Capítulo 5

1452 Words
Ceifador narrando O cheiro de chuva e pólvora ainda estava impregnado na minha jaqueta, mas o perfume dela aquela essência de mulher cara de flores que não crescem na Favela tava dominando o interior do SUV, olhei pro lado e vi a Doutora apagada no banco de trás, ela parecia um anjo de porcelana jogado num lixão, linda, intocável... e agora, minha. — Acelera essa p***a, Letinho! — rosnei, batendo no painel. — Não quero nenhum Civil querendo ser herói hoje não o asfalto já ficou pra trás, agora o papo é no meu terreno. — Fica tranquilo, irmão já passamos da barreira — Letinho respondeu, jogando o carro pelas curvas fechadas que levavam ao topo da Favela. Eu não tirava os olhos dela. Cada curva do corpo dela sob aquele terno alinhado me dava um soco no estômago, o plano era simples para o Francisco, mas o destino é um filho da p**a que gosta de brincar com a minha cara. O velho cometeu o maior erro da vida dele no momento em que me entregou aquele envelope, o erro do Francisco foi ter me mostrado a foto da Valentina; no segundo em que meus olhos bateram naquele rosto, ela deixou de ser um alvo e se tornou minha. Foi quando ela deu o primeiro sinal de vida um gemido baixo, Valentina estava começando a despertar da sedação, eu vi o exato momento em que os olhos castanhos dela focaram o interior do carro, a confusão durou dois segundos, depois, veio o terror puro. E logo em seguida? O ódio. — Onde... onde eu estou? — A voz dela saiu rouca, quebrada. — Me tira daqui! Me solta agora! Ela tentou avançar na maçaneta, mas as travas elétricas eram o meu decreto, desesperada, ela partiu pra cima de mim como uma gata acuada, as suas unhas cravadas no meu braço, socos sem direção, um grito agudo que batia nos vidros blindados e voltava pro meu ouvido. — Seu monstro! Assassino! Me deixa sair! — ela me acertou um tapa no meu rosto e o estalo ecoou dentro do SUV. Minha mandíbula travou, o meu sangue ferveu eu não sou um homem de levar desaforo, nem de mulher bonita, nem de ninguém. Segurei os dois pulsos dela com uma mão só, prensando o corpo dela contra o banco de couro com o peso do meu tronco. A diferença de força era uma covardia. — Fica quieta, Doutora! Ou eu vou te ensinar a diferença entre um sequestro e um funeral! — Minha voz saiu do fundo do meu peito, um rosnado que fez ela congelar por um segundo. — Me mata de uma vez então! — ela gritou, as lágrimas escorrendo, mas os seus olhos brilhando com uma coragem que poucos tinham. — É pra isso que o Francisco te pagou, não foi? Pra me apagar? Eu ri uma risada seca, desprovida de qualquer alegria inclinei o meu rosto até sentir o calor da respiração dela junto com a minha. — O Francisco queria um cadáver. O Rafael queria uma escrava. Eu? Eu só quero ver até onde a tua dignidade aguenta o peso da minha mão. — Soltei um dos pulsos dela e segurei o queixo dela com força, obrigando-a a encarar o abismo que eu carrego nos olhos. — Você é um lixo! Um criminoso de merda! — ela cuspiu as palavras, e o rosto colado no meu. — Eu sou o cara que decidiu que o teu coração ia continuar batendo hoje, Doutora, então abaixa o tom, porque aqui em cima, a única lei que existe é o meu humor. E hoje, eu tô de péssimo humor. Ela tentou cuspir na minha cara, mas eu desviei e a imobilizei com mais força, sentindo o perfume dela se misturar ao cheiro do meu suor a proximidade era perigosa eu sentia os batimentos dela acelerados contra o meu peito, num ritmo que atiçava o meu juízo. — Entende uma coisa, morena... Lá embaixo, tu era a rainha das leis. Aqui em cima, tu não é nada além de um enfeite. Eu sou a tua única chance de não virar só mais um crânio pendurado no meu pescoço. — Apontei pro rosário que brilhava no meu peito. As caveiras de osso pareciam rir do desespero dela. Valentina parou de lutar, mas o olhar dela ficou perdido ela tava ofegante, o peito subindo e descendo, os cabelos desfeitos caindo pelo rosto. — Por que me trouxe pra cá? — ela sussurrou, o medo finalmente vencendo a raiva. — O que você quer de mim? — Eu quero o que ninguém nunca teve coragem de tirar de você: a sua alma. — Me afastei um pouco, mas mantive a mão no pescoço dela, sentindo a pulsação frenética na jugular. — Tu acha que o asfalto é limpo? Tu acha que teus sócios são santos? Eu te trouxe pro inferno pra te mostrar que os demônios que tu conhece usam terno, mas o que mora aqui, usa fuzil. O SUV parou, tínhamos chegado na minha Casa no ponto mais alto do morro, onde a vista do Rio de Janeiro é linda, mas o chão é manchado de história r**m. Letinho desceu e abriu a porta. — Chegamos, irmão, já tá tudo pronto como tu mandou. Olhei pra Valentina, ela olhou pra fora, viu os moleques de fuzil na bandoleira, viu a realidade crua da favela que ela só via pela TV ela tremeu. — Bem-vinda ao meu mundo, doutora aqui não tem juiz, não tem recurso e não tem habeas corpus. Só tem eu. — Saí do carro e puxei ela pelo braço, sem delicadeza, mas sem querer quebrar a porcelana. Ela tropeçou no salto alto, quase caindo no chão de concreto eu a segurei pela cintura, colando o corpo dela no meu por um instante. — Me solta... eu te odeio — ela sibilou. — Ótimo, o ódio é uma emoção honesta, a gente vai se dar muito bem quando tu aprender a obedecer. — Cheguei perto do ouvido dela, a minha voz virando um sussurro de possessão. — E lembra bem: se tu tentar correr, o morro te engole, tu é minha agora, do fio do cabelo até a alma. Empurrei ela pra dentro da casa, assim que passamos pela barreira foi o ponto final da vida dela no asfalto, a Doutora Valentina Albuquerque tinha acabado de morrer o que sobrou dela era meu agora. Ela se desvencilhou do meu braço com um solavanco, cambaleando nos saltos caros, e parou no meio da minha sala, cercada pelo luxo que só o poder do crime compra, ela limpou o rastro de rímel no rosto com as costas da mão e me encarou, a postura era de quem ainda achava que mandava em alguma coisa. — Você acha que esse muro me segura? — Ela disparou, a sua voz cortante como faca. — Eu não sou uma das suas vadias, eu conheço cada brecha da lei, eu vou fugir dessa sua gaiola de lixo, uma hora ou outra e quando eu sair, eu vou voltar com um exército que vai transformar esse teu morro em cinzas! Eu dei um passo lento na direção dela a cada centímetro que eu avançava, o ar parecia sumir, parei tão perto que ela conseguia ver o reflexo do próprio desespero nas minhas pupilas. — Tu ainda não entendeu o jogo, né, Doutora? — Minha voz saiu num sussurro que fez ela estremecer. — Tu fala de lei, de fuga, de exército... mas aqui, o único exército que entra é pra recolher o que sobra dos teus sonhos. Tu tá no meu domínio, onde a gravidade puxa pro meu lado. Segurei uma mecha do cabelo dela, enrolando no meu dedo com uma calma que era mais assustadora que qualquer grito. — Escuta bem, Valentina: tu pode tentar fugir mil vezes, e nas mil vezes eu vou te caçar até no inferno. Mas papo reto? Tu só sai da minha favela de duas formas: ou no meu colo, aceitando que eu sou o único que pode te manter viva, ou num caixão de madeira barata, com um furo na testa pra combinar com o teu orgulho. Ela abriu a boca pra retrucar, mas eu encostei o cano da pistola, ainda quente do sequestro, por baixo do queixo dela, forçando-a a olhar pra cima. — A escolha é tua, morena. Mas enquanto teu coração bater, ele bate no meu ritmo. Tenta a sorte, e eu te mostro que o Ceifador não aceita recurso. Ela era um desafio que eu ia dobrar, um pecado que eu ia cometer e, acima de tudo, uma propriedade que nenhum juiz do mundo ia conseguir me tomar.
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