Capítulo 07

4964 Words
― Por que você simplesmente não se casou com ela e deixou-me livre? ― berrou Elisie entrando no escritório como fazia em Margoth, Dixon que enchia o frasco de tinta derrubou o líquido preto e pegajoso em cima de um documento, sobressaltado, ninguém nunca invadiu o seu escritório daquela maneira, exclamou atordoado sentindo o coração doer: ― Pelos deuses! O que deu em você? ― O que deu em mim? Eu é que pergunto o que deu em você. Por que tem uma concubina? Nem sequer consumou o nosso casamento, e agora tem uma concubina? ― as bochechas de Elisie estavam rubras de vergonha e raiva. Dixon limpou as mãos sujas com um lenço e levantou-se tranquilo como sempre. ― Eu a trouxe do bordel. ― E ainda por cima é uma mulher da vida. Você não tem moral. ― Ela viu Gomon. ― Elisie que tinha se aproximado da enorme janela se virou pálida. ― Ela o viu? E por que você não a matou?― as palavras saíram sem ela poder se da conta da frieza delas. Ele dobrou os braços e curvou os lábios se lembrando do motivo e disse com a sua voz desinteressada de sempre: ― Ela tem lindas pernas. Realmente lindas. ― Elisie revirou os olhos. ― Se ela engravidar primeiro, eu serei humilhada, você sabe disso não é? ― Não é problema meu. ― Desgraçado. ― Elisie rugiu saindo apressada, Dixon serrou o maxilar fuzilando a porta. *** O caminho pelo qual eles seguiam era repleto de pedras e buracos fazendo a carruagem sacolejar de um lado ao outro, Dixon fez uma careta e apertou os lábios, enjoado. Elisie a sua frente lançava olhares raivosos para ele. Ele tinha discretamente ordenado ao cocheiro para ir pelo caminho mais longo e difícil, queria que Elisie ficasse tonta e enjoada, mas ela nem sequer aparentava estar incomodada com o balanço da carruagem e sim com ele. Se ela continuasse o olhando assim, ele poderia morrer com um furo na testa. ― Eu não tenho funções nenhuma, nem poder, sou uma princesa regente só por nome, então porque eu preciso acompanhá-lo? Sou algum acessório que vossa alteza não pode ficar longe? Por que não trouxe a sua concubina, meu marido? ― Pelos deuses! Você é tão irritante... ― murmurou sentindo o almoço revirar, a carruagem chacoalhou, ele tapou a boca com a mão, os olhos lagrimejaram. Ela iria discutir, ainda fervilhava de raiva pela concubina, mas mudou de ideia ao ver o marido ficar verde, bateu no teto da carruagem para que o cocheiro parasse. Logo em seguida ela ajudou-o a descer. Estavam na estrada, cercados por árvores e a quilômetros da próxima vila. ― Eu avisei que não se come demais quando se faz uma longa viagem. E você banqueteou-se com as beterrabas cozidas, eu nunca vi ninguém comer verduras com um semblante tão satisfeito. Você é realmente uma criatura incomum. ― resmungou socando as costas dele enquanto o mesmo se desfazia do almoço. ― Isso nunca aconteceu antes. Devo ter ficado assim devido ao seu perfume. ― respondeu recebendo socos ainda mais fortes. ― Meu perfume? Agora até pelas suas náuseas eu sou culpada? Faça-me o favor, é mais sensível que uma mulher, com o perdão da palavra o meu querido marido. ― Ai! Você pensa que bate em quê? Deixe-me! Isso não é problema seu. Ai! Se eu sou mais sensível que uma mulher, você é mais rude que um búfalo no cio, sua maluca, e nem diga nada da minha comida, desde que chegou às galinhas da granja real somem mais rápido do que as formas das nuvens. ― rosnou se afastando enquanto massageava as costas. ― Você sente dor pior. Podemos continuar?― Elisie se virou para o jovem cocheiro. ― Alteza, já que paramos devíamos deixar os cavalos descansar um pouco. Ela assentiu e levantando o vestido sentou-se numa árvore curvada, Dixon a seguiu. Depois de três suspiros ele disse baixo: ― Não sinto dor por que quero. Se eu pudesse, nunca sentiria dor. ― se remexendo envergonhada Elisie estendeu-lhe o seu saco com romãs guardado na pequena bolsa de seda. ― Você tem vivido por vinte dois anos nessa agonia, nunca tentou por fim a isso? ― Já, mas foi em vão, só me fez sentir mais dor. ― Como foi?― antes de começar, Dixon encarou os guardas sentados no chão do outro lado da estrada, e os outros cuidando dos cavalos; deu uma mordida na fruta e começou: ― Eu tinha treze anos, já carregava Gomon há seis, estava exausto do treino de Bartram para controlar as minhas emoções. Eu era apenas uma criança fraca que toda vez que via Gomon m***r aquelas mulheres, queria se m***r por isso. Foi então que eu cortei os meus braços em vários lugares até que acabei adormecendo pela perda de sangue, quando acordei e a única coisa que tinha nos meus braços eram essas cicatrizes, eu enlouqueci, corri até a cozinha, e arrastando-me pelo chão do deposito encontrei o veneno que os servos colocam para m***r os ratos e o tomei, a dor foi tanta que eu gritei até ficar rouco e então desmaiei pensando que não acordaria mais, infelizmente acordei cinco dias depois. Por meus atos, levei um sermão de Ramon e dez chicotadas de Bartram. ― Ele finalizou se virando para Elisie, que tinha os olhos cheios de lágrimas. ― Desculpe ― pediu enxugando-as ― Acho melhor continuarmos. *** Uma coisa era certa: ele jamais ficaria enjoado por aquele perfume, era como se o seu jardim tivesse o acompanhado, ele furtivamente exalou o perfume dos cabelos da sua esposa, mas ela mexeu-se ameaçando despertar do sono, ele afastou-se, cobriu-a com o cobertor e passou a língua nos lábios secos. Gomon sempre se comportava de modo estranho quando ela estava por perto, sem contar o toque dela que causava sempre um formigamento. Hesitando ele estendeu a mão até uma mecha de cabelo dela e a ergueu sentindo mais uma vez aquele perfume. O coração bateu uma vez trazendo a dor incomoda, Dixon cerrou os dentes e saiu do pequeno quarto. O que ele fazia? Agia como sempre agia quando os mercadores viajantes chegavam trazendo novas sementes e ramos de flores. Contudo, aquilo não era a mesma coisa, ela não era uma flor, de certo ela tinha o perfume de uma, no entanto, não possuía a delicadeza delas, sempre reclamando e fazendo perguntas. Tão cansativa. Ramon estava equivocado ao dizer que Elisie poderia ser como apenas mais uma flor para ele cuidar, ela jamais seria fácil de cuidar. Após virar um corredor ele chegou à sala do orfanato, o lugar estava silencioso, era um alívio, as crianças sempre o irritava. Dixon se acomodou na poltrona dura, e cruzando as pernas analisou o lugar decrépito. Não devia estar assim... Os nobres sempre pagaram uma quantia gorda todo mês para que o orfanato estivesse em boas condições e pelo que parecia o dinheiro não era suficiente. Uma serva de cabelos trançados em cada lado das orelhas curvou-se servindo-o com bolos e suco. Ele levantou-se, andando de um lado ao outro com as mãos nas costas, adquiriu essa postura com Bartram. ― Quanto tempo mais eu terei que esperar? ― perguntou pegando um pequeno vaso verde com desenhos complexos para olhá-lo de perto. A serva de cabeça baixa se curvou antes de sair apressada. Minutos depois o homem grisalho com sorriso trêmulo entrou na sala, usava roupas finas e uma bengala de ébano com contornos em ouro, Dixon finalmente compreendeu para onde o dinheiro estava indo. Sorriu largamente. ― Pensei que teria que voltar outra hora para encontra vossa alteza. ― zombou o príncipe, o homem ajoelhou-se sem hesitação, como se soubesse que o príncipe sabia dos seus atos. ― Desculpe-me alteza, a minha mulher está enferma. - mentiu ― Não me interessa, você merece duzentas chicotadas por esse insulto... Contudo, estou cansado e os meus guardas ocupados. Por isso se levante e comece a contar sobre os problemas que esse lugar está passando, e conte-me como conseguiu essas roupas e essa bengala, e seja sincero. *** Quando Elisie despertou se deparou com gargalhadas de crianças travessas ao pé da cama. Três meninos, um loiro de olhos azuis que parecia muito com o seu marido, outro gordinho usando o cabelo castanho em um penteado de lado, e um moreno de cabelos enrolados com os cantos da boca com farelos de bolo. ― Oi, você veio morar aqui? Como você se chama?― perguntou o garotinho de cabelos cacheados, Elisie se sentou sorrindo. ― Elisie Allen Leican, e não, eu vim morar aqui. ― não demorou muito para os sorrisos largos sumirem e no lugar uma careta pálida surgir, os meninos que aparentavam ter a mesma idade de uns três a quatro anos ficaram rígidos como servos e se curvaram. ― Perdoe-nos. ― disse o gordinho ― Não precisam se preocupar. Viram o meu marido?― novamente eles empalideceram trocando olhares de pavor. ― Crianças, o meu marido não é m*l. Não com crianças. ― assim ela desejava. ― Não o vimos. ― o loiro disse e os outros dois murmuraram um graças aos deuses, que quase a fez gargalhar, mas ela conteve-se. ― Eu não pude conhecer o orfanato, poderiam mostrar-me? Depois de conhecer cada canto daquela mansão, as crianças agora mais a vontade com Elisie a conduziram para o quintal, onde muitas outras crianças e jovens estavam. Os olhos dela foram primeiro para os guardas que enxugavam as roupas encharcadas. Soltou-se dos garotos e se aproximou dos homens sérios. ― Onde está o meu marido? ― Alteza, ele foi até o rio se lavar. ― disse o guarda apontando para uma estreita trilha. ― O que aconteceu? Por que estão molhados desse jeito?― eles se encaravam, como se aquilo poderia ser dito para a esposa do Cordial, ela insistiu: ― O que aconteceu? ― Executamos o administrador do orfanato, tivemos que mergulhar no rio para que as crianças não vissem o sangue. ― Elisie arregalou os olhos, mas não perguntou o motivo, não lhe interessava. Virou-se para ir pela trilha, contudo foi parada por cinco moças sorridentes. *** Uma das coisas que ele mais odiava além de Gomon, eram mentiras. E aquele infeliz estava entalado até o topo com mentiras. Se tivesse sido sincero desde o começo não teria um fim tão nojento, e sim levaria apenas umas quatrocentas chibatadas e quem sabe viveria. Dixon jogou a cabeça ensanguentada no buraco improvisado, depois esticou os braços, ultimamente ele estava controlando Gomon e não o contrário. As garras sempre eram úteis para uma morte lenta e agonizante, e ele gostava de fazer isso aos infelizes ladrões. Ele deu sinal para que o guarda começasse a fechar o buraco e virou-se tirando a roupa e seguindo até rio. Os pássaros cantavam animadamente nas copas das árvores e a correnteza do rio estava consideravelmente forte quando ele mergulhou. Sentiu o corpo inteiro reclamar de frio, mas não iria sair até se sentir limpo, sem o sangue daquele indigno nas mãos. O guarda ágil como era terminou e após limpar a suas mãos perguntou se o Cordial gostaria de ser vigiado, Dixon negou ficando sozinho e relaxado com a natureza calorosa, infelizmente foi por pouco tempo, pois de canto de olho viu uma figura surgir por entre as árvores, astuto escorregou para detrás de uma enorme pedra lisa de musgo e esperou tempo suficiente para observar Elisie olhando em volta, estaria ela procurando-o? Tal fato foi confirmado quando ela se abaixou e pegou as roupas dele jogadas nos cascalhos e depois com olhos arregalados estendeu o seu olhar por toda a extensão do rio. Abismada por não vê-lo. Ele abriu um sorriso, talvez o seu primeiro sorriso verdadeiro e saiu de detrás da pedra e mergulhou ficando imóvel. Elisie gritou e jogou-se na água. O vestido dificultou a sua tentativa de nadar e foi levada pela correnteza, Dixon que se levantou sorridente pensando que o grito dela fosse de medo por ele, prendeu o fôlego ao vê-la sendo levada e nadou até ela com toda a sua agilidade. Por sorte ou pelos deuses o enorme vestido dela ficou preso numa raiz, ele passou por outros galhos pontiagudos sem se importar com os arranhões e a puxou pela cintura colando-a no seu corpo. As bochechas de ambos estavam vermelhas e a respiração ofegante, ela segurou nos braços dele, enquanto tossia. Assim que a sua respiração normalizou-se, ela encarou-o. O olhar dele, o monótono olhar verde de defunto sem emoções pela primeira vez carregava uma fúria verdadeira, uma fúria que a fez emudecer, ele começou: ― Ficou louca? Quer se m***r? Não sabe nadar, não é? ― o tom da voz dele a fez concordar com a cabeça. Estava alterado demais. ― Você não tinha que ter pulado no rio, ainda mais usando isso. i****a, i****a, i****a. Sua... ― ela acertou-lhe uma bofetada, ele fingiu, tudo era culpa dele e ela que tinha que ouvir as suas reclamações? Deu-lhe outro t**a, ele parecia em choque a olhando com os olhos arregalados. ― Sim eu sou uma i****a tentando salvar um i*****l. ― começou a distribuir socos pelo peito nu dele que já doía por Gomon, ele enfurecido segurou-a pelos pulos e puxando a respiração com força fez o que jamais imaginou fazer: Ele beijou-a, um beijo c***l e cheio de fúria, ele devorava os lábios macios e quentes com sabor de romã até o gosto de sangue o tirar do transe e a soltar. Os olhos dela estavam perplexos, no princípio ele pensou que fora por seu movimento abrupto, mas ao descer o olhar viu a suas mãos transformadas em garras comprimidas nos pulsos dela que manchavam a água com sangue. Ele soltou-a e a tontura o fez vacilar e quase ser levado pela correnteza se não fosse por ela o segurar pelo pescoço. Os olhos carregando medo e pena. Ele engoliu em seco descendo o olhar para os lábios inchados e vermelhos, o instinto o fez desejar beijá-la de novo, mas o gosto de sangue tornou-se mais forte, recuou cuspindo sangue. ― Desculpe. ― murmurou ela despertando-o da sua confusão e dor. ― O quê? ― ela puxou a mão dele quase em carne viva. O sangue não lhe pertencia, ele não tinha a ferido. Esse sentimento de alívio durou pouquíssimo, pois Gomon tratou de rasgá-lo por dentro um pouco mais. Se encolhendo ele a puxou pelo pulso e a guiou para fora da água. *** O clima estranho entre eles foi intensificado quando a noite chegou trazendo consigo uma forte tempestade. Com a mão nos cabelos o Cordial encarava os raios riscando o céu n***o. Tinha esperança em voltar ao castelo naquela tarde, o que inevitavelmente não seria possível, tanto pela chuva que caía lá fora quanto por sua estupidez momentânea de m***r o responsável pelo orfanato. Ele virou-se fitando o garoto magricela e com o rosto coberto por sardas. Jovem demais para administrar um lugar tão grande. Elisie estalou a língua chamando a sua atenção e então sussurrou: ― Não podemos colocar esse lugar nas mãos dele. ― ela apontou para o garoto que tremia tanto como se estivesse nu na vila da neve do reino de Nox. ― Então o que você sugere, querida esposa? ― A mãe dele, ela pode administrar. ― sugeriu envergonhada, se fosse seu professor ele com certeza gritaria em seu ouvido e diria: uma mulher? Alteza, esse lugar precisa ser administrado e não enfeitado com cetim e flores. Uma mulher só sabe sobre roupas, comida e chá. Não me atrapalhe, vá para sua aula de bordado. A voz do seu professor foi dispersa dos seus pensamentos quando o Cordial balançou a cabeça concordando. Ela arregalou os olhos e sorriu. ― Acabou de concordar comigo?― ele franziu as sobrancelhas e assentiu ― Ela era a mulher daquele infeliz, deve ter aprendido com ele durante esses anos. Guardas tragam a mulher de Andro aqui. Não demorou muito para que uma mulher enorme entrasse na ampla sala. Usava um vestido cinza e o cabelo em um penteado desleixado, seus olhos foram imediatamente para Elisie que de acordo com o seu status deveria usar muitas fivelas e presilhas extravagantes nos cabelos bem penteados, contudo, usava os cabelos soltos e uma pequena coroa prateada combinando com a do Cordial. Talvez não fosse uma mulher má como o seu marido. Ela escondeu as mãos atrás das costas e se curvou abaixando o olhar. ― Altezas. Dixon se sentou cruzando as pernas e fez sinal para Elisie começar, uma pontinha de orgulho reluziu nas suas íris castanhas enquanto se aproximava da mulher. ― Presumo que saiba o que aconteceu com o seu marido. ― a mulher assentiu, não aparentava estar triste, Elisie continuou: ― Ele era o único que administrava esse orfanato, ou melhor, ele fingia administrar, agora que ele não se encontra aqui você será a responsável. ― tomada por incredulidade à mulher olhou nos olhos de Elisie tentando decifrar o que ela acabara de dizer, não parecia ser uma piada, mas ela desconfiou que os nobres fizessem esse tipo de brincadeira. ― Alteza... eu não posso, mulheres não podem... ― Agora podem. Diga-me, acredita que consegue administrar esse lugar?― a voz de Elisie estava firme e decidida, mas por dentro estava temerosa. ― Eu posso, mas ninguém vai respeitar-me se eu o fizer. ― Vão, diga-lhes que o Cordial escolheu você. E caso isso não funcione, mande o nome dos homens que não respeitam as pessoas do Cordial que eu mesmo os matarei. ― reforçou Dixon tentando fechar as mãos enfaixadas, a mulher abriu um sorriso enorme enquanto as lágrimas mandavam embora a incredulidade restante. ― Muito obrigada, muito obrigada... Darei o meu melhor. ― ela pegou nas mãos de Elisie pela euforia, os seus braços tinham enormes hematomas, Elisie a tocou analisando-os. ― Faça o seu melhor, agora não há ninguém para bater em você. Após isso, a mulher e o seu filho retiraram-se para ajudar as servas no jantar das crianças, a princesa sorrindo se virou para seu marido que olhava as mãos, uma pitada de culpa transpassou por seus olhos. Suspirando ela sentou-se de frente para ele. ― Dói muito? ― Como você disse, eu já senti dor pior. ― Desculpe. ― Você não tem culpa de ser a reencarnação de uma fogueira. ― brincou ele ― Amanhã esse machucado já terá cicatrizado. ― ele curvou a cabeça para o lado examinando a chuva lá fora, o seu estômago roncou. ― Devíamos ir jantar. ― sugeriu ela ― Aguardo a serva trazer. ― Aqui não, mas na cozinha, com todas as crianças. ― ele encarou-a com as sobrancelhas curvadas. ― Por que eu faria isso? ― Oh! Meu marido, se não quer então eu irei. ― se levantou sorridente e ao chegar até porta se virou e completou: ― Tenha uma boa refeição, se conseguir segurar o talher. *** O silêncio era tanto que ele pensou ser possível ouvir as formigas andando pelos cantos ocultos da cozinha. Dixon olhou desconfortável às várias crianças sentadas com as cabeças baixas parecendo estátuas, alguns nem pareciam respirar de tanto medo que sentiam dele. Elisie entrou carregando uma panela e atrás dela, cinco mulheres carregando outras panelas que cheiravam incrivelmente bem, o estômago dele roncou. Elisie tinha um sorriso amável nos lábios quando se sentou, ao lado dele após se servir. ― Vamos comer!― disse ela animada olhando para todos e nenhum em especial e começou a comer o seu peixe refogado, ele fixou o olhar no seu prato de feijão com uma salada de legumes. O estômago resmungou mais uma vez, ele levou a comida até a boca, mas a colher caiu fazendo a sua porção aterrissar no seu sapato, ele tentou mais uma vez e a colher caiu no seu copo de água. Algumas crianças tentaram conter o riso. Elisie o encarou. ― O que foi? ― o rosto dele ganhou um tom róseo, e uma pontada no peito. Ele ergueu as mãos para ela que sorriu constrangida e virou-se um pouco mais para ele pegando a colher e colocando uma porção de salada levou até a boca dele que recuou um pouco lançando olhares as crianças curiosas que pareciam não conseguir conter o riso. ― Elisie! ― sussurrou, mas ela não se deu por vencida e a sua fome o fez aceitar a comida até o prato esvaziar. Ao final, Elisie não permitiu que ele fosse se deitar e o arrastou até a sala, onde as crianças sentaram-se encolhidas no largo tapete peludo encarando Julian, o garoto magricelo com sardas se acomodar em uma das cadeiras e começar a contar histórias de terror. ― Você sempre fica a vontade com plebeus? ― começou ele baixinho ― Sim, quando eu e Jhon viajávamos para Olivis passávamos os dias desse jeito com os moradores da pequena vila do grão. ― ela não quis transparecer tristeza por nunca mais poder ir com o seu irmão lá. Todavia, ele percebeu. ― Vocês realmente gostam daquele lugar, não é? ― Sim, por isso o meu pai lutou com todas as forças para continuar com a ilha, mas... ― Eu fui mais forte. ― completou o Cordial, ela assentiu ― Você pode ir quando quiser para aquela ilha, ela é sua já que somos casados. ― ela abriu um sorriso que não chegou aos olhos. Julian levantou as mãos como garras para as crianças que gritaram. Lumiel, o garoto de três anos com cachos perfeitos, abraçou Elisie que gargalhou e o pegou no colo, Dixon se afastou um pouco, incomodado. ― Lumiel precisa ser um garoto valente, como poderá proteger-me?― disse ela relembrando o que ele disse naquela tarde, que quando fosse grande seria um general para proteger Elisie. Ele olhou nos olhos dela e abriu um enorme sorriso ― Eu sei, eu não estou com medo, não mais. O abraço da rainha fez-me ficar forte. ― Eu não sou rainha ainda, querido. ― Mais será um dia, a rainha mais gramurosa de toda Vrisan. ― disse com convicção, recebendo um beijo estalado de Elisie. ― O correto é glamorosa, e ela não vai precisa de você, ela tem a mim para protegê-la. Agora saia do colo da minha mulher antes que eu o mande para o pântano de ossos por incitar o adultério. ― disse o príncipe fazendo uma careta, o pequeno encolheu-se e tremendo saiu do colo de Elisie. ― Não precisava ser tão assustador. ― ele deu de ombros e pediu silêncio para ouvir Julian contar à lenda que ele tanto conhecia e odiava... ― O devorador de moças... Diz à lenda que ele vive no alto, outros dizem que ele vive no fim do penhasco de Darkeng, mas não importa onde ele vive, o fato é que ele é uma b***a horrenda que se alimenta de corações puros e se esconde na noite enquanto observa os inocentes se aproximar para finalmente lhe arrancar os corações. E em noites como essa chuvosa e completamente escura ele surge sempre depois de um bater nas janelas. ― a voz de Julian estava sombria, o que atraiu a atenção do Cordial que mesmo sabendo de quem ele fala, estava atento e quando a janela foi atingida com força por um galho de árvore e foi aberta jogando gotas gélidas de água em todos, ele abraçou Elisie atingido pelo susto. *** Alex limpava sua pequena adaga após uma caçada satisfatória. Quando Elisie voltasse iria almoçar um delicioso servo. Pensava ele lançando por alguns momentos o olhar para a entrada do castelo. Por que eles tinham que demorar tanto? Será que ela estava segura? Essa pergunta se repetia na mente de Alex desde que soube da pequena viagem que eles fizeram. ― Seja mais convincente, caso queira continuar com a sua cabeça. ― disse Melinda parando no corredor ao olhá-lo. Ele encarou-a brevemente antes de mostrar os dentes com desgosto. ― E você não seja tão extravagante. Caso queira continuar com o rosto perfeito. ― Melinda sorriu, a cabeça erguida como se fosse uma nobre. Usava os cabelos enrolados em vários grampos prateados com pedras de safira combinando com os enormes brincos e colar que também faziam par com o vertido azul volumoso de decote profundo. ― Querido, eu vi a princesa regente. Ela não tem um pingo de amor-próprio. Se veste tão simples que dói os meus olhos. Acha mesmo que ela vai se importar se a concubina se vestir melhor? ― Realmente, ela não ira falar nada. Mas nunca se sabe, é melhor não confiar. ― Não se preocupe. Agora que comprovou as suas suspeitas, o que fará? ― Alex suspirou e guardou a adaga. ― Não vou contar os meus planos para você. Perdi a confiança com a sua desobediência. ― Alex, se eu não aceitasse virar concubina, ele me mataria. ― Não foi só por isso, você usou o meu plano para seu benefício. ― E daí? Pelo menos os meus pais podem respirar aliviados e sem medo dos credores. E o meu... ― a conversa teve fim quando no portão Alex viu uns vinte camponeses forçando a entrada entre os guardas. Ele desencostou-se da parede e seguiu apressado até a entrada, Melinda foi logo atrás, erguendo o vestido. Ele montou no cavalo de um dos guardas que tinha se afastado e ouvindo as reclamações de Melinda correu até o portão de entrada. ― O que acontece? ― perguntou saltando do cavalo e adquirindo uma postura séria. Os camponeses souberam que se tratava de um príncipe assim que os guardas se curvaram em respeito. Eles fizeram o mesmo e em seguida começaram todos de uma vez. ― Falem devagar e um de cada vez! ― obedientes calaram-se e o mais velho de todos com os longos cabelos brancos preso em um coque disse: ― Alteza, a inesperada chuva de ontem a noite fez o rio Tristeza inundar e destruir a plantação de arroz. E o forte vento fez uma parte da estrutura do muro da cidade desabar matando um guarda desatento. ― Ele tinha família? ― Sim, uma menina de doze anos e a mãe idosa ― A mulher e a criança vão receber um benefício por sua perda, contudo, ao que se refere ao arroz, não vejo o porquê de tanto alarde. O reino não recebe arroz de outros lugares além do da cidade? ― Sim, alteza. Compramos de fora no outono e inverno quando o rio congela e as plantas não sobrevivem, mas não no verão. ― Alex cruzou os braços, pensativo. Se o costume de comprar arroz apenas no inverno fosse realmente antigo, os comerciantes jamais apareceriam nessa época para vender arroz, ou apareceriam quando a notícia da falta dele chegasse a outros reinos o que demoraria uns seis meses se tratando de Darkeng, um reino muito fechado e rígido com seus assuntos. Alex piscou algumas vezes e finalmente falou: ― Já tenho uma solução. Irei mandar uma carta ao reino de Gaofeng ainda essa tarde, e possivelmente no próximo mês o arroz chegará para vocês. Um pouco caro, mas está é a única solução que tenho para reparar esse incidente. ― os camponeses retiraram seus chapéus quando se curvaram para o príncipe. ― Obrigado alteza, por escutar e resolver o problema tão rapidamente. Assim que ele retornou ao castelo, se encontrou com Ramon no meio da escada com o olhar severo que muitas vezes lhe causava um arrepio na espinha, o servo nunca se curvava para ele, era um homem rude e achando-se muitas vezes superior por ser o braço direito do príncipe regente. Antes que o príncipe falasse com o servo o mesmo começou: ― Vossa alteza conseguiu contornar a situação. Vejo que será um grande rei um dia. ― Obri... ― Ramon o interrompeu em um tom de voz seco e sem humor. ― Devia mostrar o seu potencial com os pobres no seu reino, em Gaofeng e não ofuscando o poder do seu primo. Além disso, vossa alteza não ganharia nada com isso, ou ganharia? Talvez o amor do povo e mais tarde todo o trono do terrível Cordial? É isso que deseja, Alteza? ― Alex cerrou os punhos. ― De modo algum, não desejo e nunca desejarei o trono do meu primo. Não desejo ser rei em Gaofeng e muito menos em Darkeng. ― respondeu escondendo a sua irritação. *** Ela analisava-o dormir no seu ombro, estavam na carruagem que ia tão lenta quanto possível. A chuva de verão fora tão forte e durará quase a noite inteira que a estrada estava escorregadia e barrenta. Ela passou o dedo indicador pela marca que deixará na testa dele no incidente com Gomon e desceu timidamente admirando-o, tinha lábios bonitos e um furinho no queixo que o deixava atraente. A carruagem parou, o cocheiro gritou algo, ela colocou a cabeça para fora dando de cara com uma enorme árvore caída na estrada. ― Há outro caminho? ― Sim, alteza, mas creio que demoraria dois dias e as nossas provisões não são suficientes para mais dois dias. A árvore era mediana, não muito grossa e nem muito fina. Tinha os galhos espetados e as folhas queimadas pelo raio. ― Vamos ter que tirá-la daí. ― eles assentiram e os sete guardas começaram a cortar os galhos. Elisie puxou a espada de Dixon que ainda dormia e aproximou-se dos outros sem se importar que o barro estivesse grudando na barra do vestido. ― Não faça isso, alteza. ― pediu o cocheiro de olhos arregalados vendo-a acertar com força a espada em um galho franzino. Ela ergueu novamente a espada e sorriu, como se aquilo fosse a coisa mais normal para uma princesa: ― Há uma primeira vez para tudo. Continuem.
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