Estou na porta do quarto, ouvindo papai chorar desde que chegou do hospital. Mamãe seguiu atrás dele, — Cuide da sua irmã — mamãe pediu antes de fechar a porta do quarto. Susie está brincando com suas bonecas, então corri para escutar a conversa deles, não me orgulho disso mas, eu precisava saber o que estava acontecendo. Desde que vim morar com meus pais, escuto Thiago falar sobre seus filhos e o quanto sentia falta deles. Que só não se inseria na vida deles de novo porque não queria mais forçar a barra. Eu os procurei nas redes sociais e encontrei, mas foi Amanda que me chamou minha atenção, a sua paixão por Yaoi, as séries asiáticas Bl, os animes. Os cosplay que fazia e postava no i********:, eu passei a segui-la e acompanhar sua vida através das redes sociais. Sempre estranhei o fato dela ter passado a atualizar vez ou outra apenas os stories e por não postar mais nenhuma foto sua. Agora escuto papai dizer coisas que não machucam somente ele.
“ Leucemia, descobriu há dois anos e não me contaram”
“Fase terminal, não reage mais ao tratamento”
“Minha menininha, minha menininha”
Antes que mamãe saia do quarto para pegar uma bebida forte para o pai, volto para o meu quarto. Nunca pensei que a minha sugestão de fazer uma visita surpresa fosse terminar dessa maneira. Primeiro Susie escapole de nós no portão e corre para dentro da casa, o seu grito pegou todo mundo de surpresa, todos corremos para vê o que estava acontecendo. Soraya abraçava Susie que estava choramingando algo e assim que a garotinha viu Henrique correu para ele, abraçando suas pernas longas. Soraya se aproximou dele e Sussurrou algo para ele. Depois, se voltou para as visitas surpresas, era nítido que foi um erro aparecer sem avisar. Mas eu fiz a cabecinha de Susie e ela fez a do papai, eu também colaborei.
— Existe uma coisa chamada celular — a mulher falou crítica.
— Eu sinto muito, mas o que aconteceu com a minha filha? — Mamãe perguntou, a conheço o suficiente para saber que ela estava louca para ir até Susie mas a minha irmãzinha estava agarrada a Henrique que percebi o receio em se aproximar do enteado, talvez ele não reagisse bem.
— Querida — mamãe chamou Susie.
— Quer me ajudar a preparar um café para as visitas? — Henrique perguntou a garotinha. Ela assentiu sem pestanejar.
Assim que eles somem por uma porta que suponho ser a cozinha, meu pai se pronunciou.
— O que a Amanda fez a ela? — ele estava muito chateado.
— Nada, ela estava testando uma maquiagem artística e a Susie passou que nem o flash pela porta e se assustou. Agora Amanda está trancada no quarto tirando a maquiagem. — A mulher respondeu, muito irritada com a pergunta suposição errada do meu pai.
Ele ficou nitidamente envergonhado.
— Sinto muito, eu... Já faz tanto tempo e como minha menininha não abre uma brecha decidi criar uma, eu exagerei trazendo todo mundo, não foi?
— Tudo bem, podem ser sentar. Olá Susan, como tem passado? — Nossa anfitriã Perguntou e mamãe corou. Meus pais nunca contaram a história sobre como se apaixonaram, nunca nos falaram se foi antes ou depois do divórcio do meu pai. Mas pela reação dos filhos e o desconforto entre as duas mulheres, já posso imaginar o que de fato aconteceu.
— Você deve ser o Eduardo — a mulher me pega de surpresa. Não fazia ideia que ela sabia sobre minha existência. — Sinto muito por seus pais, teve muita sorte de ter Susan e Thiago como tios.
Olho para meus pais e ambos sorriem diante da minha confusão.
— Seu pai me contou sobre a adoção e eu fui uma das jornalistas que cobriram a noticia sobre o acidente de seus pais.
— E a Amanda? Será que posso conhece-la? — Pergunto como quem não quer nada.
Soraya sorri triste e n**a.
— Provavelmente ela não sai desse quarto até vocês irem embora.
Mal pude esconder minha frustração diante da notícia, o plano deu errado graças a euforia da minha maior aliada. Não demorou para Henrique aparecer com uma bandeja com biscoitos salgados e café com leite. Soraya se ofereceu para ajudá-lo, Henrique aceitou e disse que levaria Susie para conhecer Amanda.
— Posso ir junto? — pergunto sem conseguir esconder a ansiedade.
— Não — foi a resposta seca dele.
Os adultos estavam muito desconfortáveis com aquela situação inusitada e eu igualmente, buscava uma desculpa para ir atrás dos meus irmãos, porém me contive. Teria que buscar outra maneira de conhecer Amanda. Meus pais e Soraya conversavam amenidades e ficaram nisso por um tempinho, até serem interrompidos com Henrique surgindo na sala, pedindo pra ligar o carro com uma garota de cabelos rosas no colo e Susie assustada logo atrás. Daquele momento em diante, tudo desandou e o mundo desabou nas costas do meu pai, quando descobriu, ainda no hospital, sobre o câncer de Amanda. Ela teve uma parada respiratória, foi internada na UTI. Houve uma grande discussão na sala de espera entre Soraya e meu pai, acusações foram trocadas e meu pai, foi convidado a ser retirada por dois seguranças do hospital. Eu não soube o que dizer, pois eu também fui pego de surpresa, a garota por quem me apaixonei através das redes sociais, do seu sorriso doce e olhar travesso, viciada em Yaoi, está com câncer.
— Soraya prometeu que vamos conversar assim que Amanda sair da UTI. — meu pai fala ainda no carro, eu estou dirigindo pois ele não tem condições de conduzir um carro.
Agora, uma semana após todo aquele ocorrido, meu pai e sua ex tiveram a tal conversa. Parece que ele também falou com a médica. As visitas só seriam liberadas na segunda, somente a mãe e o irmão estavam autorizados a vê-la antes, não sei se meu pai também estava, mas duvidava que sim. Amanda é maior de idade e o fato dela esconder do nosso pai sua doença, mostra que sua mágoa com ele ainda é grande. Se eu ainda não consegui digerir toda essa situação da Amanda, imagina ela. Como não deve está cabeça da menina de olhar travesso? Aposto que uma grande bagunça.