O jardim
Havia um jardim que ninguém visitava.
Ficava atrás da Catedral de Santa Cecília, escondido entre a sacristia e o muro de pedra que separava o sagrado do mundo. Não era grande. Cabia numa respiração. Mas tinha uma fonte seca no centro, duas figueiras antigas que entrelaçavam seus galhos como amantes cansados, e um banco de ferro fundido tão velho que a tinta descascava em lascas escuras, como feridas que não cicatrizam.
O jardim não era secreto. Ninguém o proibia. Simplesmente ninguém se lembrava de que ele existia.
Talvez por isso Lívia o tivesse encontrado. Ou talvez o jardim a tivesse encontrado — porque há lugares que escolhem suas pessoas, do mesmo modo que há pessoas que escolhem seus pecados. Ela tinha vinte e um anos, um caderno de desenhos debaixo do braço e nenhuma fé. Nenhuma. Nunca havia rezado, nunca havia pedido, nunca havia acreditado. Mas acreditava em vitrais. Acreditava na luz que atravessava o vidro azul e se derramava no chão de mármore como sangue celestial. Acreditava na geometria das cúpulas, na paciência dos arcos, no silêncio das naves quando o órgão se calava.
Acreditava na beleza. E a beleza, para ela, era uma forma de oração que não exigia destinatário.
Naquela manhã de terça-feira — uma manhã de outubro que amanhecia fria e dourada — Lívia estava sentada no banco de ferro, o caderno aberto sobre os joelhos, o lápis entre os dedos, desenhando a figueira mais velha. Não a figueira inteira. Apenas o galho que se curvava sobre a fonte seca, como um braço que tenta alcançar algo que já não existe.
Ela não ouviu os passos.
Ou ouviu, mas não deu importância. Passos em catedrais são comuns. Padres, sacristãos, fiéis, turistas — todos caminham como se o chão fosse sagrado, e talvez seja, e talvez por isso pisem mais leve. Mas aqueles passos não eram de turista. Não eram de fiel. Eram passos que conheciam cada pedra daquele caminho, cada rachadura, cada desnível. Passos que pertenciam ali.
Lívia ergueu os olhos.
O padre parou a três metros dela.
---
Havia algo de errado com ele.
Não na aparência — a aparência era exata. Batina preta, colarinho romano, cabelo escuro penteado para trás, barba feita naquela mesma manhã. Tinha o rosto de quem foi bonito na juventude e envelheceu sem perder a beleza, apenas ganhando camadas: linhas nos cantos dos olhos, um vinco entre as sobrancelhas que sugeria pensamentos que não se dissipavam, uma boca que parecia feita para sorrir mas havia esquecido como.
Não. O errado não estava na aparência.
Estava nos olhos.
Ele olhava para Lívia como quem reconhece alguém. Não como quem encontra uma estranha num jardim esquecido — mas como quem encontra uma pessoa que já conhecia, que já esperava, que já temia. Havia espanto naqueles olhos. Havia fome. Havia uma coisa mais funda, mais antiga, que Lívia não soube nomear.
Ela sustentou o olhar.
Ele desviou primeiro.
— Desculpe — disse ele. A voz era grave, mas havia nela uma hesitação, como se cada palavra precisasse de permissão para sair. — Não sabia que havia alguém aqui.
— Ninguém sabe — respondeu Lívia. — É por isso que eu venho.
O padre não respondeu. Olhou para o caderno aberto sobre os joelhos dela, para o desenho inacabado da figueira, para o lápis entre os dedos. Depois olhou para o rosto dela de novo — e Lívia viu algo se mover atrás daqueles olhos, algo que ele imediatamente enterrou.
— Você desenha — disse ele. Não era pergunta.
— Eu vejo — corrigiu ela. — Desenhar é só o que sobra.
Ele inclinou a cabeça, levemente. Como se aquela frase o tivesse atingido em algum lugar que ele mantinha trancado.
— Posso ver? — perguntou.
Lívia estendeu o caderno sem dizer nada. Ele se aproximou — dois passos, não mais que isso — e pegou o caderno com cuidado, como se fosse um objeto litúrgico. Folheou devagar. Os vitrais da nave principal. A cúpula. O altar-mor. Os anjos de gesso que sustentavam o coro. As mãos de uma santa que ela havia desenhado de memória, porque as mãos reais estavam gastas pelo tempo.
Ele parou numa página.
— Isso — disse ele. — Onde você viu isso?
Era o desenho de uma capela. Pequena, lateral, com uma porta de madeira escura e um vitral redondo acima dela. Lívia havia desenhado de memória também — ou de sonho. Não sabia dizer. Havia encontrado aquela imagem em algum lugar entre o sono e a vigília, e a havia registrado antes que se dissolvesse.
— Em nenhum lugar — respondeu ela. — Por quê?
O padre não respondeu. Fechou o caderno. Devolveu-o. E quando seus dedos tocaram os dedos de Lívia — por um segundo, apenas um segundo — ela sentiu um calor que não vinha do sol.
— Essa capela existe — disse ele, por fim. — Está fechada há quarenta anos.
Lívia olhou para o desenho. Depois para ele.
— Por quê?
Ele sustentou o olhar dela por um instante mais longo do que deveria. E naquele instante, Lívia viu algo que não esperava: medo. Não medo dela. Medo de si mesmo. Medo do que estava prestes a dizer. Medo do que já havia dito, sem dizer.
— Porque algumas portas — respondeu ele — só se abrem para quem não deveria entrar.
---
Ele foi embora sem se despedir.
Lívia ficou sentada no banco de ferro, o caderno fechado sobre os joelhos, o coração batendo num ritmo que não era o dela. Olhou para a figueira. Olhou para a fonte seca. Olhou para a porta pela qual ele havia desaparecido.
E pensou, sem querer pensar, que havia algo naquele homem que pedia para ser desenhado.
Não o rosto. O rosto era bonito, mas bonito era pouco. O que pedia para ser desenhado era o que havia atrás: a fissura, o peso, a coisa trancada. A capela fechada dentro dele.
Ela abriu o caderno numa página nova.
E começou.
---
Do outro lado do muro, na sacristia, o padre Elias Moretti fechou a porta atrás de si e encostou-se nela. Fechou os olhos. Respirou fundo. Rezou — não com palavras, porque as palavras não vinham, mas com o corpo, com o silêncio, com a mão fechada contra o peito.
Havia uma mulher no jardim.
Havia uma mulher no jardim que desenhava capelas fechadas e olhava para ele como se o visse.
E Elias sabia — com a certeza que só os condenados têm — que aquilo era o começo de algo que ele não teria forças para terminar.
Do lado de fora, o sol continuava dourado.
Do lado de dentro, algo escurecia.
---
Helena Duarte estava na porta da sacristia quando ele se virou.
Quarenta e oito anos. Cabelo preso num coque apertado. Mãos secas, veias salientes, unhas curtas. Olhos que viam tudo e não diziam nada. Estava ali há quanto tempo? Elias não sabia. Helena sempre estava ali. Fazia vinte anos que estava ali.
— Quem era? — perguntou ela.
A voz era neutra. Mas os olhos — os olhos não eram.
— Ninguém — respondeu Elias. — Uma desenhista. Estava no jardim.
— O jardim está fechado.
— Não está.
— Deveria estar.
Elias olhou para ela. Havia algo naquela frase que não era sobre o jardim. Havia algo naquele olhar que não era sobre a desenhista.
— Helena — disse ele, com a paciência de quem repete uma lição antiga —, o jardim é da catedral. Qualquer um pode entrar.
— Qualquer um não — disse ela. — Ela.
E virou-se, e entrou na sacristia, e começou a dobrar as vestes litúrgicas com uma precisão que beirava a violência.
Elias ficou parado na porta.
Do lado de fora, no jardim, Lívia desenhava.
Do lado de dentro, na sacristia, Helena dobrava.
E entre os dois, no corredor de pedra que ligava um ao outro, Elias Moretti sentiu pela primeira vez o peso da coisa que o esperava.
Não era Deus.
Não era o d***o.
Era ela.
---
Fim do Capítulo Um.