Francisco narrando
Três dias, três malditos dias de silêncio absoluto no meu mundo, o silêncio não é ouro; o silêncio é o prenúncio de uma tempestade que pode me levar direto para a solitária ou para uma cova de sete palmos, eu paguei uma fortuna para que a Valentina fosse apagada do mapa, mas o Ceifador, aquele carniceiro que todos dizem ser infalível, ainda não me deu a confirmação.
Eu ando de um lado para o outro na minha cobertura na Barra, o uísque de dezoito anos descendo como ácido pela minha garganta. O Rafael, aquele frouxo, vive me ligando com a voz trêmula, na última ligação, ele parecia à beira de um colapso, relatando que a polícia Civil esteve no escritório vasculhando os arquivos dela. Eu sinto náuseas de pessoas fracas, o Rafael é o tipo de verme que quer os milhões, mas mija nas calças quando a primeira viatura dobra a esquina.
— A covardia é um câncer, e o Rafael já está em metástase — resmunguei para as paredes de vidro que mostram o mar revolto.
A minha paciência estourou, eu não sou um qualquer que aceita ser enrolado por bandido de morro, peguei o meu celular e disquei o número que poucos têm a audácia de chamar, o sinal chamou três vezes antes daquela voz atender.
— Fala — o Ceifador rosnou, só uma palavra, mas carregada de um perigo que faria qualquer homem normal desligar na hora.
— Escuta aqui, Ceifador — eu disse, tentando manter o meu tom de quem manda, embora o suor frio já estivesse brotando na minha testa. — Já se passaram três dias, três dias e até agora nada. Onde está o corpo da Valentina? Eu não pago para ter silêncio, eu pago para ter resultado, eu exijo ver o cadáver ou, no mínimo, uma prova incontestável de que ela não respira mais.
Houve uma pausa do outro lado, o silêncio era tão pesado que eu conseguia ouvir o barulho do vento lá no Morro dos Prazeres
— Tu tá me cobrando, Francisco? — a voz dele veio baixa, num tom de quem está prestes a cortar um pescoço. — Tu tá achando que eu sou um dos teus funcionários de terno que tu humilha na frente da secretária? Deixa eu te dar a visão, seu lixo do asfalto: eu não tolero ser ameaçado, muito menos por um verme, como você.
— O tempo acabou! — gritei, perdendo a compostura. — Se você não me der uma prova, eu vou entender que você me deu um golpe, e você sabe que eu tenho contatos na Secretaria de Segurança, eu posso fazer o seu morro virar um inferno.
O Ceifador deu uma risada curta, seca, que me fez estremecer até a medula.
— Meus contatos são as almas que eu já mandei pro inferno, Francisco e elas não têm medo de secretário nenhum, mas já que tu tá tão desesperado pra ver sangue... fica tranquilo, até o fim do dia, tu vai ter a tua prova, e reza pra eu não decidir que o meu próximo trabalho vai ser a tua língua.
Ele desligou na minha cara, joguei o celular no sofá, sentindo meu coração martelar, esse bandido era um psicopata.
Eu estava sentado na minha mesa de carvalho, tentando fingir que me concentrava em alguns contratos, quando minha empregada, a Bianca, entrou na sala com o rosto pálido.
— Senhor Francisco? — a voz dela era apenas um fio trêmulo.
— O que foi, Bianca? Eu disse que não queria ser interrompido por nada!
— É que... deixaram uma encomenda lá na recepção no nome de "Ricardo Araújo", o entregador disse que era urgente.
Senti um calafrio percorrer minha espinha.
— Deixe em cima da mesa e saia, agora! — ordenei, sem olhar para ela.
Ela colocou um pacote pequeno sobre a madeira nobre, embrulhado em papel pardo e amarrado com um barbante rústico. Assim que a porta se fechou, eu encarei o embrulho, o cheiro que emanava dele era doce e metálico ao mesmo tempo, era o perfume da morte.
Minhas mãos tremiam enquanto eu puxava o barbante, rasguei o papel com uma urgência, dentro, havia uma pequena caixa de madeira escura, abri a tampa e o que vi me fez engasgar.
Lá estava ele, em cima de um pedaço de veludo preto, repousava um dedo humano, um dedo pálido, cortado de forma cirúrgica na base, exibindo o osso branco no centro da carne morta, o que me deu a certeza absoluta foi o anel de ouro com a pedra de esmeralda que a Valentina nunca tirava a joia de família que ela exibia como um troféu de ética, e a unha... a unha estava pintada de um vermelho vivo, o mesmo esmalte que eu a vi usando na última audiência.
O Ceifador tinha cumprido o seu trabalho e quilo era a prova. Valentina estava morta.
Peguei o dedo com nojo, sentindo a pele fria e rígida, o anel estava preso à carne sem vida, um símbolo de uma existência que eu tinha apagado com um simples aperto de mãos no escuro, um sorriso lento e c***l começou a se formar no meu rosto, a preocupação que me corroía há três dias evaporou como fumaça.
— Adeus, Valentina — sussurrei para o pedaço de corpo dentro da caixa. — Você deveria ter aceitado o acordo quando teve a chance. A moralidade não salva ninguém de um fuzil.
Fechei a caixa com força.
Peguei o meu celular e liguei para o Rafael, eu precisava compartilhar o gosto da vitória com aquele covarde, nem que fosse para sentir o prazer de ouvir o alívio na voz trêmula dele.
— Está feito, Rafael — anunciei, sem preliminares. — Recebi a encomenda, a Doutora não vai mais incomodar os nossos negócios. Nunca mais.
Ouvi um suspiro longo do outro lado da linha, seguido por uma risada nervosa que beirava a histeria.
— Graças a Deus, Francisco! — Rafael exclamou, e eu podia quase ver o brilho de ganância voltando aos olhos dele. — Eu sabia que aquele açougueiro não falharia, agora o inventário das terras corre sem interrupção, a Valentina era o único entrave, a única consciência limpa que poderia nos destruir, hoje eu vou abrir o melhor champanhe do escritório!
— Comemore, Rafael. Mas lembre-se: o preço da nossa liberdade foi caro. Mantenha a cara de luto por mais uns dias, chore no enterro simbólico se precisar, mas amanhã quero os papéis da grilagem na minha mesa. Sem erros.
— Considere feito, sócio. Um brinde à nossa nova era.
Desliguei o telefone com um sorriso cínico, olhei para a caixa sobre a minha mesa, o cheiro de morte que saía dali era o perfume do meu sucesso, eu não sentia um pingo de remorso; sentia apenas a euforia de quem acabara de enterrar a justiça sob sete palmos de terra.
O mundo é dos espertos, e a Valentina foi apenas um degrau que precisei pisar para alcançar o topo, eu dormirei como um anjo esta noite, embalado pela certeza de que no Rio de Janeiro, o ouro sempre cala a lei, e o chumbo sempre vence a moral.