3 - Amanda

1099 Words
Sábado a noite e como estou? Passando m*l pra c****e por ter ingerindo comida que não devia. Soraya está ao telefone com a Dra. Mariana, além da diarreia, também estou com calafrios e febre alta. Digamos que minha saída clandestina possa ter sido a causa já que meu sistema imunológico está muito baixo. Meu medo é ser internada novamente. Sempre que acontece, mamãe ou Henrique precisam pedi licença no trabalho. Não suportam a ideia de me deixar no hospital sozinha, contudo, isso bagunça toda a vida deles. Meu irmão já passou por cinco empregos nós últimos dois anos, sua vida tem girado em torno de mim, trancou a faculdade e agora alterna entre um emprego de meio período pela manhã e outro a noite, como faxineiro numa fábrica. Mamãe é jornalista, tem uma coluna diária num jornal local. Ela pode escrever sobre tudo e tem a flexibilidade de trabalhar em casa, ela alterna entre ir trabalhar no jornal e trabalhar em casa. Papai é gerente de banco, recebe muito bem e entendo o porquê meu irmão recorreu a ele, enquanto o nosso dinheiro falta, o dele sobra. Todos os meses ele mandava o dinheiro da pensão, até completarmos 18 anos. Ambos abrimos mão mesmo que já estivesse com câncer, seguir o exemplo do meu irmão, e o fiz, mamãe não nos questionou apesar de precisarmos do dinheiro na época e ainda precisar. De fato, fomos muito egoístas. Aquele dinheiro iria bem a calhar agora. — Sim, claro. Vou aguardar para vê como ela reage a medicação. — Soraya fala ao entrar no quarto. —Sim, sim. Iremos se a febre não passar. Ela desligou o celular e ficou parada, me olhando com aquela cara de que “sei que você aprontou”. — Eu só comi batata frita — menti na cara dura, me julguem. — A vizinha falou que a viu saindo ontem de carro. — Mais que vizinha sem ter mais o que fazer. Dona Lourdes bem que poderia cuidar da própria vida. Mamãe sentou na beira da cama, se inclinou para pegar o termômetro que está debaixo da minha axila. O balançou e ficou olhando séria, até que finalmente deu um suspiro aliviado. — 38, a febre finalmente começou a ceder. — Ela olhou para mim e me senti culpada. Eu sei que já sou bem grandinha mas eu, às vezes, preciso de fato respirar um pouco além da bolha que mamãe e meu irmão criaram. — Sinto muito — digo envergonhada. — Eu também sinto, mas eu te imploro que não saia mais sozinha. Lembra que você já desmaiou na rua e não quero que isso volte a se repetir, por favor. — Ela pede e assinto. Soraya se levanta e começa a arrumar minha coberta, de modo que o lençol não desprenda quando eu me mexer. A observo enquanto faz isso, mamãe é uma mulher linda, cabelo castanho escuro comprido que está sempre preso em um coque devido ao calor que ela sente, parda, estatura mediana, cintura fina e quadris largos. Desde que descobrimos a leucemia, ela envelheceu 10 anos em 2, não consigo deixar de pensar o quanto a minha morte vai afeta-la, uma mãe jamais deveria enterrar seu filho, deveria ser ao contrário, o filho deveria enterrar os pais que morreram de velhice. — Mãe, eu te amo e obrigada por todos esses anos que sempre cuidou de mim, especialmente os dois últimos. — Falo, sentindo que era o que deveria fazer. — Eu também te amo — ela sorriu. — Mas não deveria falar como se fosse morrer. — Pede. — Mas eu vou, não acha que está na hora de aceitar que sua menininha vai partir para sempre? — Perguntei, pois para eu aceitar meu destino eu precisava que minha família também aceitasse, talvez assim fosse menos difícil após a minha partida. — Não meu amor, você não vai. Não enquanto eu viver e tiver forças para lutar para mantê-la viva. Na segunda veremos outro médico especialista e assim o faremos até ter uma resposta positiva. Sinto meu peito apertar ao ouvir aquilo de novo, se depender dela, serei espetada, furada, cortada, tudo para me manter viva. Eu não queria mais aquilo, mas como dizer a mulher que tem feito de tudo por mim que não quero mais continuar nessa vida de sofrimento, entre idas e mais idas ao hospital que tem se tornado uma constante? — Mãe, por favor, precisa me ouvir... — Boa noite, querida — ela se levantou, ignorando por completo minha tentativa de conversa. — Amanhã vou preparar uma comida gostosa e vamos assistir a uns filmes, nós três. — Soraya beijou minha testa e saiu em seguida do quarto. *** Eu ainda sentia o corpo mole, mas já estava sem febre e a diarreia diminuiu. Mamãe e Henri não permitiram que eu os ajudasse na cozinha. Eles me deixaram sair da cama e ficar no sofá da sala, com uma coberta sobre as pernas lendo mangá no celular. Os dois conversavam baixinho na cozinha, provavelmente, estão falando sobre como foi o dia ontem na casa de Thiago. Meu irmão não me contou como foi o almoço que se estendeu pela tarde, quando ele chegou eu já estava passando m*l, com mamãe cuidando para que eu não piorasse. Ele correu para ajuda-la e agora, pela manhã, quando perguntei como foi o almoço, Henri disse: — Sobrevivi. E quando perguntei sobre a garotinha, ele sorriu encantado e disse: — Ela me lembra você. Isso me chamou a atenção, o carinho com o qual falou de Susana, do sorriso que se estampou em seu rosto a simples menção daquela garotinha. Aquilo me deu esperança, ela poderia ser a cura para o meu irmão após a minha partida e talvez, só talvez, ela também pudesse ser para Soraya, se Thiago e a mulher, assim permitissem. Ainda com esse pensamento meio maluquinho, escuto a campainha tocar. Estranho, mamãe não avisou que teríamos visita hoje então estou toda largada. Sem nem um lenço na cabeça e muito menos sem uma maquiagem básica. Vejo Henri sair que nem um furacão da cozinha e mamãe vindo até mim. — Vamos querida, precisa ir para o seu quarto agora. — Ela diz agoniada. — Porquê? — Perguntei sem entender nada. — Porque seu pai e seus irmãos estão no portão. — Avisa. Só que antes que eu consiga chegar ao corredor do meu quarto, vejo um pequeno vulto passar entrar pela porta e parar diante de mim. Vejo seus olhos cheios de vida m, se arregalarem, assustados e então, ela grita. — ZUMBIII!
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