A dor não vai cessar

1271 Words
NARRAÇÃO DE JHONNY... Cheguei à casa da minha irmã e, antes mesmo de bater na porta, ela abriu como se já estivesse me esperando, pelo olhar carregado de preocupação. Compreendi que Nicolás já havia falado da situação de Maxine. — Entre, irmão. — Amanda pediu, abrindo mais a porta. Entrei na casa. Nicolás estava no sofá e franziu os lábios. Amanda esfregou as mãos no rosto, irritada. — Essas garotas não deveriam passar por isso! Quem tocou nela?! — Amanda olhou para mim com os olhos inundados. — Ela não tem coragem de falar. Tem medo de um confronto. — Mas isso é um absurdo, Jhonny! Isso não pode ficar impune!! — Amanda esbravejou, colocando toda sua raiva para fora. — É por isso que preciso da sua ajuda. Chame a garota, converse com ela. Essa parte eu não sei fazer. Sei instruir nos treinamentos, mas estou longe de ser um psicólogo. Não tenho paciência para ficar implorando para fazê-la falar quem a tocou. Perco a paciência e fico tentado a torturar apenas para fazê-la assumir quem fez isso, mas não estou aqui para torturar Maxine. Então seja a psicóloga dela, conselheira, amiga, sei lá! Mas tire informações dessa garota. Faça ela ter confiança em você! — Eu não sou psicóloga. — Ajudou Bianca, não ajudou? — Mas quem deu o maior passo para a cura dela foi Noah, com seu amor e amizade. Eu não sei se posso fazer isso. Além do mais, ela sabe que eu não queria aproximação por saber que ela quase atirou no meu marido. — Nicolás está bem, respirando e sentado no sofá, bem atrás de você. Ela disse que se arrepende do que fez. Na época, a conselheira afirmou que a nossa máfia estava matando todos eles e entregou a arma, dizendo que iriam entrar na prisão para matá-la. Maxine apenas atirou sem saber quem estava entrando na prisão. Acho que, se eu estivesse no lugar dela, faria o mesmo. Foi instinto de sobrevivência. — Ainda assim, Jhonny... eu não sei se consigo. — Apenas tente! — Jhonny... — Amanda suspirou em negação. Nicolás levantou e tocou em seu ombro. — Ela vai ajudar, não vai, meu amor? — Nicolás sorriu com gentileza para Amanda. Por fim, Amanda descruzou os braços, relaxando os ombros, rendida. — Tudo bem, vou tentar conversar com ela e convencê-la a falar quem a tocou. — Obrigado. — Sorri. Nicolás arqueou as sobrancelhas animado. Já sei o que ele vai sugerir. — Bora?! Partiu pub?! Depois dessa viagem precisamos beber. — E Gabriel? — Perguntei. — Deve ir. Ele está puto com Alexander, vai beber para reclamar. Ri. Animei. Confesso que fico contando os minutos para anoitecer apenas para beber no pub e rir um pouco. Certifiquei-me de mandar uma mensagem para Gabriel avisando onde estaríamos. Ele é um tanto dramático, ciumento e odeia se sentir excluído. Como previsto, respondeu com um emoji de dedo do meio com uma cerveja ao lado. Sempre manda isso para falar que também vai. Chegando lá, escolhemos uma mesa no fundo do pub e ficamos bebendo enquanto aguardávamos Gabriel. Notei Árya e Maxine entrando no pub. Sorri animado, pedi até mesmo uma dose de tequila! Mas meu sorriso sumiu quando Maxine fugiu do pub, justamente no momento em que ela e minha filha estavam começando a se dar bem. Logo depois entendi o motivo. Os rapazes entraram no pub: Davi, Alexander e Thiago?! Ela já chegou?! — Aquele é o Thiago?! — Perguntei em choque. Nicolás riu, confirmando. — Sim. Ele está forte pra caramba! — Eu me lembro dele magrinho, parecia um graveto. — Falei rindo. Observei Alexander chamá-lo para virar doses de tequila. Alexander não muda. Ele virou uma dose com Alexander e, logo em seguida, olhou em nossa direção. Abriu um sorriso largo ao nos notar. Apressou seus passos, empolgado. — Tio Nicolás! Tio Jhonny! Quanto tempo! — Ele falou completamente eufórico. Levantei aos risos. Acho que a última vez em que o vi foi quando ele tinha uns quinze anos. Ele me abraçou, levantando-me do chão. Está muito forte, quase inacreditável. A maturidade caiu bem nele, é um rapaz muito bonito. — Como foi a viagem? — Nicolás perguntou animado. Thiago o abraçou entre risos. — Bem, tranquila. Estava precisando do calor do Brasil. Nessa época está muito frio na Alemanha. — Thiago, eu soube da sua situação com seu p... — Vamos brindar?! Estou feliz em vê-los. — Ele falou, cortando Nicolás e deixando claro não querer entrar naquele assunto delicado. Gabriel finalmente apareceu no pub e nos procurou com os olhos até nos encontrar. Ele uniu as sobrancelhas ao ver Thiago de costas. Aproximou-se ignorando Alexander, que o chamava. — Mas que p***a aconteceu com você?! — Gabriel perguntou em choque, olhando Thiago. Ele riu e se virou para Gabriel. — Exercícios, alimentação saudável. — Ele parece com a p***a do Capitão América. Não a cara, mas naquela cena quando ele entra na cápsula todo seco e sai todo forte. A última vez em que te vi, você pesava cinquenta quilos e parece que foi ontem. Aí, do nada, está assim. — Não é do nada... Treze anos depois. — Thiago falou aos risos. Nos divertimos ao ver a reação de Gabriel. Após aquele encontro, relaxamos e ficamos conversando por algumas horas. Mas me despedi querendo passar o resto da noite com minha mulher. Acho que passei da hora, pois cheguei em casa e Jade já dormia. O silêncio da casa era convidativo para pegar meu diário. Peguei-o atrás da almofada do sofá e caminhei até a varanda do fundo da casa. Sentei próximo à churrasqueira e abri o diário. 23 de janeiro de 2001 "Querido diário... Drogä, me sinto tão estranho escrevendo 'Querido diário'. Mas preciso parecer mais profissional. Hoje senti vontade de escrever como foi a minha primeira tortura. Eu tinha dezesseis anos. Lá estava eu trabalhando na fazenda como um capanga qualquer. Mas parei de ajudar os capangas a ampliar o estábulo quando vi o carro do Chefe Maurício entrar acelerado na fazenda. Ele estava furioso. Saiu do carro com os seguranças e puxou um prisioneiro pelo pescoço. Aproximei-me preocupado. Nunca vi o Chefe Maurício tão irritado. Ele jogou o prisioneiro no chão, com os braços amarrados, e o chutou diversas vezes com lágrimas nos olhos. — O que aconteceu? — Perguntei assustado. — Lembra daquela reportagem?! Da garota que voltava da escola e desapareceu?! Depois de alguns dias encontraram o corpo dela?! Esse é o cara que tirou a vida da menina inocente!!! Chefe Maurício o chutou com mais força. Encarei aquele homem chorando, implorando para parar. — Me deixe a sós na casa da tortura com ele, por favor. Chefe Maurício sabia que eu estava preparado. Naquele dia foi a primeira vez em que conheci os órgãos internos. Foi a primeira vez em que abri um corpo lentamente ouvindo seus gritos. E sabe de uma coisa? Foi prazeroso ouvir seus gritos. A justiça foi feita. O sangue da menina gritava por justiça. Agora agradece, agora ela pode descansar em paz." Fechei o diário suspirando. Um nó na garganta sobreveio em mim. Normalmente vingo e defendo pessoas vivas que passaram pelo pior. Mas vingar alguém que já partiu, uma menina que não teve a chance de crescer e voltar para os pais... Isso é pior. Parece que nunca é o bastante. A dor dos pais não vai cessar, ela não vai crescer e nada vai mudar. Decidi guardar o diário dentro do guarda-roupa e deitei com Jade. Abracei seu corpo sentindo aquele vazio após ler aquilo. Acho que não deveria ter lido isso.
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