Capítulo 10

1725 Words
Não encontrei mais Noah, Gabriel e Safira me levaram embora. Tentando a todo custo me distrair dos acontecimentos recentes, aliás, não sei se ele ficou ou se também partiu. Não vi Felipe, o tal namorado da Safira, presumi que estivessem juntos. Os "irmãos" acabaram me contando que na verdade o laço era somente por consideração. O pai do Gabriel casou com a mãe da Safira quando ambos eram muito pitocos e eles cresceram juntos. Agora, consequentemente, ambos se intitulavam irmãos de verdade. Soube, também, que Gabriel tinha uma outra irmã de sangue que morava com o pai e a madrasta em outro país. Gabriel e Safira viviam sozinhos. Enfim, minha cabeça girava, não assimilando totalmente informações recentes. Com calma, depois, eu tentaria entender como funcionava a relação familiar dos meus novos amigos. Num futuro próximo pensaria em perguntar mais sobre o tal racha que eles todos aparentemente participavam. Não era seguro, queria que ao menos Noah parasse com aquela prática. Suspirei, não era da minha conta, não disse que desisti dele? Pois então, devia ser mulher suficiente para aguentar. A questão é que eu sentia algo surgindo no meu coração, um sentimento desconhecido e ao mesmo tempo pulsante. Que não tinha nada haver com Pamela ou o meu anseio de resgatá-lo. Sendo sincera, não conseguia deixar de pensar no beijo que trocamos. Apesar de tudo, de tê-lo visto se agarrando com Shaiene, de ter perdido minha amiga. De estar sofrendo por tantas coisas, ainda assim, pensava no e se. Se fosse eu no lugar dela? Droga, eu era uma otária assumida mesmo. Acho que os irmãos rapidamente perceberam que eu estava abalada e confusa, tanto que não forçaram conversa muito mais. Fizemos o restante do percurso em silêncio, agradeci por meus pais já estarem no trabalho. Pois não precisaria me explicar em detalhes. Inclusive, eu deveria perguntar como Safira conseguiu a proeza de acalmar minha mãe na atual conjuntura dos fatos. Se bem que, olhando para a garota de cabelo rosa agora, presumi que ela seria capaz de persuadir qualquer um a fazer tudo o que desejasse. Gostaria de ser mais como Safira, talvez desse modo conseguiria convencer Noah a procurar ajuda. Mesmo que não fosse a minha. Despedi-me deles, agradecendo por todo o apoio e compreensão, informando que entregaria em breve a roupa do Gabriel. Passei meu número para Safira, porque ela quis manter contato comigo e saí do carro. Notei os olhos do garoto ruivo em mim, mas ignorei. Ele era uma graça, sem dúvidas, só que não fazia sentido me deixar levar. Estava ficando óbvio o que passei a sentir por Noah, ainda que fosse singelo. Meu sentimento por ele se fortalecia, apesar do pouco tempo que nos conhecíamos. E, mesmo com toda a urgência que Noah empenhava em me manter afastada, resolvi assumir ao menos para mim. Sim, eu nutria sentimentos além do que deveria — ou era racionalmente aconselhável — por ele. Era ainda pior constatar essa verdade, por que Noah teve de me beijar? Por que me torturar desse jeito, apenas para esfregar outra garota na minha cara? Seria melhor me manter longe de uma vez por todas, contanto que Noah ficasse bem. Não importava que estivesse com outra, eu logo superaria. Era apenas uma atração boba, desencadeada por eventos isolados. Certo? Queria acreditar nisso para o meu próprio conforto emocional. Não obstante, foi impossível não lembrar das nossas primeiras conversas. Quando tudo era leve e havia tanta esperança e planos para um futuro próximo. Noah confessando ter se interessado por mim... Essas lembranças pareciam tão distantes, eram como se nem tivessem de fato acontecido. Esse tal futuro nunca chegaria, a realidade era bem mais amarga. Joguei-me na cama, pensando em ligar para Larissa quando acordasse. Eu queria minha pentelha perto de mim, sei que já falei isso. É que colo de irmã me faria muito bem agora. (...) Acordei ainda sonolenta, tateei em busca do celular para ver que horas eram. Quando ouvi a campainha, quem poderia ser? Cambaleante, levantei. Meus olhos m*l abriam de sono e melancolia. Mas, quando atendi, o órgão que tecnicamente só deveria bombear sangue, se agitou. Era como se estivesse rodopiando dentro do meu peito. — Noah? — gaguejei, surpresa. Seus olhos estavam vermelhos, ele parecia ter chorado muito. — Luana, eu não aguento mais… — despejou desesperado. — Não aguento mais essa dor, só… — hesitou —, me ajuda a fazer parar? — me joguei em seus braços, envolvendo sua cintura. Ao passo que ele retribuiu me apertando contra si de um jeito quase possessivo. — Eu te ajudo. — sussurrei rente ao seu peito, minhas lágrimas molhando sua camiseta. Noah não parecia se importar. — Por favor, me desculpe por tudo. — meu coração ficou morno e calmo de repente. — Me desculpe pelo modo como agi. Eu só… ainda não sei como lidar com isso, gosto de você, Luana. De um jeito diferente, mas não tenho certeza se consigo ficar perto. Por mais que eu queira e isso está me matando por dentro. Funguei. Aquele abraço era tudo o que eu queria, tudo o que necessitava. Ainda que as palavras acompanhantes do gesto que tanto esperei não tenham sido exatamente uma declaração de amor. Só que era um começo, certo? Droga, meu coração bobo já estava se entregando novamente. Eu devia ser menos emotiva, pensar com a razão. — Tudo bem, se quiser ficar longe de mim. Compreenderei. — fiz menção de me afastar, mas Noah não permitiu. Segurando-me mais firme contra o peito. — Não quero mais ficar longe de você, ainda que me doa. Ainda que eu lembre da minha irmã estando ao seu lado. Preciso aguentar, a dor será bem-vinda se me fizer lembrar dela. — respondeu, afastando o corpo minimamente para olhar em meus olhos. Tocando meu queixo carinhosamente, acrescentou: — Eu quero ficar perto de você a partir de hoje, Luana. Se me permitir. Prometo tentar melhorar, só... tenha paciência comigo. — pediu, suplicando. Fiz que sim com a cabeça. — Eu quero que fique bem, independentemente de qualquer coisa. — afirmei, tentando ignorar meu coração surtado pela nossa aproximação. — Me dá um tempo para assimilar tudo isso? Prometo não cometer nenhuma loucura. Não participarei mais de rachas. — assenti, fingindo um entusiasmo que não sentia ao todo. Não com ele me pedindo um tempo. Eu queria ficar próxima, só que Noah parecia não querer estar perto de mim. Não ao ponto de realmente estar. Bom, não podia ser egoísta, ao menos ele ficaria bem. Talvez procurasse ajuda, talvez Shaiene o ajudasse. Era melhor ela do que ninguém. Meu coração se entristeceu novamente ao pensar nessa possibilidade. — Tudo bem, sua namorada pode te ajudar a superar o luto. — exalei, por fim, desvencilhando-me de seu abraço. Prolongar o contato apenas aumentaria minha dor. — Não estamos mais juntos, não fazia sentido. Não faz sentido ficar com alguém sem gostar, só para tapar um buraco. — confessou, cada célula do meu ser se agitando ante aquela informação. Apenas para eu ver minha esperança ruir novamente. — Na verdade, vim me despedir por um tempo, Luana. Por mais que eu queira ficar perto de você, não sei se serei capaz e... — hesitou, procurando pelas palavras. — Não tenho nada aqui, estou completamente perdido. Preciso de ajuda, por isso estou voltando para a Nova Zelândia. Consegui falar com meu padrinho e infelizmente ele não pode vir para cá, assim, do nada. Eu não tenho mais o que me prenda aqui, resolvi voltar... Ficar perto da única família que me restou. Pelo menos até conseguir colocar a cabeça no lugar. — pronto, lá estavam as lágrimas gordas e espessas se insinuando em meus olhos. — Você. Vai. Embora? — consegui articular com dificuldade, buscando esconder a decepção em minha voz e falhando miseravelmente. — Vou, não sei por quanto tempo. Pode ser um mês ou um ano, não sei ao certo. Contudo, não quis ir sem me desculpar com você, sem deixar claro que é importante pra mim e que não quero mais me manter afastado. Sem poder conversar com você. Por isso vim te pedir perdão e... Dizer até logo. — doeu. Doeu mais do que pensei que fosse suportar, doeu muito levando em consideração que o conhecia tão pouco. Caramba! Por quê? — Por que veio me dizer sobre querer um tempo para assimilar tudo e decidir se consegue ficar próximo de mim se vai embora? Por que me beijou, Noah? — despejei do nada. — Por que fez isso, despertou sentimentos no meu coração para agir desse jeito em seguida? Pra me largar aqui sozinha? Tá doendo aqui também, sabia? — coloquei a mão no peito. — A Pam era minha melhor amiga e você foi tudo o que ela me deixou. Agora também está indo embora, ficarei sozinha… — e eu estava chorando. Droga, eu só sabia chorar nessa merda? — Me desculpa! — exclamou exasperado. — Fiz aquilo porque precisava, queria ao menos provar o gosto do seu beijo. Não era justo ter que me afastar sem ao menos isso. — funguei novamente — Quero manter contato com você, Luana. Quero que vá me visitar daqui um tempo, ou eu virei te ver... — balancei a cabeça, sem querer ouvir a despedida. — Eu só preciso me orientar. Quero você na minha vida, mas estou quebrado. Não seria justo te envolver nisso, ainda não sei o que fazer. Ainda estou perdido... Não vim te magoar, apenas pedir que me dê um tempo para me curar. Não posso oferecer nada a você no estado que estou. Não posso oferecer nada a ninguém assim... — sua voz passou a soar falhada. Noah estava chorando também, era como um dilúvio. Praticamente como se eu conseguisse sentir o cheiro do sal que emanava das nossas lágrimas e se misturavam no ar que respiramos. Não gostava de vê-lo chorando, meu coração doía só de olhar. Contudo, já estava ferida demais para focar na dor dele. Dessa vez eu seria egoísta e olharia somente para a minha. E, cara, como estava doendo. Uma dor aguda bem no centro do meu peito, que irradiava para cada partícula do meu corpo. — Então adeus, Noah. — cuspi as palavras, virando as costas. É, definitivamente eu não era nada. Nada que fizesse Noah querer estar ao meu lado.
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