Capítulo 17

1358 Words
Valentina narrando Acordar nessa casa era como despertar dentro de um pesadelo que se recusava a terminar, as lembranças da noite anterior martelavam na minha cabeça, o confronto com o Ceifador na cozinha ainda queimava na minha cabeça, o jeito que ele me prensou contra a parede, o seu rosnado baixo dizendo que eu era "apenas mais uma na cama dele", e um investimento, ele tentou me diminuir, tentou me reduzir a um objeto descartável, mas o que ele não sabia é que eu sobrevi ao tribunal do júri com lobos muito mais velhos que ele. Para a minha sorte, não encontrei aquele mostro pelos corredores, e o silêncio da casa era o único alívio que eu tinha, desci as escadas devagar, sentindo cada músculo do meu corpo protestar, o terno que eu usava ou o que sobrou dele estava imundo, amarrotado e cheirando a suor. Encontrei Mariana na cozinha, e o cheiro de café fresco sendo a única coisa acolhedora naquele lugar. — Bom dia, Valentina, o café já está pronto — ela disse, sem se virar, mas o tom dela era mais suave hoje. — Obrigada, Mariana, eu realmente preciso de algo que me desperte desse transe — respondi, sentando-me à mesa e aceitando a caneca fumegante. Mariana me observou por cima da bancada, franzindo o cenho enquanto eu tomava o primeiro gole. — Por que você ainda está com essa mesma roupa? Já faz quase três dias que você está nesse terno de grife todo estraçalhado. Soltei um riso seco, sem humor. — Porque eu não tenho outra, Mariana, minha mala não veio no contrato de sequestro, lembra? — Pois então aproveita, hoje está tendo feira aqui na favela, se você quiser, a gente pode dar uma olhada em algumas roupas. Não são seda e nem corte de alfaiate, mas é melhor que continuar nesse trapo — Mariana sugeriu, limpando as mãos no pano de prato. — O Ceifador me pagou o mês hoje, se você quiser, eu posso te emprestar algum dinheiro, depois a gente acerta. Eu sorri, um sorriso genuíno pela primeira vez, a bondade dela era um oásis no meio daquele deserto de brutalidade. — Você é um anjo, Mariana, eu aceito, preciso me sentir minimamente como uma pessoa de novo. A ida à feira deveria ter sido um momento de distração, mas o meu destino no Morro tem um senso de humor doentio, o sol estava forte, e o movimento nas barracas era intenso, eu estava começando a relaxar quando o azar cruzou meu caminho na forma de Rita. O confronto foi inevitável, ela me cercou, destilando um veneno que eu nunca imaginei que uma mulher pudesse sentir por outra. Chamou-me de p**a, de bonequinha de luxo, gritou para quem quisesse ouvir que ela era a "patroa", eu tentei ignorar, mas quando ela avançou no meu cabelo, o meu instinto de sobrevivência falou mais alto, rolamos no chão, entre gritos e poeira, a humilhação de ser arrastada para a praça pelo tal do Sal, e o medo de ser violada por ordens de uma mulher louca me invadiu... tudo parecia o fim. Até que os tiros ecoaram, e o Ceifador apareceu. A forma como ele lidou com a situação foi de uma frieza que me paralisou, ele não me defendeu por amor ou justiça; ele me defendeu por me considerar a sua posse, ver o Sal ser levado para o "galpão" e a Rita ser arrastada para uma surra corretiva me deu uma náusea profunda, ele me puxou pelo braço, de uma forma possessivo, e me trouxe de volta para a Casa como se eu fosse um troféu quebrado. Agora, no quarto, o silêncio era interrompido apenas pelo som da bacia de água que ele colocou em cima da mesa de cabeceira, ele pegou um pano limpo e sentou-se na beira da cama, onde eu estava encolhida. — Fica parada — ele ordenou, a sua voz baixa, mas ainda carregada com a adrenalina. Ele começou a limpar o corte no meu lábio, o toque dele era firme, mas estranhamente cuidadoso, o que me irritava profundamente. — Você é um monstro — sussurrei, sentindo a ardência do antisséptico. — Mandou bater naquela mulher... mandou matar aquele garoto. Tudo isso pra mostrar que você manda? — Eu mandei matar quem encostou no que é meu, Valentina — ele retrucou, os olhos fixos na minha boca ferida enquanto passava o pano úmido com uma calma que me aterrorizava. — No morro, se eu não der o exemplo, a próxima cabeça a rolar é a minha, e a sua vem logo atrás. — Eu não sou sua! — disparei, tentando me afastar do seu toque, mas ele foi mais rápido. A mão dele largou o pano e segurou meu queixo com uma força bruta, obrigando-me a encarar o abismo escuro de suas pupilas. — Tu é minha desde o momento em que eu decidi que tu viveria, em vez de se tornar apenas mais uma conta no meu rosário — ele sibilou, a voz vibrando contra a minha pele. — Tua vida foi um presente que eu te dei, Doutora. Não esquece disso. Senti um calafrio percorrer minha espinha, ele falava de vida e morte como se fosse o dono do destino, eu respirei fundo, tentando ignorar a nosso proximidade. — O Francisco me ligou — Ele falou, a sua voz era baixa, firme, carregada de intenção. — Ele já sabe que o seu capanga falhou? Que eu ainda estou respirando? O Ceifador soltou meu rosto e deu um passo para trás, soltando uma risada seca e sem nenhum vestígio de humor. — Tu tá testando a minha paciência, Valentina, o Francisco ainda não sabe que tu tá viva, ele acha que tu é passado. Mas o verme tá ansioso... exigiu uma prova de que eu fiz o serviço. Meu estômago deu um nó, o pavor de ser entregue àquele lobo em pele de cordeiro me fez perder o chão. — Uma prova? — sussurrei, sentindo o ar fugi, dos meus pulmões — O que ele quer? O Ceifador se aproximou novamente, mas desta vez não houve agressividade, apenas uma tensão eletrizante, ele se inclinou, os lábios roçando o contorno da minha orelha, e sua voz desceu para um sussurro que me gelou até a alma: — Um pedaço seu. Eu estanquei. Meus olhos se arregalaram e o horror tomou conta de cada fibra do meu ser, olhei para as minhas mãos, para os meus braços, imaginando a lâmina dele cortando a minha carne para satisfazer a sede de sangue de um ganancioso. — Você não faria... — comecei a dizer, a minha voz falhando. — Relaxa — ele interrompeu, afastando-se com um olhar de puro desdém. — Por enquanto, tu não tem com o que se preocupar. Eu já sei de quem eu vou arrancar um pedaço pra mandar pro asfalto. Mas eu preciso de algo seu pra fechar o pacote. Eu gaguejei, as palavras tropeçando umas nas outras. — O... o que você quer de mim? — O teu anel de esmeralda. Instintivamente, levei a mão direita ao peito, protegendo a joia. O brilho verde da esmeralda parecia pulsar contra a minha pele. — Não! Esse anel não! — protestei, sentindo as lágrimas arderem. — É uma herança da minha avó, é a única coisa que me sobrou de quem eu era. O Ceifador deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal, a face endurecida como pedra. — Escolhe, Valentina: a tua vida ou o anel. — A voz dele era uma sentença final. — Porque no momento em que o Francisco descobrir que tu tá viva, acabou a paz dessa p***a de morro. Ele vai vir com tudo, e eu vou ter que gastar munição que não quero pra te proteger. É o anel na caixa ou o teu pescoço na vala. Decide logo. Eu olhei para o anel, o último vínculo com a minha família, e depois para o homem à minha frente, que representava o meu único e perigoso refúgio. Eu estava entre a cruz e a espada, e o tempo para decidir estava escorrendo entre os meus dedos.
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