Finalmente após uma luta árdua contra aquela árvore, estavam a caminho do castelo. Elisie jogou a tiara no banco da carruagem e esfregou o seu lenço no rosto empapado; tentou tirar as lascas de madeira do seu vestido bege antes de acordar o Cordial. Ela empurrou o seu ombro uma vez gentilmente, ele nem sequer resmungou, o sacudiu com um pouco mais de força e nada. O pânico moldou as suas feições, e então tomou o seu rosto nas mãos. Estava pálido e os lábios como de quem não tomava água por dias, seco, rachado.
― Meu marido... acorde. ― nada, ela por fim apavorada deu-lhe uma forte bofetada o trazendo de volta com um grito.
― Ai! O que... ― ele calou-se, pois sangue grosso encheu a sua boca, ele cuspiu-o pela janela. ― Diga para ir... mais rápido...― murmurou lutando para manter os olhos abertos. Ela obedeceu-o e depois entregou o seu lenço para ele limpar o sangue que começava escorrer do nariz. Não era uma cena bonita, nunca era.
― Ele... precisa de energia, não é? ― perguntou tentando ao máximo disfarçar o pânico de ver aquela coisa. Ele assentiu com um leve balançar de cabeça e abriu alguns botões da camisa revelando o peito com algumas veias negras ao redor dele se espalhando para todos os lados como raízes podres.
― Estou há muito tempo sem chamá-lo e isso esta me matando. ― ela desviou o olhar para dispersar as lágrimas.
Enquanto ela procurava as palavras certas, a carruagem parou diante do castelo, ela saltou sem esperar por ajuda.
Todavia, a sua fuga foi impedida por Melinda, que a olhou dos pés a cabeça, como se perguntado o que ela andava a fazer para estar imunda e descabelada. Mas as palavras que saíram foram contrarias as que Elisie lerá no olhar da concubina.
― Alteza, estou feliz que voltaram em segurança.
Elisie murmurou um obrigada e virou-se ao som de vozes animadas. Uma mulher estonteante escoltada por dois guardas e acompanhada por duas mulheres aproximou-se delas. Ela tinha cabelos loiros enrolados num enorme penteado, Elisie conteve o seu riso ao compará-lo com uma colmeia. E então a mulher apresentou-se curvando-se:
― Alteza, sou a duquesa Virgínia, vim após o meu retorno do reino de Xingyun desejar-lhe felicidade. ― ela pegou a mão de Melinda, e sorriu fingindo falsa admiração antes de levar a mão aos lábios numa bênção não alcançada. ― Alteza, é realmente uma mulher magnífica. Nem aparenta ter apenas dezessete anos. Como imaginei, o nosso querido Leican jamais se casaria com uma criança desnutrida e ainda em formação. ― Melinda ficou tensa, os guardas ficaram petrificados e Elisie se sentindo insignificante. No entanto, nenhum ousou dizer uma palavra pelo que pareceram minutos intermináveis, até que a atenção de todos se voltou para Dixon que desceu majestosamente da carruagem tirando algumas folhas da tiara de Elisie e passou pela mulher colocando com delicadeza a simples coroa na sua dona. E virou se para a duquesa pousando o braço no ombro de Elisie.
― Senhora, deixe-me apresentá-la a minha esposa e futura rainha Elisie Allen Leican. ― a mulher empalideceu. ― E está é a minha concubina.
― A-a-alteza... p-perdoe-me, por meu erro mereço a morte. ― implorou se ajoelhando.
― Que bom que sabe. ― Dixon estendeu o braço para pegar a espada do guarda, Elisie o parou.
― Não, meu marido. Ela se confundiu. A culpa não é dela e sim a minha. Não adquiri a postura de uma princesa regente e continuei a vestir-me como uma moça solteira. Ele puxou o ar com força e sibilando um faça o que quiser retirou-se rapidamente.
***
O vento fustigava-lhe os cabelos compridos e soltos como de costume, mas Elisie não ousou entrar para seu quarto, apenas cruzou os braços e ergueu a cabeça sentindo o vento do anoitecer. Precisava desse tempo sozinha. Uma lágrima arrastou-se por sua pálida bochecha lhe dando um choque. Por que chorava? Era saudade dos seus dias tranquilos e seguros em Margoth? Era talvez saudade dos ataques da sua mãe quando a via correr pelo palácio, ou era das conversas curiosas de Cássio? Ele sempre lhe contava histórias das suas viagens. Não, não era isso.
Ela se sentia sozinha, desnorteada e insegura naquele castelo estranho, Dixon não era totalmente desagradável, nesses três meses que se passaram, ele ensinara-lhe a plantar crisântemos e mostrou-lhe o jarro de pedra polida onde deviam ter nascido cactos e não capim e lhe contou com irritação como odiava capim desde então, fora esses poucos momentos, ele sempre era vago nas suas conversas, e tinha Alex, ele era um bom amigo, realmente um bom amigo, mas ele não era suficiente para lhe preencher, fazer-lhe sentir em casa.
Sentia falta do seu pai, de Kalena, de Jhon, sentia falta de conversar com amigos, naquele castelo não havia ninguém além deles e dos servos, ninguém que não fosse sério e temesse por suas vidas. Ela estava sufocada naquele castelo falso e odioso, suspirou entediada. Uma mão pousou sobre o seu ombro lhe cobrindo com um casaco.
― Não devia estar se preparando para dormir, alteza?― perguntou Alex colocando os braços para fora da janela. Ela negou com a cabeça e cobriu-se ainda mais.
― Não sinto sono. E você? Vai sair? ― perguntou ela lançando um olhar para as roupas dele.
― Vou ao festival da meia-noite.
― Festival da meia-noite? Eu não ouvi falar.
― O reino não se importa com esses festivais criados pelo povo. Gostaria de ir comigo? É para comemorar o dia em que Sorina e Argius tiveram Bruxins, a magnífica. ― Elisie enrugou a testa analisando o homem ao seu lado, os cabelos escuros caindo de lado sobre a pele macia, o olhar obscurecido pela rigidez do rosto. Estava sério quando a olhou de volta. Os olhos pareciam dizer tantas coisas, mas Elisie não conseguia entendê-las ou somente não tinha a curiosidade de entendê-las. Ele sorriu estendendo a mão para ela que a encarou. Indecisa e ansiosa, curiosa e cautelosa. Devia ir? O seu marido iria sentir a sua ausência? Não, ele nunca notava, Ramon poderia notar e brigar como um búfalo, ela mordeu o lábio inferior e pegou a mão áspera e quente de Alex que a apertou contra a sua. Ela sorriu sendo puxada por ele, iria se divertir, o seu marido sempre dizia para ela fazer o que quisesse. Bem, se ele tentasse falar algo, ela saberia o que responder.
***
― Alteza, um dos nossos guardas de confiança já está a caminho da cidade para entregar o bilhete. ― relatou Ramon para Dixon que se encontrava na enorme e redonda banheira. O príncipe resmungou um entendo, e recostou a cabeça no apoio de madeira, a água já ficava fria, as servas eram sempre despreocupadas no verão. Ele sacudiu a mão e a estendeu para pegar um dos bilhetes, analisando o carimbo de uma pequena flor de lótus rosa.
― Eu devia mudar o perfume do meu banho? Ramon, pensa que já se tornou enjoativo? ― Ramon virou-se com as sobrancelhas franzidas.
― Por que isso agora? Vossa alteza nunca se importou com isso, apenas se sente confortável assim. ― o Cordial deu de ombros e levantou-se abrindo os braços para que Ramon o enrolasse.
― Não sei, a maioria dos homens não se importam muito. Eu devia ser como eles? Talvez sendo menos seletivo em algo banal, eu me torne um pouco mais másculo? Atraente quem sabe...
― E fedorento. Alteza, nunca se importou com isso. Por que isso o incomoda agora? ― Dixon se aproximou do enorme espelho, a sua imagem não o agradou, era só um homem muito pálido e magro com cabelos até os ombros e lábios vermelhos. Suspirou e finalmente falou em voz alta o que estava amarrado na sua mente:
― Eu beijei Elisie, e o pior de tudo é que eu gostei, gostei tanto que depois disso eu não consigo parar de imaginar como será beijá-la novamente. E esse desespero destrói-me por dentro, mas... Ramon, por mais que eu tente não consigo parar a minha mente apesar de Gomon tentar das formas mais cruéis me silenciar. Quando eu beijei a mulher no bordel não fiquei desse jeito. Na verdade, eu nem pensei sobre. ― despejou apertando os ombros do servo que o ouvia preocupado. ― Como eu faço isso parar? ― os olhos tornaram-se suplicantes a espera da resposta, todavia, no instante em que Ramon abriu a boca o jovem soltou os ombros do servo, levando a mão até a cabeça sentindo-se zonzo, sangue grosso escorreu dos cantos da boca e lançando um último olhar o jovem caiu inconsciente.
Ramon cerrou os punhos, não se importava mais com a dor mais forte, estava claro que o amor não era a cura. Ele contraiu uma veia da testa e saiu gritando pelos guardas que levaram o príncipe para o quarto e em seguida três deles correram nos seus cavalos para as vilas mais distantes com a missão de entregar mais dos bilhetes. Se Gomon estava faminto, naquela noite sua fome cessaria.
***
Lanternas iluminavam os telhados das casas e barracas abarrotadas de comidas que enchiam a rua até o final. Elisie prendeu o fôlego, admirada pelo lugar magnífico, crianças corriam carregando pipas de papel colorido, as moças e senhoras andavam discretamente exibindo os seus vestidos bem-feitos e coloridos. Os cavalheiros tocavam instrumentos e vendiam coisas.
Bem no meio da rua colocaram um altar de mármore branco, com alguns buques ao pé dele e uma enorme vela acesa, Elisie chamou a atenção de Alex que comia um pedaço de torta de morango, e apontou para o altar, ela nunca viu nada assim, nem tinha muito conhecimento sobre os deuses. Mas era óbvio, Franco não perderia o seu tempo ensinando história para uma mulher, ele contava superficialmente e às vezes enrolava para ser chato e entediante e assim a curiosa garota perdesse o interesse e pedisse para que ele voltasse a ensiná-la arte.
― Para que serve isso?― ele limpou o canto da boca antes de encarar a princesa com curiosidade. ― Por favor, não me olhe assim... eu não gostava muito das aulas de história. ― mentiu ela, ansiando para saber mais.
― Esse é o altar-sepultura da deusa Bruxins, todos os anos, no meio do verão quase todos os reinos festejam o dia em que os deuses tiveram a sua primeira criança, Bruxins: a deusa de beleza arrebatadora, e a guardiã de Vrisan.
― Essa parte eu sei, só não compreendo o porquê de comemorar o seu nascimento. Pelo pouco que sei, ela apaixonou-se por um humano e dividiu as terras numa briga com o irmão Zarus.
― Elisie, nos comemoramos o seu aniversário pelo fato de que se ela não tivesse nascido Vrisan não existiria, nem a terra existiria, pois Serina não desejaria criar um mundo para seus filhos viverem. Mas não confunda, essa comemoração é somente para Bruxins, apesar de Zarus ter nascido no mesmo dia, ele não merece ser lembrado, esse deus ciumento.
― Ciumento?
― Sim, apesar de ele ter brigado com a irmã por ela amar um humano, ele fez do mesmo jeito, amou uma humana e tiveram um filho f**o e deformado, enquanto Bruxins teve uma linda criança, uma criatura ainda mais bela que a própria deusa, Zarus tentou novamente, mas a criança nasceu ainda mais f**a do que a primeira.
Furioso ele jogou o primeiro filho no vulcão de Saranta, e escondeu o segundo horrendo filho dentro de uma melancia que nunca apodreceria no bosque do desespero ou bosque dos gritos, como achar melhor, depois seguiu chorando lágrimas de sangue até a sua irmã e a amaldiçoou, fez a alma dela viver num corpo mortal, toda vez que o seu corpo mortal morria, ela perdia as suas memórias e voaria para outro corpo nascido no mesmo minuto da sua morte. Satisfeito, ele roubou os filhos da irmã e fugiu com a amada para Florkya, onde criou os meninos que herdaram a mortalidade do pai e morreram deixando continuidade através dos seus filhos, os que hoje são conhecidos como bruxos. ― Elisie parou diante de algumas velas flutuante e encarou o príncipe, animada, ele contava-lhe as histórias com prazer, e não emburrado por gastar a sua saliva com uma mulher que devia se interessar por outras coisas.
― E o que aconteceu com Zarus? Ele ainda está em Florkya?
― Não, assim que se passaram duzentos anos, os reis desceram do céu para visitar os filhos no enorme jardim que criaram para eles, contudo, encontraram a terra dividida em três enormes pedaços: Vrisan, Nasany e Florkya, e sentiram a alma da filha em uma humana. Tristes e confusos chamaram Zarus que chorando de ódio revelou o que fez, os pais decepcionados o levaram para o céu e o prenderam na prisão de almas, onde ele ficará para toda a eternidade. ― Elisie bateu palmas, maravilhada.
― Alteza, essa história é tão fascinante, e ainda mais fascinante ao saber que isso realmente aconteceu. Alex, seria um ótimo professor.
― Obrigado, eu estudei muito para fugir da rainha minha mãe. ― ela assentiu passando a mão pelos tecidos na barraca em que estavam parados. O silêncio entre eles roubou o momento, trazendo desconforto. Alex olhou em volta, cinco barracas mais a frente viu uma que vendia brincos brancos e azuis, ele puxou-a até lá, Elisie pegou um azul para olhá-lo de perto, tinha o formato de uma estrela-do-mar, o vendedor, um homem robusto e de sorriso fácil aproximou-se dizendo:
― Esses brincos são mágicos, a mulher que os usar saberá quem é sua alma gêmea, os brincos irão sussurrar no seu ouvido quando você se encontrar com ele.
― Isso é verdade?― o comerciante deu de ombros encabulado e negou com a cabeça.
― Não sei, eu nunca soube de ninguém que os ouviu sussurrar. ― apesar disso, Elisie os comprou e os guardou no bolso.
― Você espera que eles sussurrem quando você se encontrar com o Cordial? ― perguntou se sentando em um dos bancos próximo de algumas barracas e crianças.
― Não, não acredito que funcione.
― E se funcionar? E a sua alma gêmea não for o Cordial? ― ela deu de ombros.
― Bem, se funcionar e não for ele a minha alma gêmea, eu ficarei feliz mesmo assim... Pelo menos saberei que tenho uma alma gêmea em algum lugar.
― Eu não ficaria feliz, saber que eu estou com a pessoa errada e jamais poder ficar com a certa. Isso me destruiria. ― Elisie sorriu tristemente e levantou-se estendendo a mão para ele que a pegou sem hesitar.
― Sua alma gêmea está por aí, sei que vocês ainda vão se encontrar e viver felizes. Agora leve-me para o lugar de onde vem essa música. Será que eu poderia dançar?
Ele encarou-a por segundos e sem querer sorriu e apertou a mão dela contra a sua puxando-lhe para o centro do festival.
Estavam todos no centro, com as mãos nas saias longas pulando ao som do tambor e da voz magnífica da mulher no canto que cantava animadamente enquanto era arrastada pelos outros numa dança conjunta. Um homem que Elisie nunca tinha o visto a puxou pela cintura e a girou algumas vezes até a levar ao centro onde ela seguiu as demais que começaram a cantar. Alex foi até lá após algumas voltas e a puxou para si de forma protetora e juntos rodopiaram e cantaram como duas crianças por metade da noite.
― Foi tão divertido, nunca me diverti tanto. Podemos vir de novo? Podemos? ― exclamou puxando o ar com força, Alex enxugou a testa pingando da princesa enquanto atravessavam a pequena ponte enfeitada com lanternas flutuantes pressas por cordas no parapeito. ― Se sua alteza descobrir o que a sua esposa andou a fazer, ele terá um ataque.
― Ataque? Não, ele nem sequer notou a minha ausência ainda. Nem notará, ele nunc... ― parou, analisando de longe um homem parecido com o guarda que seguia o príncipe por toda parte, estava desarmado e usando um capuz cinza e roupas simples, ele virou o rosto impedindo Elisie de vê-lo e entregou algo para uma moça jovem e saiu discretamente. Alex perguntou algo, ela tapou-lhe a boca, analisando a moça seguir para fora da cidade.
― Elisie, os nossos cavalos estão por aqui. ― disse ele segurando-a quando ela fez questão de seguir a menina.
― Sim, eu sei, vá pegá-los, eu espero-te aqui. ― ele contorceu o rosto em confusão e assentiu seguindo sozinho pelo outro lado.
A jovem aparentava ter uns quinze anos, usava um vestido vermelho e os loiros cabelos preso a uma trança firme. Elisie se escondeu atrás de uma árvore quando a garota parou com os lábios curvados em um sorriso, ela abriu a carta e gritou o nome dele. Elisie arregalou os olhos. Devia salvar a garota? Ou deixá-la ser o alimento de Gomon?