4 - Amanda

1100 Words
Eu saí correndo tão rápido quanto a garotinha gritou, gritou porque se assustou com a minha aparência. Quando chego ao quarto, fecho a porta e me apoio nela, tentando controlar a respiração e o cansaço. Tento a todo custo me controlar para não chorar e gritar com a situação inusitada. Minha irmãzinha tem medo de mim. O pequeno esforço para não ser vista pelo resto da trupe que apareceu de surpresa na minha porta foi grande o suficiente para me causar um grande cansaço físico e mental. Olho para as perucas que há dois anos coleciono, cada uma ganhei de alguém diferente. A rosa da minha avó Raimunda, a pessoa que sempre me dá colo quando preciso, quase não a vejo e sinto muito a sua ausência, ela está gripada e como não posso correr o risco de adoecer, ela não veio essa semana nos visitar. Tia Sônia me deu a roxa, mamãe me deu a azul com estilo Joãozinho ou como chamam, de Pixie e Henrique a azul clara cintilante, com cachos longos e lindos. Sorrio, Susana é só uma criança e não tem muita noção das coisas. Tomada de uma v*****e de me apresentar a minha irmãzinha como nunca tive antes, vou até a peruca rosa clarinha, com cachos curtos e espessos. Fiz uma produção rápida com uma make leve mas o suficiente para esconder o roxo ao redor dos olhos, um batom lipistick para esconder a rachadura dos lábios. Usei blush para dar a aparência de bochechas coradas e sadias, realmente uma boa maquiagem e as roupas certas fazem toda a diferença. Não pareço mais um zumbi careca com olheiras e arroxeados. Respiro fundo e conto até dez, repito esse procedimento diversas vezes. — Faça isso por Henri — falo baixinho. Meu irmão amou aquela garotinha e eu quero que ela me ame assim que como eles se amaram. Escuto uma batida na porta. — Mana? — meu irmão me chama. Vou até a porta e abro, dou de cara com meu irmão, ele segura uma coisinha pequena e linda pelos ombros. A menina parece envergonhada, o que o meu irmão disse a ela? — Você caprichou — meu irmão comenta com uma piscadela. — Susie, essa é a Amanda, sua irmã mais velha. — Ele apresenta. A garotinha não permanece de cabeça baixa, mas estende a mãozinha em cumprimento. Me abaixo, ficando do tamanho dela. — Oi, irmãzinha. — Falo levantando seu rosto. Os olhos dela se arregalam e ganham um brilho que quase cega. — Você virou uma princesa! — Então ela se jogar em meus braços mas como estou fraquinha, dou derrubada no chão. Mas Susana parece não ligar. — Desculpa por antes, mas o Henrique disse que eu fui rude e que magoei você. — Ela diz. Meu deus, ela é tão fofinha! Agora entendo porque meu irmão se apaixonou por ela de primeira. — Tudo bem, digamos que você não chegou numa boa e... Sinto como se todos os ossos houvessem sido esmagados, o peito começa a doer e o ar me faltar. — Amanda — é tudo que escuto antes de apagar. *** Acordo com o barulho de bipe, as luzes fortes me fazem voltar a fechar os olhos pois irritam minha retina. — Isso garota, sabia que não ia me decepcionar — escuto uma voz dizer ao longe, seguidos de burburinhos agitados. Não levou muito tempo para entender o que aconteceu, eu estou entubada, já aconteceu antes e isso incomoda muito. Provavelmente, minha pequena maratona até ao quarto tenha desencadeado isso. — Querida, de 0 a 10 qual o nível de dor que está sentindo? — Não posso responder, mas já passei por isso antes. Avalio a dor e pisco sete vezes. — Muito bem, vou te aplicar um sedativo. — Dra. Mariana avisa. Antes de descobrir a leucemia, eu assisti vários filmes cujos personagens tinham câncer. O que mais gostei foi a culpa é das estrelas, eu me perguntava como era possível numerar a dor que estamos sentindo e se de fato faziam isso nos hospitais. Não sei nos outros, mas eu adorei esse método e os médicos e enfermeiros adotaram, comigo só perguntavam o número de dor. Ah, Hazel, se eu soubesse que fosse entender exatamente o que você passou. Tudo começa a ficar em silêncio e distante novamente, sinto a escuridão me tomar novamente. *** Uma semana, uma semana se passou após aquele domingo fatídico. Uma semana e apenas hoje sai da UTI e fui para um quarto “normal” na ala oncológica. m*l deito na minha cama e Soraya entra seguida por Henri, ambos estavam abatidos. — Oh, querida! Quase me matou de susto. — Se aproximando de mim. — O que aconteceu? — Perguntei. Eu tinha uma vaga noção sobre dores nos ossos mas, tenho quase certeza que não foi só isso. — Você teve uma parada respiratória e também estava com febre alta e uma infecção — ela faz um movimento com as mãos para deixar pra lá —, não precisamos lembrar, já passou. — Cadê a Dra. Mariana? — Estranho o fato dela não aparecer no quarto após a minha saída da UTI. Mamãe e meu irmão se olham, ele toma a palavra. — Ela está falando com o Thiago, ele pediu ou melhor exigiu saber toda a sua ficha médica dos últimos dois anos. — O quê?! — Foi a minha reação no momento. — Você desmaiou com a Susana no seu colo, seu irmão saiu com você no colo gritando para que seu pai fosse para o carro porque tinham que chegar rápido ao hospital, você estava pelando de febre. — Mamãe explica. — Foi uma confusão, você estava de peruca rosa e Thiago notou que estava muito magra e chegou a conclusões erradas. — Meu irmão continua. — Que conclusão? — Pergunto com certo receio da resposta. — Que estava envolvida com drogas. — Ele responde. Eu franzi o cenho sem entender nada, como meu pai chegou aquela conclusão... Ah, sim, provavelmente ele se baseou pelas fotos das redes sociais. — Não tivemos muita opção, Thiago veio com Eduardo para cá, tivemos que contar a verdade depois da acusação sem sentido de termos escondido que a folha dele era uma viciada em drogas. Eu olhei para ambos e percebi o quanto estavam chateados com aquela situação e também preocupados com a minha reação, que, é claro, não poderia ser outra. Eu ri, na verdade, cai numa gargalhada que fez passar m*l em seguida e a enfermeira expulsou eles do quarto, dizendo que eu já havia me excedido demais.
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