Sally Narrando
Meu primeiro dia de trabalho tem sido realmente uma maravilha. Fui chamada de "super competente" pelo meu mais novo chefe, Henry, e isso fez com que me sentisse muito bem. Não me importo muito com elogios, mas o dele pareceu muito sincero. Fiz um milhão de coisas, então acho que mereci.
Henry é um homem muito bonito, e para falar a verdade, não tenho muita paciência com homens como ele. Ele é do tipo que acha que tem o mundo nas mãos só por ser relativamente jovem, bonito, bem sucedido e simpático. Acontece que eu acho esse tipo de pessoa um saco.
Na hora do almoço, eu havia levado minha própria comida. O refeitório dos funcionários é lindo, e também tem uma sala de descanso maravilhosa com um piano no centro, algumas mesas de jogos e essas coisas. Pelo visto, a empresa cuida bem dos funcionários.
Sentei-me ao piano, e comecei a tocar. Eu cresci tocando piano em uma igreja católica. Sei tocar quase todas as músicas sacras que puder imaginar. As clássicas também.
Arrisquei meus dedos em Moonlight Sonata, de Beethoven. Fechei meus olhos e comecei a curtir a música que eu mesma tocava, e a medida que eu tocava, era como se minha alma saísse do corpo e entrasse em outra dimensão.
Dois funcionários estavam jogando cartas e pararam para ouvir. Sempre toquei com paixão, então não me surpreendi.
- Faz dois anos que ninguém toca nesse piano. - Um comentou com o outro, mas eu estava perdida demais na música para responder.
Acabei saindo do meu transe e finalizei a música com alguns acordes improvisados. Comecei a rir de mim mesma e os rapazes aplaudiram. Eu fiquei vermelha.
- Eu me empolgo em pianos. - Comecei a rir. Eles também.
- Isso foi lindo de ver. Pareceu que o Henry estava tocando, não pareceu?- Um deles comentou.
- Verdade! Só que foi mais bonito. - O outro disse.
- Eu concordo. - Uma voz masculina disse do final da sala. Arregalei meus olhos ao perceber que era meu chefe. Os rapazes abaixaram o rosto e saíram de perto, como se soubessem que eu iria levar uma bronca.
Eu confesso que fiquei um pouco tensa quando Henry se aproximou de mim, e também fiquei com medo de levar uma bronca. Mas ao contrário disso, ele se sentou ao meu lado e sorriu de forma doce.
- Toca piano também? - Ele concordou.
- Faz dois anos que não tiro um tempo para tocar. E eu tocava essa música sempre aqui. - Ergui as sobrancelhas.
- Que legal. Acho que tenho um incentivo para você voltar a tocar imediatamente. Bom... Vamos tocar em quatro mãos? - Ele respirou fundo e balançou a cabeça positivamente de forma lenta.
- Vamos lá. - Ele disse.
Comecei a dedilhar o piano, iniciando a música.
- Comece quando quiser. - Falei.
Vamos ver se Henry é tão bom no piano quanto é nos negócios.
Me surpreendi quando ele finalmente colocou as mãos no piano e começou a tocar. Ele combinava os acordes de forma perfeita com os meus, e a música estava ficando ainda mais bonita do que é, quando tocada em duas mãos. Fechei meus olhos e comecei a curtir a musica novamente. E quando os abri, vi que ele a curtia tanto quanto eu.
- Você acha que a gente consegue tocar aquela parte em quatro mãos? - Ele disse. Se referia a parte mais rápida, e eu concordei.
- Faço os acordes principais e você dedilha, então boa sorte. - Ele deu risada ao me ouvir.
- Folgada. Me deixou com a parte mais difícil? - Eu concordei.
- Sim, você é o chefe. - Ele sorriu e continuamos a tocar.
No final das contas, quando a parte mais difícil da música iniciou, a sincronia foi realmente incrível. Henry toca bem para caramba. Eu fiquei impressionada.
Houve um momento onde nossos braços tiveram que se cruzar. E mesmo assim, deu certo. Quando a música finalmente terminou, nossos olhos se encontraram e nós dois sorrimos.
- Isso foi maravilhoso, senhorita Sally. Você realmente conseguiu fazer meu horário de almoço ser relaxante, acho que pela primeira vez em muito tempo. - Soltei uma risadinha sem graça.
- De nada então, senhor Henry. - Pisquei um dos meus olhos de forma brincalhona. Henry sorriu e abaixou o rosto por alguns instantes, e depois, se levantou do piano. Ele foi indo em direção a porta e eu o observei.
Talvez ele não fosse tão babaca quanto pensei. Ou talvez alguns babacas também saibam tocar piano.
Durante o restante do dia, fiz todos os meus serviços da melhor forma possível. Percebi que a secretária de Henry não gostou muito de mim, talvez por eu ajudar muito o Henry ou talvez pelo fato dele ter olhado para minha b***a umas vinte vezes durante o dia. Esse foi o único incômodo que tive, porque de restante, tudo foi bem.
Na hora de ir embora, juntei minhas coisas e coloquei a bolsa no ombro. Desci pelo elevador, e assim que estava fora da empresa, Henry me chamou.
- Senhorita, Sally, espere um minuto. - Ouvi sua voz grave falando. Me virei em sua direção e ele estava com as chaves do próprio carro na mão. - Vamos para um bar beber comigo. E depois te levo até em casa.
- Isso foi uma ordem ou um convite? - Questionei.
- Um convite. Mas não aceito não como resposta. - Sorri e neguei com a cabeça.
- Então é uma ordem, senhor Henry. Eu vou, contanto que o senhor não seja inapropriado. - Ele ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa.
- Está dizendo que sou inapropriado? - Ele me olhou com um sorrisinho sacana no rosto.
- Estou dizendo que já trabalhei para outro CEO muito parecido com você que também queria me levar para tomar um drink. E ele olhava tanto para minha b***a quanto você olha. - Consegui constranger Henry. Bingo.
Henry soltou uma risada de nervosismo.
- Desculpe, senhorita Sally. É realmente só um drink, não se preocupe. E quanto aos olhares... A senhorita é realmente bonita. Vou tentar não constrangê-la mais dessa forma... Mas aviso que será difícil. É meio que automático.
- Só um drink. - Falei.
Tirei minha bolsa e entreguei para ele. Caminhamos até o carro dele, muito bonito e cheiroso, e ele abriu a porta do carro de forma educada para mim. Fomos conversando sobre trivialidades durante o caminho e assim que ele parou no bar, desceu e abriu a porta para mim, me oferecendo a mão para que eu saísse do carro.
- Obrigada, senhor Henry. - Falei.
- Aqui fora, só Henry, por favor. - Dei os ombros.
- Só Sally para você então.
Sentamos juntos em um bar fino da cidade. Eu sabia que os drinks dali eram caros apenas por observar as pessoas do lugar.
Pedi uma margarita. Conversávamos sobre tudo, de forma descontraída. Ele pediu mais um uísque e enquanto conversávamos, e eu outra margarita. Aí, uma mulher loira apareceu.
- Henry? - Ela o olhou.
- Olá, Elena. - Ele sorriu de forma sem graça. Ela respirou fundo e fechou os olhos.
- Ela sabe que você transou comigo ontem? - Henry fechou os olhos em constrangimento não por ele, mas por ela. Era um ataque de ciúme desnecessário... Mas eu gosto de brincar com fogo quando estou levemente alterada pelo álcool. Henry tomou um gole do uísque e o manteve na boca por alguns instantes.
- Na verdade ele disse sim. Inclusive considero sua participação comigo na próxima vez. Sou uma garota muito má que gosta de t*****r a três e você é uma delícia. - A mulher loira arregalou os olhos, Henry engoliu o uísque e começou a tossir, e eu comecei a rir descontroladamente. Henry caiu na risada também e Elena não sabia onde enfiar a cara.
- p***a, Sally! - Ele disse, ainda rindo.
- Desculpa, Elena. Eu sou apenas a estagiária dele. Estamos comemorando que... O que estamos comemorando hoje? - Questionei.
- Sei lá... Estamos comemorando que hoje é terça? - Concordei com a cabeça.
- Exatamente, serve. É uma comemoração perfeita. Hoje é uma linda terça-feira. - Abri um sorriso levemente bêbado. Elena acabou rindo. - Por que não senta conosco?
- Tudo bem... - Ela falou. Aparentemente, Henry não gostou muito, mas eu não ligo.