Capítulo 6

2078 Words
"Eu nem sequer conheço a mim mesma Pensei que estaria feliz a esta altura Quanto mais eu tento forçar, mais percebo que tenho de abrir mão do controle Tenho que deixar isso acontecer Tenho que deixar isso acontecer Tenho que deixar isso acontecer Então, deixe que isso aconteça" Nenhum de nós dois estava com cabeça para lidar com a burocracia. De modo que meus pais resolveram tudo, infelizmente não tínhamos muito dinheiro sobrando, então todo o gasto ficou para Noah. Ainda não conseguia acreditar, na verdade, parecia um pesadelo em que eu acordaria em breve. Combinamos de tomar um café, de conversar. Antes mesmo de ela decidir pegar as malditas folgas ou marcarmos o almoço no shopping. Por que aconteceu tudo aquilo? Não era justo! Eu já não tinha mais lágrimas para chorar, chorei o que podia e o que não, nos poucos momentos que fiquei longe do Noah. Na frente dele eu tentava ser forte, porque o via prestes a desmoronar. Contudo, não dava para disfarçar após o velório, iria acabar em breve e eu não conseguiria suportar a dor da perda. Meu rosto devia estar todo inchado e vermelho do choro recente e Noah não estava muito melhor. Era de partir o coração olhar para seus olhos azuis, antes tão brilhantes, agora opacos e vermelhos. Noah ficou o tempo todo agarrado comigo no funeral. Ele simplesmente não desgrudava de mim e eu compreendia o porquê. Portanto, não tinha como observar seu rosto. Ele era bem maior, então eu ficava escondida em seu peito. Enquanto Noah mantinha os braços protetoramente em torno de mim. Ambos procurando forças um no outro. Muita gente estava ali, pessoas que eu não conhecia. Amigos da Pam, colegas de trabalho, era uma infinidade de gente. Noah tentou contatar o padrinho, mesmo que ele não chegasse a tempo, só que, pelo que soube. Ele era biólogo na Nova Zelândia e às vezes ficava fora de órbita. Em lugares onde a comunicação não era possível. Ou seja, de familiar ali só havia Noah. Meus pais estavam sendo muito gentis com ele, fazendo o possível para diminuir o clima horrível que se seguia. Noah ficou em casa enquanto resolviam as questões necessárias e cogitaram passar no cartão toda a despesa, para não ter que recorrer a ele. Só que Noah era muito responsável e insistiu em cobrir os gastos. Com ele grudado em mim, ao lado de pessoas que eu sequer conhecia, seguimos para a parte final. Ninguém ousava falar mais do que "sinto muito" ou "meus pêsames", ele não dava atenção. Só balançava a cabeça afirmativamente em um gesto automático. Em seguida me apertava mais contra si, como se eu fosse uma espécie de escudo. Fiz o possível para mantê-lo afastado e lhe dar um pouco de privacidade e silêncio. Já estava sendo doloroso ter que se despedir, ouvir o lamento de outras pessoas não ajudaria em nada. Em dado momento, Noahcolocou um enorme óculos escuro no rosto e pareceu se desligar do mundo. Seu aperto em mim afrouxou, era como se ele não estivesse mais ali. Caminhamos em silêncio, agora eu mais agarrada a ele do que ele a mim, e quando percebi que estava acabado o grito de dor ficou preso na minha garganta. Noah me soltou e caminhou até onde jazia enterrado o corpo sem vida da Pam, pelo que soube próximo dos pais. Ele murmurou algumas palavras que eu não ouvi e na sequência me puxou para um canto afastado. Ainda de óculos escuros, de modo que eu não conseguia olhar em seus olhos. Tocou meu queixo e acariciou de leve meu rosto, forçando um sorriso por trás da carranca de dor e sofrimento. Sua voz soou arrastada, frágil, quando enfim, falou: — Obrigado por tudo, Luana. — ele se demorou com a mão entre meu pescoço e minha bochecha. — Obrigado por ter ficado ao meu lado. — Não precisa agradecer. — respondi, minha garganta estava seca e áspera. Por que eu sentia que aquilo era uma despedida? — Pode voltar com a gente, ficar na minha casa por enquanto, Pam não queria que ficasse sozinho. — Eu preciso refletir sobre minha vida. — foi sua resposta — Agradeça aos seus pais por mim. — inclinando-se, ele encostou levemente a boca na minha. Foi sutil e rarefeito, seus lábios tinham gosto de sal e lágrimas. Fechei os olhos para apreciar o beijo, mas da mesma forma que veio, acabou. Em um passe de mágica, foi o beijo mais efêmero que já provei. Quando abri os olhos, Noah não estava mais diante de mim. O vi caminhar para longe e imediatamente senti um aperto no coração. (...) A dor ardente e pulsante queimava meu peito, mas eu sabia que devia estar sendo mil vezes pior para Noah. Faz uns quatro dias que eu não conseguia contato com ele, mandei mensagem nas redes sociais. Com muita dificuldade em sair da minha própria casa, pela tristeza que me acometeu. Fui até a casa da Pamela e nada, era como se Noah tivesse evaporado do mapa. Liguei no antigo número da minha amiga, pensando que, só talvez, ele podia ter mantido ativo para o caso de emergência. Ou melhor dizendo, para a pobre e desesperada Luana conseguir localizá-lo. Entretanto, foi em vão. O número havia sido desativado, claro, Noah não iria querer ficar com aquela lembrança dolorosa da irmã. Meus pais tentavam me consolar, garantindo que Noah só precisava pensar sozinho um pouco. Eu, por outro lado, sentia uma certa urgência em falar com ele logo. Tinha medo de que se sentisse solitário, medo que Noah se perdesse na própria dor. No quinto dia, eu deixei uma mensagem no YouTube, explicando meu luto e informando o afastamento do canal. Não que eu tivesse tantos seguidores, no entanto, achei que precisava dar uma explicação. Eu não tinha vontade alguma de gravar, apesar de passar todos aqueles dias cantando e dedilhando notas aleatórias no ukulele. Buscando amenizar minha dor, a música costumava me acalmar nos momentos mais inoportunos. Só que agora eu acabava chorando sempre no meio do caminho e estava tudo bem. Era preciso deixar limpar. Meus pais estavam sendo prestativos e solidários comigo, porque eu não tinha muita força para sair do quarto. Larissa soube e me ligou, informando que viria para casa cuidar de mim. Aceitei sem protestar, eu queria um pouco do colo da minha irmã. Pensei, aliás, em Noah sozinho e decidi que era hora de montar acampamento na frente da casa dele. Eu tinha de saber como ele estava, se eu sentia um buraco no peito. Como Noah devia estar? Pedi à minha mãe que fizesse comida e sobremesas para levar. Perguntando-me se ele estava se alimentando direito naquele período complicado. Parti rapidamente. Eu ficaria na frente da casa dele até que decidisse me atender, Noah não fugiria de mim muito mais tempo. Com passos lentos e deliberados, além de um rosto possivelmente abatido pelo luto. Segui pelas poucas ruas que separavam nossas casas. Meu coração era um misto de desespero e saudades. Busquei não pensar muito no beijo singelo que trocamos há alguns dias. Aquilo havia sido apenas uma resposta à dor dele, uma forma de agradecer. Não sabia ao certo. Ainda assim, tinha medo de que, de fato, tivesse sido o que eu senti que foi. Uma despedida. Afastei o pressentimento e tentei melhorar minha expressão, não seria bom que Noah me visse tão acabada. Por um instante, me culpei por não ter ao menos feito uma maquiagem leve, para disfarçar minhas olheiras. Eu queria ser forte por ele, para que Noah não desmoronasse. A questão é que eu não estava lá superando da melhor forma. Talvez pudéssemos nos apoiar um no outro. Foi com esse pensamento que foquei os olhos na cena completamente desconexa e absurda que vi a seguir. Na frente da casa, um cara de costas, sem camiseta, se agarrava com uma garota loira. Não podia ser Noah, Pamela não mencionou que o irmão tinha uma tatuagem gigante de dragão nas costas e que... Ele tinha uma Ducati? Não, tinha de ser outro, um sósia, qualquer coisa. Me recusava a acreditar no que meus olhos viam. Em qual planeta Noah estaria se agarrando com uma mulher cinco dias depois da irmã ter falecido? Deslizei meus olhos pela tatuagem, estava vermelha e parecia na fase de cicatrização. Arquejei quando ele se virou lentamente para observar a rua e seus olhos encontraram os meus. Era Noah. Minha pernas fraquejaram, uma pontada aguda de ciúmes doeu no meu coração. A garota loira me olhou desconfiada, franzindo o cenho. Noah engoliu em seco, estreitando os olhos azuis, ainda opacos. Olhos vazios de uma angústia escondida. As palavras da Pam ecoaram em minha mente. "...e você, Noah. Não se isole, não fique revoltado com o mundo..." Baixei meu olhar para seus lábios, ainda que estivesse um pouco longe, conseguindo visualizar um ponto brilhando ali. Era uma argola pequena, adornando seu lábio inferior. Me aproximei, sentindo meu coração acelerar feito um cavalo de corrida. — O que você está fazendo? — eu quis saber, meu peito apertado ao ver como Noah segurava aquela garota possessivamente pela cintura. Tentei ignorar o ciúme e ser prática, aquilo não era certo. Não podia ser. — Luana. — sua voz soou baixa e incrivelmente rouca nos meus ouvidos. Senti saudades daquele som. Só que agora estava carregado de um certo pesar e algo mais que não consegui identificar. — O que está fazendo? — tornei a perguntar de forma inquisitiva. — Fazendo o que minha irmã pediu, seguindo com a minha vida. — respondeu, dando de ombros e apertando a garota ainda mais contra si. — Vo-você comprou uma moto? — estava absorta na cena que eu via. — É uma Ducati, bacana né? — a garota falou por ele, sua voz era sensual e melodiosa. Eu quis morrer. — Sei que é uma Ducati, tá escrito nela. Eu sei ler. — revidei e olhei para Noah: — Você comprou uma Ducati? — quase gritei. — E a casa? — A casa seria para a Pam, eu não preciso de uma. — suas palavras soaram cheias de amargura. Meu peito ardeu. Olhei para a argola adornando sugestivamente seu lábio inferior, a parte de baixo ainda ostentava um inchaço sutil. Aquele piercing era muito recente, assim como a tatuagem em suas costas. Observei seu cabelo incrivelmente curto, Noah estava mais lindo que nunca com aquela pinta de badboy. O único problema é que eu pressentia algo errado, eu sabia porque ele me contou como se sentiu quando os pais morreram. Se fosse em uma outra situação, teria até achado atraente e gostado. A questão é, eu compreendia o propósito de tudo aquilo. Apenas uma forma equivocada de protesto, um jeito rebelde que Noah encontrou para mascarar a própria dor. — O que significa isso, Noah? Você fez uma tatuagem? Comprou uma moto e botou um piercing? — eu pisquei, tentando me orientar. Olhei para a garota e minha coragem fraquejou. — O que... — limpei a garganta para continuar: — O que sua irmã pensaria disso tudo? — Bom, ela não está mais aqui para reclamar, né? — ele deu um sorriso sarcástico e montou na Ducati vermelha. A garota o imitou, subiu na garupa, grudando os s***s nas costas desnudas dele. Noah estremeceu, talvez por causa da tatuagem não totalmente cicatrizada. Eu arfei. — Não precisa vir mais aqui me procurar, eu devolvi a casa. Estou ficando com a Shaiene agora, então, acho que é um adeus. — fez uma pausa curta, parecendo se recuperar e logo emendou: — Obrigado por tudo, Luana. — o ronco do motor rugiu, ele acelerou mais do que parecia ser necessário para aquele monstro vermelho. Quando deu um último olhar para mim, seus olhos estavam subitamente brilhantes e aguados. Eu fiquei lá, segurando uma caixa de isopor feito otária. Demorou o que pareceu uma eternidade até que eu tivesse forças para voltar a andar. Não podia trazer de volta toda a comida que minha mãe fez para ele. De modo que a ofereci a um grupo de moradores de rua, que ficaram muito felizes com o alimento fresco. Meu rosto agora estava banhado em lágrimas e eu respirava com dificuldade. Sentei em um banco de praça e permaneci perdida. Era assim que eu me sentia. Suas palavras soaram como adagas atingindo diretamente meu coração. Eu estava à deriva, assimilando aquela sentença. Noah não queria minha ajuda.
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