Cartas pesadas

1004 Words
NARRAÇÃO DE JHONNY... Voltei para o casarão da fazenda, onde os três me aguardavam ansiosos. — Esperem aqui. Alexander, venha comigo. Quero falar com o irmão da Lilly. Quero ouvir o lado dele nessa história, pegar as cartas e descobrir os nomes. — Vou! Preciso saber em qual quarto de hóspedes o irmão dela está. — Resolva isso e traga-o até mim. — Vou agora! — Alexander entrou no casarão às pressas, em meio a risadas, ansioso para participar daquela missão. Aproveitei para acender um cigarro. De longe, observei o estábulo. Eu sabia que era apenas questão de tempo até Maxine admitir aquilo que muitos já desconfiavam: ela havia sido molestada. Ela pode tentar esconder qual mafioso fez isso, mas não descansarei até colocar as mãos naquele canalha. Poucos minutos depois, Alexander voltou com Rodrigo, o irmão de Lilly. Apesar do sono estampado no rosto, ele demonstrou tensão ao parar diante de mim. — Bom dia. Meu nome é Jhonny. — Ouvi falar do senhor... — Certo. Quero que me diga o nome dos rapazes que o perseguem. Rodrigo abaixou a cabeça, amedrontado. — São quatro. Dois deles são irmãos. — Você vai conosco. Quero pegar as cartas. — Tenho medo. São filhos de gente poderosa... Sorri e ergui discretamente a camisa, mostrando meu revólver prateado. — Isto é poderoso. Não se preocupe. Apenas me diga os nomes. — Certo... — respondeu, tenso. Após aquela breve conversa, apressei todos. Quero voltar ainda hoje. Preciso conversar com minha irmã. Amanda é uma pessoa extraordinária para ajudar meninas quebradas. Quem conhece sua história sabe que um dia ela também foi destruída. A justiça corre em minhas veias por causa de tudo o que vivemos. Fui assediado aos onze anos. Arrancaram minha irmã de mim quando ela tinha dezessete anos e a machucaram. Por isso, carrego o desejo de proteger todos que passam por situações semelhantes. Durante a viagem, no avião particular, permaneci calado na poltrona de trás, observando todos como de costume. Gabriel e Alexander discutiam, mas, ainda assim, permaneciam sentados um ao lado do outro. Nicolás riu ao sentar-se ao meu lado. — Eles nunca se cansam? Ergui as sobrancelhas ao ver Alexander se defender, afirmando que não havia tirado foto de Gabriel dormindo pelado. Gabriel acreditava piamente naquilo. Mas, pelo modo como Alexander escondia o celular, estava evidente que ele tinha feito exatamente o que Gabriel suspeitava. — Não... ele não se cansa. — respondi. Nicolás pigarreou, cobrindo a boca com a mão em um gesto disfarçado, e olhou para Rodrigo, que permanecia isolado na poltrona mais distante do avião. — E ele? É calado como Lilly. — Lilly carrega traumas. Esse rapaz está oprimido. Quando o deixarem em paz, voltará a ser quem realmente é. Respirei fundo antes de continuar. — Com minha filha foi assim. Ela começou a se isolar. Só queria ficar trancada no quarto, escrevendo. Depois que resolvemos o problema, ela voltou a ser a filha de quem eu tanto sentia falta. Voltou a viver. — Entendi. — Nicolás, preciso da sua ajuda. Quando voltarmos à fazenda, quero conversar com minha irmã. Sei que Amanda ainda evita se aproximar de Maxine, porque, no passado, ela tentou atirar em sua direção. E, sendo Amanda sua esposa, entendo sua posição. Mas Maxine admitiu que foi molestada e está traumatizada. Ajustei-me na poltrona. — Vou ajudá-la a extravasar o que sente, treinando e descontando a raiva em exercícios intensos. Mas, além disso, ela precisa de alguém capaz de aconselhá-la e ajudá-la a reorganizar a mente. Ela precisa de equilíbrio emocional e físico. — Vou ajudar. Conversarei com Amanda. Sorri em agradecimento. Mas Gabriel interrompeu, sentando-se entre nós dois. — Olha, estou com vontade de deixar Alexander em São Paulo. Parar o carro no meio da Avenida Paulista, empurrá-lo para fora e voltar para a fazenda dizendo que não o vimos mais. Ele não conhece nada da cidade. Vai virar morador de rua com facilidade. Caímos na risada. — Ele fala isso, mas não conseguiria. Gabriel voltaria no mesmo segundo para procurar o afilhado. — Nicolás comentou. Concordei, ainda rindo. Gabriel então apontou para frente. — Olhem lá... já vai tirar a paz do garoto. Alexander havia deixado seu lugar e agora se sentava ao lado de Rodrigo. — Deixe-o conhecer o cunhado. — defendi. Como ainda faltavam alguns minutos de voo, acomodei-me melhor na poltrona. Fechei os olhos e adormeci rapidamente. Sonho. Flashs. Drogaram a neta do Chefe Maurício. Duas garotas carregavam Alice, ainda adolescente, com a intenção de machucá-la. Eu era o segurança. Minha primeira missão. Minha obrigação era protegê-la. Atirei para o alto. Elas soltaram Alice. Acordei com Gabriel me sacudindo. — Já pousamos. Anda, levanta logo! Nicolás, Alexander e Rodrigo já saíram. Assenti, esfregando as mãos no rosto. Caralho. Ler aquele diário me fez voltar ao passado com tanta intensidade que minhas memórias já invadiam até meus sonhos. Segui Gabriel enquanto despertava de vez. Rodrigo passou o endereço de sua casa para Alexander, e lá fomos nós resolver o primeiro problema. Chegamos ao local. Não mentiram quando disseram que a família tinha ótimas condições financeiras. Moravam em um condomínio fechado de luxo. Apenas a elite vivia ali. Rodrigo caminhava ao meu lado, apreensivo. — Os irmãos também moram neste condomínio. Fingem simpatia com meus pais porque sabem que eu nunca tive coragem de denunciá-los. São covardes. — Nós vamos pegá-los. Só quero ver o teor das cartas que enviaram a você. Assim fizemos. Ao chegarmos, segui Rodrigo até seu quarto, enquanto os demais aguardavam na sala. Ele suspirou e ergueu o colchão da cama. Mais de vinte cartas. Fechei os olhos e franzi o cenho. — Eles não param. E estão piorando. Abri os olhos e peguei a primeira carta. Havia um desenho de Rodrigo com uma arma apontada para a própria cabeça. "Faça sua família feliz e se mate." Amassei o papel, sentindo os punhos tremerem. — Vamos visitar os irmãos que moram neste condomínio? Rodrigo assentiu, ainda amedrontado. — Pegue todas as cartas! — ordenei, saindo do quarto.
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