Capítulo 14

1829 Words
Valentina narrando Era trágico demais fazer parte daquela palhaçada eu, que sempre fui a mestre das palavras, a arquiteta de teses jurídicas impecáveis, agora não passava de um joguete nas mãos de um tirano, não existia alternativa, não havia recurso ou apelação: ou eu fazia a vontade dele, ou eu morria. A liberdade tinha se tornado um conceito abstrato, algo que ficou para trás no asfalto, junto com a minha dignidade. Eu queria fingir que nada me afetava, queria manter aquela máscara de frieza aristocrática que usei para vencer tantos embates no tribunal, mas a verdade é que eu estava estilhaçada, o encontro com a tal da Rita na praça ainda queimava na minha memória como ácido, aquela mulher com seu veneno destilado em cada palavra e aquele olhar de posse sobre um homem que é a própria personificação do caos. Voltei para a Casa com a Mariana, sentindo o meu sangue ferver. Aquele show barato da Rita tinha estragado meus planos de observar as rotas de fuga, de mapear os becos e entender como aquele labirinto de concreto funcionava, agora, eu era apenas a "boneca de luxo" que virou alvo de p**a. — Esquece aquela p*****a, Valentina — Mariana disse, percebendo meu silêncio mortal enquanto subíamos a ladeira. — Ela late, mas quem morde aqui é outro. Eu não respondi, o peso do contrato de sangue que assinei mais cedo parecia querer me sufocar eu era dele, oficialmente, mas meu espírito ainda gritava por uma saída. Saio dos meus pensamentos quando minha barriga me denuncia com um ronco alto e nada elegante. — Você está com fome — Mariana constatou, soltando um riso curto. — Vem comigo que vou te ajudar com isso. Ela puxou meu braço, me guiando para a cozinha, me deixei levar, permitindo que, por um minuto, um pequeno lampejo de normalidade invadisse aquele cenário de guerra, era estranho como momentos triviais conseguiam trazer uma sensação de paz no meio do caos, Mariana abriu uma panela, o vapor subindo com um aroma que me fez salivar instantaneamente. — Senta aí — ela ordenou, pegando um prato. — Antes que você desmaie e eu tenha que carregar uma doutora desmaiada pela casa. Obedeci sem discutir, ela serviu arroz, feijão e um pedaço generoso de carne com um molho que parecia divino, quando coloquei a primeira garfada na boca, quase fechei os meus olhos. Eu estava faminta, uma fome que vinha do cansaço físico e do esgotamento emocional. — Viu? — Mariana comentou, encostada na bancada com os braços cruzados. — Já está até com cara de gente de novo. O açúcar subiu e a vontade de matar diminuiu, né? Soltei uma pequena risada, a primeira em dias, por alguns minutos, o mundo pareceu normal, sem ameaças, sem fuzis, sem o peso constante daquela presença opressora que parecia sugar todo o oxigênio de qualquer cômodo. Mas a minha ilusão durou pouco. A porta da frente bateu com uma força que fez as janelas vibrarem, o barulho ecoou pela casa inteira, como um tiro de canhão, meu corpo inteiro ficou tenso automaticamente, a minha espinha ereta, os talheres parados no ar. Mariana também congelou, passos pesados e carregados de uma autoridade sombria começaram a ecoar pelo corredor, eu não precisava olhar para saber quem era, o dono do morro tinha voltado para sua toca, o Ceifador estava em casa. Meu apetite desapareceu no mesmo instante, a comida virando cinzas na minha boca, ele entrou na cozinha alguns segundos depois, grande, imponente, exalando o cheiro metálico da pólvora e o frescor de um perfume caro que criava um contraste perturbador, os olhos escuros, profundos como valas comuns, passaram primeiro por Mariana... e depois travaram em mim. O silêncio que tomou conta da cozinha ficou denso, pesado o suficiente para ser cortado com uma faca. — Vejo que já está se sentindo em casa, Doutora — ele disse, a sua voz grave vibrando no meu peito. Cruzei os meus braços, sustentando o seu olhar. — Não se engane, comer é uma necessidade biológica, não um sinal de conforto. Ele levantou uma sobrancelha, um brilho perigoso surgindo naquelas órbitas escuras. — Não estou me enganando, sei exatamente o que você é. A raiva que eu estava tentando controlar desde o encontro com a Rita voltou com força total, o deboche dele, a segurança de quem detém o poder de vida e morte sobre todos, me dava náuseas. — Quantas pessoas você matou hoje? — perguntei, a minha voz saindo mais afiada do que eu pretendia. Mariana soltou um suspiro baixo, um aviso mudo. — Valentina… não… Mas já era tarde, o meu insulto tinha sido lançado, os olhos dele ficaram ainda mais escuros, se é que isso era possível, por um segundo, ninguém se moveu, o tempo parou então, ele começou a caminhar na minha direção, um passo, depois outro. O som das botas dele no chão parecia o tique-taque de uma bomba. Meu coração começou a bater tão forte que eu podia ouvi-lo nos meus ouvidos, mas eu não recuei, não daria esse gostinho para ele, eu não era a Rita; eu não ia me dobrar, quando percebi, ele já estava na minha frente, perto demais, o calor do corpo dele me atingiu, misturado ao cheiro de morte e luxo que o seguia. — Cuidado com as perguntas que você faz, Valentina — ele murmurou, a sua voz baixa, fria, desprovida de qualquer humanidade. — No meu mundo, a curiosidade não mata só o gato, ela cava covas. — Ou o quê? Vai me matar? — retruquei, o meu queixo erguido. — Faça um favor a nós dois e acabe com isso de uma vez. Foi quando tudo aconteceu rápido demais. Ele segurou meu braço com força e me puxou, meu corpo foi jogado contra a parede de azulejos atrás de mim, o impacto tirou todo o ar dos meus pulmões por um segundo, antes que eu pudesse reagir, a mão dele estava no meu pescoço, me prendendo ali, cercada pelo seu corpo. Os olhos dele estavam a poucos centímetros dos meus, friamente intensos, eu conseguia ver cada detalhe das suas íris, a fúria contida, meu coração batia tão forte que parecia que ia rasgar meu peito. — Escuta bem o que eu vou te dizer, porque eu odeio repetir o óbvio — ele falou, a sua voz saindo num rosnado baixo que arrepiou cada pelo do meu corpo. — Tu é só mais uma na minha cama, não levanta a voz pra mim e não ache que esse papel que a gente assinou te dá o direito de me questionar. As suas palavras caíram sobre mim como lâminas, cortando o que restava do meu orgulho. — A diferença — ele continuou, o rosto descendo até o meu pescoço, onde senti sua respiração quente — é que você dorme sobre o meu teto, as outras? as outras não passam da porta. Elas são descartáveis, e você... você é um investimento. Meu estômago revirou, ele se inclinou um pouco mais perto, a ponta do nariz roçando a minha têmpora. — Então não se ache especial, Doutora, tu tá aqui porque eu quis, e no dia que eu não quiser mais, tu vira lembrança. O silêncio entre nós ficou pesado, meu peito subia e descia rapidamente. Ele me soltou como se eu não fosse nada, como se tivesse acabado de descartar um objeto sem valor, e se fastou dois passos voltando a ser o monstro intocável. — Termina de comer — ele disse, sem nem olhar para trás enquanto saía da cozinha. — E trata de aprender o teu lugar. Eu não sou homem de dar segunda chance para petulância. Eu fiquei parada contra a parede por alguns segundos, as minhas pernas bambas, tentando recuperar o ar que ele tinha roubado. Mariana me olhava com uma mistura de pena e espanto. Eu limpei uma lágrima solitária de raiva que insistia em cair, se ele achava que aquelas palavras iam me quebrar, que eu ia me tornar uma das suas seguidoras silenciosas, ele estava muito enganado, ele podia ter o meu corpo por contrato, podia ter o meu sangue no papel, mas ele nunca, jamais, teria a minha alma. {...} A noite caiu sobre o morro como um manto pesado e sufocante. O silêncio era interrompido apenas pelos estalos distantes de fogos de artifício que, naquele lugar, eu nunca sabia se eram celebração ou sinal de guerra, eu estava na varanda, observando as luzes da cidade lá embaixo, quando senti aquela presença, eu não precisei me virar, o ar ao meu redor parecia se deslocar, tornando-se denso e carregado de uma eletricidade perigosa. O Ceifador parou logo atrás de mim, ele não tocou em mim, mas sua sombra me envolveu completamente, o cheiro de maconha e couro era uma assinatura que meus sentidos agora reconheciam contra a minha vontade. — Bonita a vista, não é, Doutora? — a voz dele saiu como um rosnado baixo, vibrando na base da minha nuca. — Pena que o asfalto parece tão longe agora. — Distância é relativa — respondi, sem olhar para trás, mantendo a voz o mais firme possível. — Para quem tem esperança, nada é longe demais. Ouvi o som seco do isqueiro dele abrindo, ele tragou e soltou a fumaça, que o vento trouxe diretamente para mim. — Esperança é o que mata as pessoas aqui em cima, Valentina, o que mantém a gente vivo é o realismo... e o respeito ao dono da casa. — Ele deu um passo à frente, alinhando o corpo ao meu, os olhos fixos no horizonte escuro. — Não esquece o que você assinou hoje, durante os próximos seis meses, cada centímetro dessa tua pele, cada pensamento que passa por essa tua cabeça de advogada, me pertence, eu comprei a tua vida. Virei-me para encará-lo, o ódio faiscando nos meus olhos. — Você comprou um contrato, Ceifador. Não comprou a minha vontade. Ele soltou uma risada sombria, os dentes brancos brilhando sob a luz fraca da lua. — A tua vontade é um luxo que você perdeu no momento em que entrou no meu carro, eu estou te dando um tempo, Valentina, um prazo para você se acostumar com o cheiro da pólvora e com o peso do meu nome, mas não abusa da sorte. Ele se inclinou, a sua mão pesada pousando no parapeito, cercando-me, o rosto dele estava tão próximo que eu conseguia sentir o calor da sua pele. — Logo eu vou querer você na minha cama, e quando esse dia chegar, eu não quero resistência, eu quero o pagamento do contrato, com juros e correção. — O olhar dele desceu para os meus lábios e voltou para os meus olhos com uma intensidade predatória. — Trata de baixar a guarda, o morro é meu, a casa é minha... e o tempo está correndo contra você. Ele se afastou com a mesma calma letal com que chegou, deixando-me sozinha com o meu coração disparado.
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