Existe uma grande diferença entre você pensar em fazer uma coisa e realmente fazer. Quando a Dra. Mariana perguntou se aceitava a visita de Thiago, eu simplesmente travei. Desejei colocar em prática o bom senso e todos os sentimentos que assistir Given me causou. Mas a verdade? Eu não estava pronta para dar o próximo passo. Não depois dele ter aparecido com a família de surpresa no que era antes a sua casa, sua antiga família e sem pensar em nossos sentimentos. Tento de verdade ir contra sentimentos conflituosos que insistem em lutar dentro de mim. Fiz a coisa certa no momento, recusei a visita. Ainda estava muito abatida, me sentindo fragilizada e cansada. A médica apenas assentiu, me deixando sozinha no quarto...
Os dias no hospital não são tão ruins, existe um g***o de apoio para ajudar as pessoas com câncer a lidar melhor com isso. Cada pessoa presente está lidando com um tipo câncer. Alguns estão na fase terminal, outras estão indo bem no tratamento e outras estão em remissão mas não deixam de vir as reuniões. Geralmente tem comida feita de acordo com as orientações médicas, mas sempre tem alguém que faz contrabando de biscoitos recheados e chocolate, como a reunião é uma vez na semana, a psicóloga finge não ver, nem ouvir os biscoitos estalando na nossa boca.
— Como estão essa semana? — Clara, a psicóloga perguntou, olhando para cada um de nós.
— Uma m***a — Cristiano respondeu. Ele foi diagnosticado com linfoma de hodgkin aos 16 anos, está na labuta a mais tempo que eu, quatro anos.
— Nos diga porque? — Clara pede.
Cristiano tinha sérios problemas de comportamento, não conseguia controlar sua raiva. Ele achava injusto que pessoas boas tivessem câncer, quando pessoas ruins viviam plenamente.
— Cássia morreu essa semana — ele respondeu.
Então todos entendemos o porquê estava tão revoltado, cássia era sua namorada, também com linfoma de Hodgkin.
Todos ficamos em silêncio com a notícia, e aquele dia, que tanto aguardei para me fazer sentir melhor já que faziam duas semanas que não participava, acabou comigo.
— Pelo menos ela morreu feliz — Cíntia, 19 anos. Câncer de pele não melanoma, raro em crianças e adolescentes, infelizmente, ela foi a sorteada. Está em remissão e isso é um alívio, é uma das melhores pessoas que conheço.
— Como você pode ter certeza disso? — Cristiano perguntou ríspido.
— Porque você tornou os dias dela melhores, você a fazia sorrir como eu nunca havia visto, graças a você, ela o amava e morreu feliz por você tê-la escolhido para amar. — Quando Cíntia terminou, todos estávamos com os olhos marejados. Aquela era uma verdade irrefutável.
— Quem dera eu, encontrar o amor verdadeiro quando não há mais esperanças. — Disse. Todos os olhares se voltaram para mim. — Cássia era incrível, suportou tudo com um sorriso no rosto e você — olhei para Cristiano. — Foi um cretino de muita sorte, porque ela se permitiu ama-lo e se permitiu aceitar o seu amor. Isso é raro, então o que você tem que fazer agora é viver por ela, fazer de tudo para se recuperar. Está nessa luta há quatro anos e os médicos ainda não o desenganaram. Viva o melhor possível, mesmo com suas limitações, por ela. Todos vocês devem fazer o mesmo — falo agora com todos. — Cássia viveu plenamente, apesar das limitações. Então devemos fazer o mesmo, não só por ela, por nós, pela nossa família e por Julia, Hélio, Cleide e Célia. Nossos amigos se foram muito cedo, eu sei que é triste, eu sofri por cada um e sempre pensei, e se fosse eu, e se um dia eu não acordar mais? Somos uns putos privilegiados. Porque ainda estamos aqui.
— Garota, hoje você está inspirada. — João, leucemia, em remissão.
Seco minhas lágrimas, eu odeio chorar na frente das pessoas.
— Nossa garota durona está sensível — Bruna, 22 anos, linfoma.
— Cala a boca — mando com um sorriso.
— Obrigado — Cristiano disse, parecendo um pouco melhor.
Olho para Clara, seus olhos estão marejados, diferente dos outros psicólogos que se mantêm neutros feitos uma pedra, ela é sensível e não se importa de demonstrar que também é humana.
— Meu Deus, eu havia esquecido! Como foi o resultado dos seus exames? O que a médica falou? — Cíntia lembrou e eu me amaldiçoei por ter contado sobre isso a ela. Mas estava tão ansiosa na época e não quis incomodar mamãe e Henrique.
Agora, novamente, todos os olhares estão voltados para mim. A expectativa explícita em cada olhar. Apenas balancei a cabeça em negativo.
— Que tipo de tratamento vão fazer agora? — João perguntou.
— Paliativo — respondo. Todos entendem.
— Quanto tempo? — Cristiano perguntou.
— Um ano ou menos — respondo num Sussurro quase inaudível.
— E mesmo assim, nos diz para aproveitar a vida quando a sua está com os dias contados. — Cristiano constata.
— Sim — confirmo.
— ISSO É UMA p**a s*******m! — ele grita ao se levantar de forma brusca, chutando a cadeira. — Pessoas como a Cássia e a Amanda não deveriam morrer. Porque eu ainda estou vivo? Porque a Cássia não está?
— Cristiano, por favor, em memória de Cássia e em respeito a Amanda, pega essa cadeira e se senta. Todos estão sofrendo, eu sei o quanto é difícil para vocês, principalmente por terem perdido tantos amigos no último ano. Mas agir assim não vai trazer cássia de volta e nem impedir que Amanda... — ela para, como se não pronunciar a palavra fosse evitar o inevitável.
— Você não sabe — João rebateu nossa psicóloga.
— Não sabe mesmo — Cristiano concorda. — Você é saudável, tem uma vida inteira pela frente. No máximo sofre com uma dor de cabeça ou uma cólica. Mas não sabe, nós — ele apontou para todos. — Nós sabemos o que cada um está passando, porque temos câncer, alguns aqui vivem com a possibilidade dele voltar. Amanda e Cássia, elas estavam em remissão e o câncer voltou, ele já levou a Cássia e vai levar a Amanda. Essa doença maldita pode levar cada um de nós, pode não ser agora, mas um dia vai levar. Você pode tentar nos compreender, ter empatia pela nossa dor e sim, pode sentir a perda de cada um, pois somos seus pacientes. Mas não sabe o que sentimos de fato. — Ele conclui, deixando Clara sem palavras. Sinto um nó na garganta, aposto que todos sentimos, mas os meninos tem razão, Clara não sabe o que sentimos.
Cristiano não volta para seu lugar após ajeitar a cadeira, ele vem até mim, com delicadeza, me faz levantar, ele me abraça. Quando percebo, todos estavam a minha volta, dando um abraço conjunto.
Quando saí da terapia, após me despedir de meus amigos. Peguei meu celular, olhei a agenda de contatos e apertei ligar.
“ Amanda?” — A voz forte de Thiago preenche meus ouvidos. “ está tudo bem filha? Aconteceu alguma coisa?”
Fiz um grande esforço para deixar a mágoa de lado e finalmente falar, afinal, fui eu quem ligou para ele.
“ Não aconteceu nada, eu, eu só queria dizer que se quiser, pode vim me visitar amanhã” — Falo antes que mude de ideia.
“ Sua mãe está te obrigando a fazer isso?” — Não o julgo, eu também pensaria o mesmo.
“ Sabe muito bem que ela não tem o poder de me obrigar a nada, te espero amanhã.” — Desligo antes que ele fale mais alguma coisa.