Capítulo 18

1433 Words
Letinho narrando O dia no Morro não nasce, ele desperta no susto, entre o som dos rádios chiando e o cheiro do café forte que as tias fazem nos barracos, eram seis da manhã e eu já estava na ativa, conferindo as cargas de pó e as pedras que iam abastecer as biqueiras da zona sul, organizar o plantão do dia é um xadrez de gente brava; tem que ver quem tá na contenção, quem tá nos foquetes e garantir que os canos fuzis estejam limpos. Se um moleque vacila, o prejuízo é do coletivo, eu estava terminando de fechar a contabilidade da madrugada quando o Ceifador chegou, com a cara fechada, o ar ficou pesado, frio, como se o sol que batia na laje não tivesse força para aquecer onde aquele homem pisava, ele estava mais m*l humorado do que o normal, e o rosário no pescoço balançava conforme ele caminhava, as caveiras de osso batendo umas nas outras. — E aí, irmão? Dormiu com o fuzil atravessado ou foi a falta de um carinho que te deixou com esse semblante de enterro? — Tentei brincar, dando um sorriso de canto. Na favela, sou um dos poucos que tem essa liberdade, mas hoje o santo dele não estava pra conversa. O Ceifador parou, virou o pescoço devagar e me encarou com olhos que pareciam dois buracos de bala. — Tu tá com muito tempo sobrando pra fazer piada, Letinho? — a voz dele saiu baixa, rouca, carregada de um aviso que fez meu sorriso morrer na hora. — Se a tua função tá fácil assim, avisa, que eu te coloco pra limpar o galpão de tortura sozinho. Engoli em seco e levantei as minhas mãos em sinal de rendição. — Pô, calma aí, Ceifador, só tô tentando aliviar o clima, o que tá pegando? Tu tá mais pilhado que fuzil em dia de invasão. Ele caminhou até o parapeito da laje, olhando para a Casa dele lá no alto. — É a Doutora — ele cuspiu as palavras com nojo. — A petulância daquela mulher não tem fim. Tivemos um round na cozinha. Ela me olha como se eu fosse o lixo dela, me desafia como se não soubesse que eu posso apagar a luz dela com um estalo. Uma hora eu ainda perco a linha e arranco a língua dela fora pra ela aprender o valor do silêncio. — Valentina é osso duro, né? — comentei, coçando a nuca. — Mulher de terno e lei não dobra fácil pro nosso estilo, não. Antes que ele pudesse responder algo, o celular no bolso dele começou a vibrar, o Ceifador pegou o aparelho e, no momento em que viu o nome na tela, o rosto dele se transformou numa máscara de puro ódio, ele fechou a mandíbula com tanta força que vi os músculos do rosto saltarem. — É o Francisco — ele sibilou antes de atender. — Fala. Eu fiquei ali, só de ouvinte, vendo ele ser cobrado, o tom do Ceifador era de quem estava prestes a explodir. Quando ele desligou, o silêncio que se instalou era aquele que precede o barulho do trovão. — E aí? O que o lixo do asfalto queria? — perguntei, cruzando os meus braços. — Ele tá desesperado, Letinho. A polícia tá fungando no cangote dele e o frouxo quer uma prova. Ele não quer mais o meu silêncio, ele quer carne. Exigiu uma prova incontestável de que a Valentina já era. — E tu vai fazer o quê? — indaguei, preocupado. — Matar a mulher agora, depois de todo o trabalho que ela deu? O Ceifador deu um sorriso de lado, algo macabro, sem um pingo de humor. — Eu vou dar pra aquele filho da p**a exatamente o que ele quer. Ele quer sangue? Ele vai ter. Mas não vai ser o dela. Naquele exato momento, o meu rádio apitou e a voz do Camaleão, que estava de vigia na parte baixa, veio num tom desesperado: — Aí, Patrão! Atividade aqui na rua da feira, o bagulho tá doido! A Rita pirou de vez, tá rolando a maior treta, ela tá dando uma surra numa mina que parece não ser daqui da favela, a morena de terno! O povo tá aglomerando, o Sal tá ajudando a Rita, o clima tá azedando legal! O Ceifador não esperou eu terminar de ouvir, ele se levantou num salto, pegando o fuzil com uma rapidez assustadora. — Rita... aquela v***a não sabe a hora de parar — ele rugiu. — O que tu vai fazer, irmão? — perguntei, seguindo ele pelas escadas. Ele parou no primeiro degrau e olhou para mim, o brilho nos olhos dele era de quem já tinha traçado o destino de alguém. — O Francisco quer uma prova, Letinho? Pois eu acabei de encontrar o doador. Se a Rita e o Sal acham que podem tocar no que é meu sem a minha ordem, eles vão servir pra alguma coisa antes de irem pro inferno. Vamos descer agora. Vou acabar com a raça daquela v***a e dar o que o Francisco pediu. Eu entendi na hora. O Ceifador não ia perdoar o vacilo da "ex v***a". No morro, quem tenta brilhar mais que o sol do patrão acaba na sombra de uma cova. Descemos as vielas em passos largos, o som do rosário dele marcando a nossa marcha. O Ceifador não andava, ele flutuava com a fúria de um demônio, e eu ia logo atrás, sentindo o peso da minha arma na cintura e o presságio de que o dia terminaria em sangue. Quando dobramos a esquina da feira, o cenário era um caos: a Valentina estava no chão, humilhada, e a Rita gritava como se fosse a rainha do crime, com o Sal servindo de carrasco particular. O Ceifador não pensou duas vezes, ele sacou a peça e deu dois tiros pro alto que ecoaram pelo morro todo como um trovão. O povo, que adora uma fofoca mas preza pela vida, dispersou num piscar de olhos, o silêncio que sobrou era tão cortante quanto a faca que ele carregava. Ele levantou a Rita pelo pescoço, e a humilhação que ele jogou na cara dela foi pior que qualquer tapa. Quando o Sal tentou balbuciar uma desculpa, o Ceifador desferiu um soco que quebrou o nariz do moleque no ato. — Levem para o galpão, quero tratamento VIP nele! — o patrão rugiu, e eu vi o medo absoluto nos olhos do Sal enquanto ele era arrastado. Depois de dar o ultimato na Rita e garantir que a Valentina estivesse sob sua guarda, o Ceifador me deu a ordem direta. O tom de voz dele não deixava espaço para piedade, eu a segurei pelo braço, ignorando seus protestos. — Letinho, me solta! O Ceifador não pode fazer isso comigo! — Rita gritava, as unhas cravando na minha pele. — Eu sou a mulher dele, eu fiz tudo por esse morro! Ele enlouqueceu por causa daquela branquela? Eu soltei uma risada seca, um deboche que veio do fundo do peito. — Acorda pra vida, Rita! Tu ainda não entendeu? O Homem pode fazer o que ele quiser. Tu nunca foi dona de nada, era só a diversão de luxo. Ele mandou a cobrança, e eu vou executar. Assim que chegamos no micro ondas empurrei ela contra a parede e peguei um pedaço de madeira de lei que já estava separado no canto, o peso da ripa na minha mão era o aviso final. — Letinho, por favor... a gente se conhece desde pequeno... não faz isso — ela começou a implorar, a sua voz falhando, os olhos arregalados de pavor. — Negócios são negócios, Rita. Tu desrespeitou o Patrão. — O primeiro golpe pegou na costela, e o som do impacto foi seco. Ela caiu soltando um gemido abafado, eu não parei, o Ceifador queria ela no hospital, e eu ia garantir que ela aprendesse a lição. Foram vinte minutos de uma cobrança pesada, onde os gritos dela foram ficando cada vez mais baixos, transformando-se em soluços de dor. Eu estava limpando o suor da testa quando a sombra dele bloqueou a entrada da salinha, o Ceifador entrou devagar, o rosário balançando ritmicamente, cada caveira de osso parecendo rir da desgraçada no chão. Ele parou diante da Rita, que estava um trapo sangrento, e olhou para mim com uma frieza que me fez ajeitar a postura na hora, a entrada dele era macabra; ele parecia a própria personificação do julgamento final, pronto para decidir se ela ainda merecia respirar o ar do seu morro.
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