Eu saí correndo tão rápido quanto a garotinha gritou, gritou porque se assustou com a minha aparência. Quando chego ao quarto, fecho a porta e me apoio nela, tentando controlar a respiração e o cansaço. Tento a todo custo me controlar para não chorar e gritar com a situação inusitada. Minha irmãzinha tem medo de mim. O pequeno esforço para não ser vista pelo resto da trupe que apareceu de surpresa na minha porta foi grande o suficiente para me causar um grande cansaço físico e mental. Olho para as perucas que há dois anos coleciono, cada uma ganhei de alguém diferente. A rosa da minha avó Raimunda, a pessoa que sempre me dá colo quando preciso, quase não a vejo e sinto muito a sua ausência, ela está gripada e como não posso correr o risco de adoecer, ela não veio essa semana nos visitar. Tia Sônia me deu a roxa, mamãe me deu a azul com estilo Joãozinho ou como chamam, de Pixie e Henrique a azul clara cintilante, com cachos longos e lindos. Sorrio, Susana é só uma criança e não tem muita noção das coisas. Tomada de uma v*****e de me apresentar a minha irmãzinha como nunca tive antes, vou até a peruca rosa clarinha, com cachos curtos e espessos.
Fiz uma produção rápida com uma make leve mas o suficiente para esconder o roxo ao redor dos olhos, um batom lipistick para esconder a rachadura dos lábios. Usei blush para dar a aparência de bochechas coradas e sadias, realmente uma boa maquiagem e as roupas certas fazem toda a diferença. Não pareço mais um zumbi careca com olheiras e arroxeados. Respiro fundo e conto até dez, repito esse procedimento diversas vezes.
— Faça isso por Henri — falo baixinho. Meu irmão amou aquela garotinha e eu quero que ela me ame assim que como eles se amaram.
Escuto uma batida na porta.
— Mana? — meu irmão me chama.
Vou até a porta e abro, dou de cara com meu irmão, ele segura uma coisinha pequena e linda pelos ombros. A menina parece envergonhada, o que o meu irmão disse a ela?
— Você caprichou — meu irmão comenta com uma piscadela.
— Susie, essa é a Amanda, sua irmã mais velha. — Ele apresenta.
A garotinha não permanece de cabeça baixa, mas estende a mãozinha em cumprimento. Me abaixo, ficando do tamanho dela.
— Oi, irmãzinha. — Falo levantando seu rosto. Os olhos dela se arregalam e ganham um brilho que quase cega.
— Você virou uma princesa! — Então ela se jogar em meus braços mas como estou fraquinha, dou derrubada no chão. Mas Susana parece não ligar.
— Desculpa por antes, mas o Henrique disse que eu fui rude e que magoei você. — Ela diz.
Meu deus, ela é tão fofinha!
Agora entendo porque meu irmão se apaixonou por ela de primeira.
— Tudo bem, digamos que você não chegou numa boa e...
Sinto como se todos os ossos houvessem sido esmagados, o peito começa a doer e o ar me faltar.
— Amanda — é tudo que escuto antes de apagar.
***
Acordo com o barulho de bipe, as luzes fortes me fazem voltar a fechar os olhos pois irritam minha retina.
— Isso garota, sabia que não ia me decepcionar — escuto uma voz dizer ao longe, seguidos de burburinhos agitados.
Não levou muito tempo para entender o que aconteceu, eu estou entubada, já aconteceu antes e isso incomoda muito. Provavelmente, minha pequena maratona até ao quarto tenha desencadeado isso.
— Querida, de 0 a 10 qual o nível de dor que está sentindo? — Não posso responder, mas já passei por isso antes. Avalio a dor e pisco sete vezes.
— Muito bem, vou te aplicar um sedativo. — Dra. Mariana avisa.
Antes de descobrir a leucemia, eu assisti vários filmes cujos personagens tinham câncer. O que mais gostei foi a culpa é das estrelas, eu me perguntava como era possível numerar a dor que estamos sentindo e se de fato faziam isso nos hospitais. Não sei nos outros, mas eu adorei esse método e os médicos e enfermeiros adotaram, comigo só perguntavam o número de dor. Ah, Hazel, se eu soubesse que fosse entender exatamente o que você passou. Tudo começa a ficar em silêncio e distante novamente, sinto a escuridão me tomar novamente.
***
Uma semana, uma semana se passou após aquele domingo fatídico. Uma semana e apenas hoje sai da UTI e fui para um quarto “normal” na ala oncológica. m*l deito na minha cama e Soraya entra seguida por Henri, ambos estavam abatidos.
— Oh, querida! Quase me matou de susto. — Se aproximando de mim.
— O que aconteceu? — Perguntei. Eu tinha uma vaga noção sobre dores nos ossos mas, tenho quase certeza que não foi só isso.
— Você teve uma parada respiratória e também estava com febre alta e uma infecção — ela faz um movimento com as mãos para deixar pra lá —, não precisamos lembrar, já passou.
— Cadê a Dra. Mariana? — Estranho o fato dela não aparecer no quarto após a minha saída da UTI.
Mamãe e meu irmão se olham, ele toma a palavra.
— Ela está falando com o Thiago, ele pediu ou melhor exigiu saber toda a sua ficha médica dos últimos dois anos.
— O quê?! — Foi a minha reação no momento.
— Você desmaiou com a Susana no seu colo, seu irmão saiu com você no colo gritando para que seu pai fosse para o carro porque tinham que chegar rápido ao hospital, você estava pelando de febre. — Mamãe explica.
— Foi uma confusão, você estava de peruca rosa e Thiago notou que estava muito magra e chegou a conclusões erradas. — Meu irmão continua.
— Que conclusão? — Pergunto com certo receio da resposta.
— Que estava envolvida com drogas. — Ele responde.
Eu franzi o cenho sem entender nada, como meu pai chegou aquela conclusão... Ah, sim, provavelmente ele se baseou pelas fotos das redes sociais.
— Não tivemos muita opção, Thiago veio com Eduardo para cá, tivemos que contar a verdade depois da acusação sem sentido de termos escondido que a folha dele era uma viciada em drogas.
Eu olhei para ambos e percebi o quanto estavam chateados com aquela situação e também preocupados com a minha reação, que, é claro, não poderia ser outra. Eu ri, na verdade, cai numa gargalhada que fez passar m*l em seguida e a enfermeira expulsou eles do quarto, dizendo que eu já havia me excedido demais.