequestrada não veio como um estalo, mas como uma avalanche, eu, Valentina Albuquerque, acostumada a dominar tribunais com a ponta da minha caneta, agora era apenas um volume de carne e osso nas mãos de um monstro.
A surpresa, porém, veio quando fui arrastada para fora do carro. Eu esperava um cativeiro imundo, um porão escuro, mas o que vi foi a "uma casa grande". Era uma construção imponente, bizarra para estar cravada no coração daquele labirinto de tijolos aparentes e vielas estreitas era um palácio de um rei bárbaro no meio do caos.
Assim que o portão de ferro bateu atrás de nós, a minha fúria venceu o meu medo.
A briga que se seguiu na sala foi o ápice da minha negação, eu o enfrentei. Gritei. Usei minha voz de autoridade, aquela que faz estagiários tremerem e juízes hesitarem.
— Você tem noção do que está fazendo? — rugi, minha voz falhando pela raiva. — Você será preso por cárcere privado! Eu sou uma autoridade, seu animal! Você e o seu chefe, o Francisco, vão apodrecer na cadeia por isso, eu vou garantir que cada um de vocês pague!
Ele parou e se virou devagar, e o rosário de crânios no peito dele pareceu brilhar ele deu uma risada que me fez querer desaparecer.
— Chefe? — ele repetiu, a sua voz como um rosnado baixo. — Escuta bem, Doutora: eu não tenho chefe, eu sou a lei, o juiz e o carrasco desse morro, eu faço o que eu quero, na hora que eu quero, e se eu fosse você, baixava o tom e agradecia por eu ainda querer que você continue respirando.
— Eu vou dar um jeito de escapar de você — sibilei, recuando enquanto ele avançava. — Você não pode me manter aqui para sempre.
Ele não respondeu com palavras, antes que eu pudesse processar o movimento, ele me agarrou pela cintura e me jogou sobre o ombro como se eu não pesasse mais que uma boneca de pano, o meu sangue subiu para minha cabeça, e o meu desespero virou uma fúria cega.
— Me solta! Seu desgraçado! Filho da p**a! — comecei a esmurrar as costas dele, meus punhos batendo contra os músculos rígidos que pareciam feitos de aço, ele sequer cambaleou, ele subiu as escadas com uma calma aterradora enquanto eu gritava todos os xingamentos que minha educação de elite tentou apagar.
Ele entrou em um quarto e me soltou no chão o impacto me fez perder o equilíbrio por um segundo.
— Você vai ficar trancada aqui até entender quem manda nessa p***a — ele sentenciou.
Ele se aproximou, invadindo meu espaço pessoal até que minhas costas batessem na parede fria e o cheiro de pólvora e tabaco que vinha dele era sufocante.
— Presta atenção, Valentina... Se a partir de agora você me chamar de qualquer nome que não seja Ceifador, você será punida. E eu detesto ter que repetir as coisas. Não me testa, porque eu não tenho paciência para criancice de patricinha.
Ele saiu e bateu a porta, ouvi o som da chave girando, eu estava trancada, corri para a porta, batendo com toda a força que me restava.
— Abre essa porta! Ceifador, seu monstro! Você não pode fazer isso!
Gritei até minha garganta arder, até minhas mãos ficarem vermelhas, quando o silêncio finalmente venceu meus gritos, fui até a janela, a vista era de tirar o fôlego, mas para mim, era a visão do inferno, não havia saída a altura era suicida e o morro era um labirinto cheio de homens armados.
Desabei na cama, enterrando o meu rosto nas mãos, como eu, Valentina, acabei aqui? eu era apenas uma peça em um jogo de xadrez onde o rei era um assassino.
Cerca de meia hora depois, o silêncio foi estraçalhado, o som era ensurdecedor, eram tiros muitos tiros, o barulho de fuzis cuspindo bala rasgava o ar, e explosões faziam o chão da Casa tremer.
O meu pânico, que eu achei que tinha atingido o limite, subiu a um novo patamar, com medo de uma bala perdida atravessar as paredes ou a janela, eu não pensei: mergulhei para debaixo da cama, encolhendo-me em posição fetal, tapando os meus ouvidos enquanto as lágrimas escorriam sem controle.
Cada explosão parecia ser dentro da minha cabeça o tempo parou. Eu rezava para deuses em que m*l acreditava, implorando para que aquela guerra não me alcançasse, quase uma hora depois, o tiroteio diminuiu para estalos distantes, dez minutos depois a porta do quarto se abriu com um estrondo.
Saí debaixo da cama, trêmula, com o meu coração batendo na garganta e na minha frente estava ele o Ceifador.
Ele estava ofegante, o peito subindo e descendo com força.
A jaqueta de couro estava rasgada e ele estava ensanguentado. Havia sangue no rosto dele, nas mãos, e o fuzil na sua mão parecia ainda exalar calor o olhar dele cruzou com o meu, e pela primeira vez, vi algo além da frieza: era a adrenalina pura de quem tinha acabado de encarar a morte e vencido.
— Ainda está viva, Doutora? — ele perguntou, a voz rouca, quase um rosnado.
Eu não consegui responder o cheiro de sangue e pólvora que ele trouxe para o quarto era o cheiro da minha nova realidade eu estava nas mãos de um monstro, e lá fora, o mundo estava em chamas.
— É sempre assim? — minha voz saiu num fio, quase um sussurro quebrado. — Esse barulho... essa morte toda lá fora... é assim que vocês vivem?
Ele deu um passo à frente, e eu recuei até sentir a madeira da cama nas minhas panturrilhas o Ceifador soltou o fuzil na bandoleira e limpou o suor da testa com as costas da mão, deixando um rastro de sangue na pele.
— Esse é o novo som da tua vida, Valentina, é bom se acostumar logo, se não tu vai passar o resto dos teus dias vivendo debaixo da cama feito bicho acuado. — Ele se aproximou mais, a sombra dele me engolindo. — Tu tá conhecendo a vida real agora, morena. Não essa mentira colorida que inventaram pra tu lá no asfalto, onde o sangue é escondido por baixo de processo judicial e gravata de seda. Aqui a verdade é de aço e explode no ouvido.
Fiquei sem palavras o choque de realidade foi mais violento que qualquer bofetada, toda a minha estrutura de valores... tudo parecia fumaça diante daquele homem que exalava o cheiro do abate.
Ele soltou um gemido baixo de dor e levou a mão ao flanco, onde a camisa estava empapada.
— Senta ali — ele ordenou, apontando para a beirada da cama, enquanto caminhava ate o banheiro e voltava com um Kit de primeiros socorros e jogava em cima do colchão. — Tu é doutora, não é? Pois agora vai exercer a tua profissão de um jeito útil, limpa isso aqui antes que eu perca a paciência com essa queimação.
Eu queria recusar, queria gritar que eu era advogada e não médica, me sentei, e ele se posicionou entre as minhas pernas, ficando de pé enquanto começava a tirar a jaqueta e a camisa rasgada.
A proximidade com ele era sufocante eu conseguia sentir o calor que emanava do corpo dele, um calor febril de quem acabara de lutar pela vida. Meus dedos, ainda trêmulos, tocaram a pele dele para afastar o tecido, o ferimento era um arranhão profundo causado por um estilhaço, meus olhos subiram e encontraram os dele, ele me encarava com uma intensidade predatória, que me fazia sentir nua, apesar de estar totalmente vestida.
Eu estava tocando o meu captor, cuidando do homem que destruiu minha vida, e o pior de tudo foi perceber que, naquele momento de horror, o toque dele era a única coisa que me mantinha ligada ao mundo dos vivos.
— Capricha, Valentina — ele sussurrou, a voz vibrando perto do meu rosto. — Minha vida tá nas tuas mãos, e a tua... bom, a tua já sabe de quem é.