Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás.
— Caio Fernando Abreu.
Nem tudo na vida é como queremos. Não adianta oque pedir, nem como vai pedir. Nunca vai vir do jeitinho que pensamos, nada é como na nossa mente e, infelizmente, ainda não existe uma fábrica de sonhos que vêm sob encomenda. Até porque, se existisse, eu o teria do meu lado, estaria feliz e sendo muito bem amada.
Ah, e eu não estaria aqui na Itália. Tudo bem que existe o lado bom, consegui me reconciliar com meu pai e nosso relacionamento está ótimo. Ele parece estar querendo compensar tudo que aconteceu no passado. Confesso que metade dos meus problemas de auto estima poderiam nunca ter vindo a aparecer se ele tivesse sido mais presente. E, se eu tivesse um Rafael desde o começo da minha vida.
Conviver com ele está sendo mais fácil do que imaginei. Mesmo depois daquela bomba que soltou quando eu estava no hospital. Lidar com os sentimentos do Rafa não foi lá muito simples, passei até um tempo ignorando-o e tentando deixar claro que não quero nenhum tipo de envolvimento com ninguém e com nada que não seja o meu vibrador. Até que, por um milagre de Deus, ele conseguiu entender e deixar essa história de amor para trás. E, acreditem, eu nunca vi seis meses passarem tão rápido , como esses. E, sim, ainda estou impossibilitada de dançar. Não com um gesso e nem é para sempre. Na verdade, só vou ficar com essa bota horrível até a semana que vem.
E não importa oque eu diga e a quem eu apele, ninguém me deixa dançar! Só posso entrar no estúdio se estiver com aquele muro irritante do meu lado e só se eu ficar quietinha, só olhando, jogando, fazendo tudo que não envolva me levantar e rebolar. E nem cantar, já que tento desconcentrar o Rafael com a minha desafinação. E, na boate, eu entro se ficar com o papai, se não for isso, é casa e casa. Resumindo? Estou tão entediada que tocaria fogo em qualquer canto para ter um pouquinho de ação na minha vida. Por isso estou indo implorar, literalmente, para que o meu querido amigo me deixe olhar um pouco do ensaio e até dançar um pouquinho. A última parte, obviamente, irei deixá-la bem omitida.
Subi a escada de casa com um tiquinho de dificuldade, meu pé ainda dói um pouco. E essa bota ortopédica é tão horrorosa quanto desconfortável, ela coça e incomoda ao extremo.
O meu plano era o seguinte:
Bater na porta do Rafa e sair correndo desesperadamente.
Só que não.
Tudo bem, não vou ser mentirosa e dizer que essa não foi a primeira coisa que pensei e que só não permaneci com essa ideia porque me dei conta do quão estúpida ela é. Imagina, como ele vai saber que eu quero dançar se eu não deixar um bilhetinho antes de correr? E tem que ser com aqueles post-it's fluorescentes.
Brincadeiras á parte, não vou fazer isso. Só baterei na porta e conversarei civilizadamente com ele, sem brigas, nem nada desse tipo. Como uma adulta responsável que eu sou, não a adolescente teimosa que insiste em aparecer quando estou na presença daquele i****a.
Idiota do bem, O.k?
O quarto do Rafael se mudou para o fim do corredor, um pouco distante que o meu. Acho que o papai fez isso para zelar a segurança. Coroa esperto, não queria que o pseudo filhinho dele aparecesse assassinado na nossa primeira discussão. Não que eu seja capaz de fazer uma atrocidades dessas, já viram o tanquinho dele? É uma louc... E lá vem essa coisa de novo. Isso é que dá, ter que conviver todo dia um i*****l estupidamente bonito e estar mais carente que pé de palmeira na casa de um executivo — eles trabalham tanto que m*l conseguem regar a planta... Entenderam?
Depois de exitar por uns dez minutos, comecei a bater loucamente na porta. Tipo, sem parar.
— Morreu o galego, por acaso, Cetim? — Falou, com a voz tão rouca quanto sonolenta. Até parece que ele estava dormindo, isso deve ser só um truque para me exp...
Puta que pariu.
Meus olhos desceram pelo corpo de Rafael, sem nenhum pudor — oque é isso? Nunca ouvi essa palavra na vida! — um senhor tanquinho, a cueca boxer vermelha contrastando com a pele branca dele, apertadinha nas coxas grossas e torneadas, tenho certeza que se ele virar, vou ser agraciada com a visão de uma bundinha deliciosa.
Céus, e oque falar desse volume que m*l conheço e amo "pakas"?
— Hã? — O prêmio de maior débil mental vai para Emily Wither. Obrigada, obrigada.
A risada que ele deu não foi nenhum pouquinho discreta. Alta e muito chata pro meu gosto. Não tenho culpa que Deus está me testando — pense em uma digna prova de fogo —, acho que o nome do teste é "como não agarrar o irmão do seu quase-futuro-ex-namorado". Tenho que me controlar e não deixar a carência me tomar por completo.
É só um homem. Delicioso. Gostoso. Enorme... Ah, p***a. É impossível.
— Limpa a baba, linda. — Tá, isso foi o suficiente para cortar qualquer onda e me lembrar de quem se trata. Bonitinho mas ordinário. Esse ditado cai bem para ele, tão bem quanto essa boxer... Foco, Emily. Você veio com uma missão, se concentre nela, só e exclusivamente nela e não conte quantos gominhos ele tem...
— Oito. — Falei alto, tapando a boca rapidamente. Ele só riu, balançando a cabeça.
— Vem, entra, vou te mostrar a minha toca... — Piscou e eu automaticamente pensei em uma rima e outra coisa que eu gostaria que ele me mostrasse. Rafael abriu o caminho para mim que, aos poucos, cedi e entrei no quarto. Não era como pensava, oque vocês já podem deduzir que eu achava que o ambiente deveria ser semelhante a um chiqueiro. Ou até pior.
Eu estava enganada, o quarto que ele denomina de "toca" é organizado, cheiroso... As paredes pintadas com uma mescla de vermelho e cinza, uma cama do tipo king size e muito bem arrumada. Isso porque nem vou mencionar os cd's e a estante entupida de livros.
Rafael olhava tudo calado, oque me fez lhe dar uma encarada rápida.
O silêncio dele é raro.
— Então, Emmy... Oque veio fazer aqui? — O tom de voz dele era calmo e passivo. — Você sabe que o Tony odeia que suba as escadas sozinha, podia ter me chamado para ajudá-la, não tenho esse alarmezinho aqui a toa. — Apontou para o pequeno aparelho grudado na parede, me fazendo revirar os olhos. Papai havia insistido em colocar um em seu quarto e outro no do Rafael, dizendo que eu poderia cair ou bater o pé em algum canto. E bem, não adianta mandar esses homens procurar tratamento psicológico. Parece que eles amam me controlar. — Quer ajuda com algo?
Medito um pouco sobre oque vou falar e resolvo andar um pouco pelo quarto, saboreando a decoração e os detalhes. O notebook jogado na cama, algumas folhas e apostilas e, pasmem, um óculos de grau perto dos papéis. Já estava me virando para finalmente dizer alguma coisa coerente, quando dou de cara com um espelho gigante acoplado no guarda-roupa. Meu susto não foi por conta do espelho ou o tamanho dele, mas sim, o meu reflexo e o meu tamanho. Estou muito gorda.
Sem pensar na companhia, levanto um pouco a minha camiseta, não consigo desgrudar os olhos da minha barriga saliente. Da última vez que me pesei, estava com noventa e três quilos. Para uma pessoa com a minha altura isso não é muito bom. Só não sei o porquê de estar com vontade de chorar, nunca me importei com essas coisas! Sempre dei dedo para os padrões e segui a minha vida sem me privar dos prazeres da gula. Sofie e Rebeca até controlavam um pouco a alimentação. Tentaram muitas vezes me arrastar para algumas aulas na academia com elas e eu nunca quis, preferia ficar em casa, comendo alguma besteira e tomando muito, mais muito refrigerante.
— Mily, você está bem? — A voz do Rafael se arrastou quando pronunciou o apelido que tinha me dado e a qual acolhi com um carinho imenso. Adorava sentir a forma que ele acentuava o "Mi", era completamente italiano. Mas, apesar do meu coração ter esquentado um pouco com a demonstração de afeto, eu não me sentia bem.
Só balancei a cabeça negativamente, soltando a ponta da camiseta e percebendo que algumas lágrimas já molhavam o meu rosto. Não dava para segurar, eu estava me sentindo m*l, fisicamente, sentimentalmente... Como tudo pode mudar de um segundo para o outro? Isso é possível? Entrei aqui decidida a pedir para dançar um pouco e agora estou com toda a minha auto estima na ponta do dedo midinho do pé. Porque a realidade tende a ser tão c***l?
Rafa dá algumas passadas, ficando próximo mas, mesmo assim, respeitando meu espaço.
— Quer me dizer oque houve? Está com dor? O pé está latejando? Emmy?
Rio fraco, tocada com a preocupação dele. Ele só franze o cenho, se aproximando um pouco mais, ficando ao meu lado. Encaro a diferença dos nossos reflexos, ver isso só me faz soltar um soluço alto. Meu cabelo estava preso em um r**o de cavalo meio bagunçado e os meus olhos completamente vermelhos, nada em comparação ao deus grego só de boxer ao meu lado.
— Olhe para mim, estou enorme! — E mais lágrimas escorrem, não me sentia mais tão bonita. A vontade de dançar até desapareceu. Não quero ir, não quero me mostrar. Rafael observava tudo com os olhos arregalados. Como se eu tivesse acabado de falar alguma atrocidade. — Oque é?
— Você não está gorda, nem enorme!
Encarei aqueles olhos azuis escuros pela primeira vez naquela noite. Como tudo que fiz desde que vi ele, não calculei o movimento de subir toda a camisa e jogá-la longe, é meio difícil de admitir, mas eu estou completamente descontrolada. Lá no fundo do meu consciente eu sei que a minha sanidade não é uma das mais completas agora.
— Olha o tamanho dessa barriga! A quantidade de gordura! — Apertei uma das minhas "dobrinhas". Não me importo de estar vestida apenas com um short desgastado e um soutian velho. Os números, o espelho... Tudo resolveu ir contra mim? Hoje é o dia de chorar até desidratar? Porque não me avisaram antes? Eu poderia ter ido para um desfile de lingerie.
Olho pro reflexo, vendo que o Rafael não consegue tirar os olhos do meu corpo. Só era oque me faltava e ao menos consigo me importar com isso. Ele deve estar procurando um defeito que não vi. Deveria passar um papelzinho para ele fazer uma lista. Do jeito que me olha deve saber até quanto calço.
Esse pensamento só acende mais uma faísca, bruscamente, viro de costas, vendo uma dobra gigante perto do feixo do meu soutian. Até aqui, Deus?
— Essa merda! Eu só gostaria que isso nunca tivess... — Começo a espernear e me mexo como uma criança birrenta, mas logo paro. Com os pulos e movimentos exagerados o pequeno ferrinho que ligava esse maldito soutian caindo aos pedaços, arrebentou. Sim, a única coisa que segurava os meus s***s nessa situação — que já era constrangedora o bastante —, acabou de cair no chão. Arregalei os olhos, sem reação nenhuma. Não vou olhar para cara do Rafael, Não vou olhar para a cara do Rafa...
(Dê o play)
— Uau. — É inevitável, me viro para fitar o rosto dele, obviamente, cobrindo meus s***s com o braço. Não que adiante muito já que eles são enormes. Os olhos do Rafael não estão mais azuis, pareciam ser pretos, eles escureceram completamente. Foi minha vez de franzir o cenho confusa. Se fosse em outra situação, eu sairia correndo e gritando, até porque essa coisa de escurecer os olhos que os irmãos Ferraz tem, as vezes me assusta.
Ele me encarou por um longo tempo.
Virei meu rosto para o espelho, deixando mais uma lágrima escorrer.
— Emily, não chora.
— Nunca te disseram que quando manda uma pessoa não chorar, ela chora mais ainda? — Reclamo, observando ele juntar as sobrancelhas e fazer uma cara de puro desespero. Vou ser má se rir dessa cara de b***a? Espero não ir pro inferno...
— Eu não sei oque fazer quando choram perto de mim... Eu simplesmente fico louco!
Cubro o rosto com as mãos, meio que soluçando e meio que rindo. Na verdade, estava dando uma das minhas risadas escandalosas, só não queria que o coitado percebesse que eu estava rindo dele.
— Pelo amor de Deus, Cetim... Mily... Para! — O tom de voz do Rafael esganiçou, ele realmente está começando a enlouquecer, mas eu não consigo parar de rir! É difícil e vou acabar ficando sem ar. Escutei ele correr e voltar rapidamente, abro uma frestinha entre os dedos para ver oque o doido foi fazer e dou de cara com um cachorrinho. Não, não é de pelúcia, é de verdade! — Toma, eu ia te dar mais tarde, achei que ia gostar de ter uma companhia mais gostosa do que eu, não que isso seja possível, esse pestinha já sujou meu quarto todo e fica latindo pra mim! Toma, é seu!
Minha crise de risos cessou na hora e bem, ele percebeu que eu estava morrendo de gargalhar e não de chorar por causa do meu corpo.
Peguei o belo cãozinho de pelo mesclado e perdi o fôlego. Era completamente deslumbrante. Tinha os olhos azuis tão claros quanto os do Samuel. Cristalinos e até meio lupinos. Ainda mais me olhando dessa maneira tão fofinha e com a pequena língua de fora. Uma graça.
— Pra ela você não late, não é? — Disse a contragosto como se o cachorro fosse aquiescer a essa afirmação. Soltei um sorriso involuntário, esse cara é doidinho de pedra e se eu não tomar cuidado, vou ficar igualzinha a ele. Se já não estou. — Gostou?
Abri um sorriso, erguendo o filhotinho que ainda me olhava com carinho e, óbvio, a língua de fora.
— Amei, Rafael! — Respondo, animada. Lanço um olhar para o Rafael, sendo que seus olhos não estão em meu rosto, estão em outra parte de mim... Ai meu Deus! Esqueci que estou sem soutian. Devagarzinho, deposito meu lindinho na cama, vendo-o rolar no meio dos lençóis do Rafa. Puxo um e rapidamente me cubro. Olhando um bico se formar automaticamente nos lábios daquele safado. Quem é rei nunca perde a majestade.
— Aaaaah... — Geme em reprovação e eu solto uma gargalhada miníma. — Pensei que estava me presenteando também, porque se cobriu logo? Só mais uma tiradinha? Dez segundos?
Balancei a cabeça negativamente, ainda sem conseguir parar de sorrir. Toda a aflição que havia sentido antes, se esvaiu como fumaça. Depois de ver aqueles dois pares de olhos azuis, os brincalhões e escuros do Rafa e os cristalinos, puros do Brutus.
Sim, eu já decidi o nome.
— Tá bom, me conformei já.
— Ainda bem, odiaria te matar por ter visto as minhas joias.
Ele riu e fingi desdém, erguendo o queixo de forma autoritária.
— Já decidiu o nome do filhote de d***o da Tasmânia ali? — Perguntou e eu deitei de qualquer jeito na cama, pegando a pequena bolinha de pelos e colocando-a em cima da minha barriga. O Brutus não parecia esse pestinha que o Rafael fala. O cachorrinho deitou a cabeça entre os meus s***s e continuou me encarando com os olhos azuis grandes e lindos. — Agora estou com inveja dele.
Mostro o meu dedo do meio e acaricio de leve as orelhinhas do Brutus.
— O nome dele vai ser Brutus.
Rafael riu, jogando a cabeça para trás. Ergo minhas sobrancelhas.
— "Até tu, Brutus?" Só você mesmo, Emmy. — Revirei meus olhos, sorrindo. Eu gostava de como o nome soava. E combinava com aqueles pelinhos e olhinhos fofos! — Mas até que combina com esse traidorzinho pequeno, ele me trocou por você. Não vou superar isso tão cedo.
— Aceita que dói menos, darling. — Pisco, ajeitando o travesseiro de forma que ficasse mais confortável. O olhar do Rafa cai nas minhas pernas e eu bufo. Ele definitivamente está querendo me irritar. Mas, a propósito preciso agradecer pelo presente.
Chamei-o com dedo.
— Vem cá.
Nunca vi ele agir tão rápido. Em um milésimo, Rafael estava sentado do meu lado com um sorriso que não cabia no rosto. Deus, porque ele tem que ser tão i****a?
— Vai se declarar agora? Sou todo ouvidos.
— Fica quieto! — Reclamo e me inclino. Só que, previsivelmente, ele achou que eu iria beijá-lo na boca e já veio para cima, me fazendo trazer a cabeça para trás, afastei-me o mais rápido possível. Parecendo entender, Rafa aquiesceu e esperou. Voltei a minha posição e depositei meus lábios em sua bochecha. — Obrigado, tá?
Ele corou, dando uma leve coçadinha na nuca e sorrindo.
Minha gente, Rafael Ferraz corou. Vai chover coca-cola, — e eu vou estar lá para encher uma cisterna.
Sorrio, mordendo de leve meu lábio inferior. Realmente espero que ele concorde com o meu pedido.
— Não foi nada. — Acenou, lançando o olhar para o Brutus, que nos fitava atentamente.
— Não estou agradecendo por isso, estou agradecendo por me deixar dançar.