Homen de terno

385 Words
O sol ainda nem tinha esquentado direito o dia… e Aline já estava na rua. Uma bolsa no ombro. Uma sacola cheia de peças de crochê na mão. E a mente… longe. Muito longe. Ela andava rápido. Sempre andava. Porque parar… era pensar demais. E pensar demais… doía. — Mãe, eu quero aquele biscoito depois, tá? — disse Alicia, pulando ao lado dela. Aline sorriu de leve. — A mamãe vai dar um jeito, meu amor. Ela sempre dava. Nem que fosse o último real. Nem que fosse vendendo algo. Nem que fosse se apertando. Ela dava. Virou a esquina apressada… e foi aí que aconteceu. Bateu. Forte. A sacola caiu no chão. As peças de crochê se espalharam pela calçada. — Me desculpa! — ela falou rápido, já se abaixando pra pegar tudo. — Não, a culpa foi minha… A voz dele era calma. Firme. Diferente. Ela levantou o olhar por um segundo… e travou. Um homem de terno. Camisa social perfeitamente alinhada. Relógio caro no pulso. Postura reta. Mas não era isso que chamava atenção. Era o olhar. Um olhar… atento. Como se ele realmente estivesse vendo ela. Não só olhando. Vendo. — Você se machucou? — ele perguntou. — Não… tá tudo bem — ela respondeu, sem nem conseguir sustentar muito o olhar. Ela juntou tudo rápido. Rápido demais. Como sempre fazia. Sem dar tempo pra nada. — Deixa eu te ajudar — ele disse, se abaixando junto. E ali… no meio da calçada… um homem de terno caro… ajoelhado… pegando peças de crochê. Aline estranhou. Muito. — Você vende isso? — ele perguntou, segurando uma peça. — Vendo… — ela respondeu, meio sem graça. — São bonitas. Simples. Mas sinceras. E aquilo mexeu com ela. Porque fazia tempo… que ninguém elogiava algo que vinha dela. — Obrigada… Ela terminou de guardar tudo. Pegou a mão da filha. — Vem, filha. E saiu. Sem perguntar nome. Sem olhar pra trás. Sem dar espaço. Como sempre. Mas… não foi como sempre. Porque, dessa vez… ela sentiu. Sentiu algo diferente. E ele… ficou parado. Olhando ela se afastar. Com a menina ao lado. A sacola simples. O passo apressado. E um peso invisível… que ele reconheceu de longe. Ele não sabia o nome dela. Mas sabia de uma coisa: aquela mulher não era comum.
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