O sol ainda nem tinha esquentado direito o dia…
e Aline já estava na rua.
Uma bolsa no ombro.
Uma sacola cheia de peças de crochê na mão.
E a mente… longe.
Muito longe.
Ela andava rápido.
Sempre andava.
Porque parar…
era pensar demais.
E pensar demais… doía.
— Mãe, eu quero aquele biscoito depois, tá? — disse Alicia, pulando ao lado dela.
Aline sorriu de leve.
— A mamãe vai dar um jeito, meu amor.
Ela sempre dava.
Nem que fosse o último real.
Nem que fosse vendendo algo.
Nem que fosse se apertando.
Ela dava.
Virou a esquina apressada…
e foi aí que aconteceu.
Bateu.
Forte.
A sacola caiu no chão.
As peças de crochê se espalharam pela calçada.
— Me desculpa! — ela falou rápido, já se abaixando pra pegar tudo.
— Não, a culpa foi minha…
A voz dele era calma.
Firme.
Diferente.
Ela levantou o olhar por um segundo…
e travou.
Um homem de terno.
Camisa social perfeitamente alinhada.
Relógio caro no pulso.
Postura reta.
Mas não era isso que chamava atenção.
Era o olhar.
Um olhar… atento.
Como se ele realmente estivesse vendo ela.
Não só olhando.
Vendo.
— Você se machucou? — ele perguntou.
— Não… tá tudo bem — ela respondeu, sem nem conseguir sustentar muito o olhar.
Ela juntou tudo rápido.
Rápido demais.
Como sempre fazia.
Sem dar tempo pra nada.
— Deixa eu te ajudar — ele disse, se abaixando junto.
E ali…
no meio da calçada…
um homem de terno caro…
ajoelhado…
pegando peças de crochê.
Aline estranhou.
Muito.
— Você vende isso? — ele perguntou, segurando uma peça.
— Vendo… — ela respondeu, meio sem graça.
— São bonitas.
Simples.
Mas sinceras.
E aquilo mexeu com ela.
Porque fazia tempo…
que ninguém elogiava algo que vinha dela.
— Obrigada…
Ela terminou de guardar tudo.
Pegou a mão da filha.
— Vem, filha.
E saiu.
Sem perguntar nome.
Sem olhar pra trás.
Sem dar espaço.
Como sempre.
Mas…
não foi como sempre.
Porque, dessa vez…
ela sentiu.
Sentiu algo diferente.
E ele…
ficou parado.
Olhando ela se afastar.
Com a menina ao lado.
A sacola simples.
O passo apressado.
E um peso invisível…
que ele reconheceu de longe.
Ele não sabia o nome dela.
Mas sabia de uma coisa:
aquela mulher não era comum.