Capítulo — A mulher que sempre voltava para ele
Bianca tinha apenas vinte e seis anos, mas o nome dela já era conhecido nos maiores hospitais do país.
Era uma médica brilhante.
Não apenas brilhante.
Extraordinária.
Cirurgiã-chefe do melhor hospital do país, Bianca era uma daquelas profissionais raras que pareciam ter nascido para estar dentro de um centro cirúrgico.
Ela dominava praticamente todos os tipos de cirurgia que sua especialização permitia. Não ficava presa a um único setor. Quando havia um caso complicado, seu nome era lembrado.
Quando uma equipe precisava de liderança, chamavam Bianca.
Quando outro hospital enfrentava uma cirurgia delicada e não encontrava um profissional capaz de assumir o caso, ligavam para ela.
Quando havia congressos, palestras ou treinamentos para equipes médicas, Bianca era convidada.
E, mesmo trabalhando em um dos hospitais mais importantes do país, ela ainda era chamada por instituições vizinhas para supervisionar equipes, organizar cirurgiões e participar de procedimentos.
Seu currículo era gigantesco.
Sua reputação, maior ainda.
Mas, apesar de toda aquela força profissional, havia uma parte da vida de Bianca em que ela se sentia completamente insegura.
O casamento.
Ela era casada havia três anos com Roberto, um engenheiro extremamente competente, inteligente e respeitado na própria área.
E Bianca o amava.
Amava de uma maneira quase desesperada.
Talvez até demais.
Era justamente esse o problema.
Bianca passava noites no hospital.
Às vezes três.
Às vezes quatro.
Havia semanas em que fazia plantões de duas ou três noites seguidas. Em situações excepcionais, chegava a passar quatro noites praticamente vivendo dentro do hospital.
Dormia pouco.
Comia quando conseguia.
Operava durante horas.
Liderava equipes.
Tomava decisões que poderiam significar a diferença entre a vida e a morte de um paciente.
E, quando finalmente conseguia voltar para casa, cansada, com os olhos pesados e o corpo pedindo descanso...
Tudo o que queria era Roberto.
Era simples.
Ela queria o marido.
Queria tomar banho, vestir uma roupa confortável, deitar ao lado dele e recuperar as noites que haviam ficado para trás.
Queria conversar.
Abraçar.
Beijar.
Sentir que ainda existia um casamento esperando por ela quando deixava o hospital.
Só que Roberto nunca parecia sentir a mesma necessidade.
Naquela noite, por exemplo, Bianca chegou em casa quase três da manhã.
Abriu a porta devagar.
A casa estava silenciosa.
Ela largou a bolsa no sofá e respirou fundo.
Havia passado quase dezessete horas dentro do hospital.
Tinha participado de duas cirurgias.
Coordenado uma equipe.
Atendido uma emergência.
E ainda havia passado parte da madrugada acompanhando a recuperação de um paciente complicado.
Estava exausta.
Mas sorriu quando viu a luz acesa no quarto.
Roberto estava acordado.
Ela entrou.
— Amor...
Ele tirou os olhos do celular.
— Você chegou.
Bianca sorriu.
— Cheguei.
Aproximou-se da cama e se sentou ao lado dele.
— Estava com saudade.
Roberto soltou um suspiro.
— Bianca...
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Eu estou cansado.
O sorriso dela desapareceu um pouco.
— Eu também estou.
— Então dorme.
Bianca ficou olhando para ele.
— Eu passei três noites fora.
— Eu sei.
— E você não está com saudade?
Roberto colocou o celular na mesa de cabeceira.
— Claro que estou.
— Não parece.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Bianca, pelo amor de Deus. A gente está junto agora.
— Junto como?
— Como marido e mulher.
Ela se aproximou.
— Eu quero ficar com você.
— Você sempre quer.
A frase atingiu Bianca com força.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— E isso é r**m?
Roberto respirou fundo.
— Às vezes.
Ela desviou o olhar.
— Às vezes?
— Você é intensa demais.
Bianca sentiu o peito apertar.
— Eu sou sua esposa.
— Eu sei.
— Eu amo você.
— Eu também sei.
— Então por que parece que você está sempre tentando se afastar de mim?
Roberto se levantou da cama.
— Porque eu estou cansado.
— Você sempre está cansado.
— Porque eu trabalho!
Bianca também se levantou.
— Eu também trabalho!
— Não começa.
— Eu fiquei três noites fora!
— E eu fiquei trabalhando enquanto você estava lá.
Ela riu sem humor.
— Trabalhando?
— Sim.
— Então você entende o que é ficar cansado.
— Exatamente.
— Não. Você não entende.
Roberto encarou a esposa.
— O que você quer que eu faça?
Bianca aproximou-se dele.
— Que você queira ficar comigo.
— Eu estou ficando com você.
— Isso?
— O que tem de errado?
Ela ficou alguns segundos olhando para ele.
— Três minutos.
Roberto fechou os olhos.
— Bianca...
— Quanto tempo você acha que isso é?
— Você está maluca.
— Eu passei quatro noites fora daqui, Roberto.
— E voltou.
— Voltei querendo você.
Ele ficou calado.
— E você simplesmente não quer.
— Eu estou cansado.
— Você sempre está.
— Porque você é insaciável!
Bianca congelou.
A palavra ficou suspensa entre os dois.
— Insaciável?
— É.
Ela respirou fundo.
— Você acha isso de mim?
— Acho que você exagera.
— Eu fico semanas trabalhando até cair de cansaço. Quando volto para casa, quero meu marido. E você chama isso de exagero?
— Você transforma tudo em uma obrigação.
— Eu nunca disse que era obrigação!
— Mas age como se fosse.
Os olhos verdes dela começaram a ficar marejados.
— Então qual é a explicação, Roberto?
Ele ficou em silêncio.
— Eu passo três, às vezes quatro noites fora. Quando chego em casa, quero ficar com você. Você não quer ficar comigo. E aí?
— Bianca...
— Qual é a explicação?
— Você está criando coisa onde não existe.
— Então me explica!
— Não tem nada para explicar.
Ela soltou uma risada triste.
— Você só pode estar me traindo.
Roberto a encarou imediatamente.
— Você está maluca?
— Então qual é a explicação?
— Eu já falei.
— Não falou!
Ela limpou rapidamente uma lágrima que escapou.
— Você não sente minha falta como eu sinto a sua. Você não procura meu abraço. Não parece feliz quando eu volto. Eu chego em casa depois de quatro noites e tudo o que você quer é dormir.
— Porque eu estou cansado!
— E eu não estou?
— Você tem fogo demais, Bianca. Isso é chato. É exaustivo. É desgastante.
Ela ficou imóvel.
— Minha intensidade incomoda você?
— Sim.
Aquilo doeu mais do que qualquer discussão anterior.
Porque Bianca nunca havia entendido que o homem que ela amava pudesse olhar para aquilo que ela considerava amor e enxergar apenas um problema.
Ela baixou a cabeça.
— Tá bom, Roberto.
— Bianca...
— Tá bom.
— Não faz drama.
Ela levantou os olhos.
— Eu não estou fazendo drama.
Pegou a bolsa que havia deixado no sofá.
— Só estou entendendo uma coisa.
— O quê?
Bianca respirou fundo.
— Que eu sempre volto para casa pensando que finalmente vou matar a saudade do meu marido...
Sua voz falhou.
— ...mas talvez só eu esteja sentindo essa saudade.
Ela saiu do quarto.
E, naquela madrugada, pela primeira vez em três anos de casamento, Bianca dormiu no quarto de hóspedes.
Sozinha.
Sem saber que aquela noite seria apenas o começo da ruína de um casamento que ela ainda lutaria para salvar.