Há mulheres que chegam sem aviso e vão embora sem deixar rastro. Lívia Andrade não era dessas.
Lívia chegava como quem não ia ficar. E ficava. Chegava como quem não queria nada. E queria tudo. Chegava desenhando, distraída, indiferente - e depois ia embora deixando atrás de si uma fissura no ar, uma perturbação na luz, um silêncio que não existia antes dela.
Elias Moretti descobriu isso na quarta-feira.
Passou a terça inteira tentando esquecer. Rezou a missa das seis, a missa das dez, atendeu três confissões, almoçou com Dom Augusto, assinou papéis, organizou o acervo. Fez tudo que um padre deve fazer. Fez com a precisão de um homem que conhece seus deveres. Mas em cada intervalo - entre uma oração e outra, entre um papel e outro - havia um rosto. Um caderno. Uma frase.
Desenhar é só o que sobra.
Ele não sabia o nome dela.
Na quarta-feira, descobriu.
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Foi Tomás quem contou.
O seminarista apareceu na sacristia no fim da tarde, os olhos brilhando daquele jeito que Elias conhecia bem - o jeito de quem tem uma novidade e não sabe se pode contar. Tomás tinha vinte e seis anos e a alma de um menino. Tudo nele era excessivo: a fé, a dúvida, a admiração, o medo. Ele olhava para Elias como quem olha para um irmão mais velho que sabe todas as respostas. E Elias, que não sabia resposta nenhuma, deixava.
- Padre - disse Tomás, fechando a porta atrás de si. - A senhora do jardim.
Elias não levantou os olhos do livro que fingia ler.
- Que senhora?
- A que estava desenhando ontem. A que a Helena comentou.
Elias virou a página. Sem pressa. Sem interesse. O coração, porém, batia mais rápido do que o normal, e ele odiou o próprio coração por isso.
- E?
- Ela voltou.
A mão de Elias parou no ar. Um segundo. Dois. Depois continuou virando a página, como se nada fosse.
- Voltou - repetiu ele.
- Está no jardim agora. Desenhando de novo. A Helena está furiosa.
- A Helena está sempre furiosa.
- Não assim.
Elias finalmente levantou os olhos. Tomás estava parado no meio da sacristia, as mãos cruzadas à frente do corpo, o rosto vermelho. Havia algo de aflito naquele rosto. Algo de menino que viu algo que não deveria.
- O que foi? - perguntou Elias. A voz saiu mais dura do que pretendia.
- A senhora - disse Tomás, hesitando. - Ela perguntou por você.
O silêncio que se seguiu foi longo. Longo o suficiente para que Elias sentisse o peso de cada segundo. Longo o suficiente para que Tomás percebesse que havia dito algo perigoso.
- Perguntou o quê? - disse Elias, por fim.
- Perguntou se o padre da catedral era você. Se você era o responsável pelo acervo. Se você dava aulas, se recebia visitas, se... - Tomás parou. Engoliu. - Se você estava sempre ali.
Elias fechou o livro. Devagar. Com cuidado. Como se o livro fosse feito de vidro.
- E o que você respondeu?
- Que sim. Que você é o padre. Que o acervo é seu. Que você está sempre ali.
Elias se levantou. Passou por Tomás sem tocá-lo. Abriu a porta da sacristia, atravessou o corredor de pedra, e parou na janela que dava para o jardim.
Ela estava lá.
Sentada no mesmo banco de ferro. O mesmo caderno aberto sobre os joelhos. O mesmo lápis entre os dedos. Mas não estava desenhando a figueira desta vez. Estava desenhando a janela. A janela pela qual ele a observava.
Elias recuou.
Tarde demais.
Lívia ergueu os olhos. Encontrou os dele através do vidro. E sorriu - um sorriso pequeno, lento, que não era de quem se surpreende, mas de quem confirma uma suspeita. Ela sabia que ele estava ali. Ela sabia que ele a observava. E desenhou a janela de propósito.
Ele virou-se e voltou para a sacristia.
Tomás ainda estava parado no mesmo lugar, as mãos cruzadas, o rosto vermelho.
- Padre - disse ele, baixinho. - Ela disse que volta amanhã.
Elias não respondeu.
Fechou-se no arquivo.
E passou a noite inteira acordado.
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Naquela noite, Helena Duarte não dormiu.
Ficou sentada na cama, as mãos sobre o colo, os olhos abertos no escuro. Não rezava. Não chorava. Apenas olhava para a parede, para o crucifixo que pendia sobre a cabeceira, para a sombra que ele projetava no teto.
Havia uma mulher no jardim.
Havia uma mulher no jardim que voltava, que perguntava, que desenhava janelas. Havia uma mulher que olhava para Elias como Helena nunca havia olhado - e Elias, que nunca olhava para ninguém, olhava para ela.
Helena conhecia Elias há dez anos. Havia ensinado a ele os rituais da catedral, as leituras, as palavras certas. Havia estado ao lado dele em cada missa, em cada procissão, em cada noite de vigília. Havia amado aquele homem em silêncio por uma década - um amor que nunca confessou, nem a si mesma, porque confessar seria admitir que havia algo a confessar.
E agora havia uma mulher.
Uma menina. Vinte e um anos. Um caderno de desenhos. Nenhuma fé.
Helena fechou os olhos.
Sentiu o corpo quente. A testa ardendo. O estômago embrulhado. Havia três dias que não comia direito, que não dormia, que sentia uma febre que não vinha de doença nenhuma. Vinha de dentro. Vinha daquele lugar onde o amor não correspondido apodrece.
Ela sabia o nome daquilo.
Ciúme.
E sabia que ciúme, quando não tratado, mata.
Não mata o outro.
Mata quem sente.
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Na quinta-feira, Lívia voltou.
E na sexta.
E no sábado.
Elias não foi ao jardim. Ficou no arquivo, no escritório, na capela principal, em qualquer lugar onde ela não estivesse. Rezou. Trabalhou. Atendeu fiéis. Fez tudo que um padre deve fazer. Mas sabia - com a certeza de quem conhece o próprio inferno - que ela estava lá. Do outro lado do muro. Sentada no banco de ferro. Desenhando.
E sabia também que ela sabia que ele sabia.
No sábado à noite, quando a catedral se esvaziou, Elias atravessou o corredor de pedra e parou na janela que dava para o jardim.
Ela não estava lá.
O banco estava vazio. A figueira balançava ao vento. A fonte seca continuava seca. Mas sobre o banco, dobrado com cuidado, havia um papel.
Elias abriu a porta. Atravessou o jardim. Pegou o papel.
Era um desenho.
A capela fechada. A porta de madeira escura. O vitral redondo acima dela. Mas desta vez havia algo diferente: a porta estava entreaberta. Uma fresta de luz escapava por ela. E dentro da fresta, desenhado com a precisão de quem viu de perto, havia um olho.
Um olho que olhava.
Elias virou o papel.
No verso, na letra dela, havia uma frase:
"Por que você tem medo de me mostrar o que está lá dentro?"
Ele fechou os olhos.
Do outro lado do muro, na sacristia, Helena apagou a vela.
E naquela noite, pela primeira vez em dez anos, Elias Moretti não rezou.
Ficou sentado no chão do arquivo, o desenho nas mãos, olhando para a parede.
E pensou - não em Deus, não no d***o, não na fé - pensou nela.
Na porta que ela queria abrir.
Na capela que ele mantinha fechada.
E na coisa que ele sabia que estava lá dentro.
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Fim do Capítulo Dois.