— É tudo minha culpa, eu choraminguei feito um bebê chorão quando ela foi trabalhar. — ele tombou a cabeça no meu ombro, afaguei seus cabelos. Meu coração era apenas um ponto comprimido no centro do peito. — Ela deve ter se sentido culpada por me deixar sozinho, por isso pediu que te procurasse. Depois voltou atrás e conseguiu folga só porque eu sou uma criança que não consegue ficar só. A culpa é minha. — exalou com um suspiro exasperado e aflito.
— Não pense assim, Noah. — o confortei. — A culpa foi do bêbado que atravessou o meio-fio. Você não teve culpa de nada, sua irmã queria passar mais tempo com você. Foi somente por este motivo que escolheu pegar as folgas agora. — seu corpo começou a sacolejar de leve, ele estava chorando.
Quis chorar também.
— Se algo acontecer a ela... — a frase ficou incompleta.
— Nada vai acontecer. Ouviu bem? — garanti. — Pam é forte, ela vai sair dessa.
Nesse instante, como um sinal dos céus, um médico veio até nós. Aguardávamos informações mais precisas na sala de espera do hospital.
Noah em um segundo trotou para perto dele, os olhos azuis angustiados e sem brilho.
— Minha irmã está bem?
Um suspiro audível antecedeu a fala do responsável que veio nos dar informação.
— Eu sou Akira Yakushi, o médico que tratou a paciente. — apresentou-se rapidamente e assentimos juntos. — Sinto muito, fizemos todo o possível. — apertei os olhos em desespero. — Ela está em estado crítico. Se mantém consciente em alguns momentos e pediu para falar com o irmão e com a amiga. Eu indico que estejam preparados para o pior, pois infelizmente. — estremeci e Noah fraquejou, tive que envolver sua cintura para mantê-lo ereto. — Em outras circunstâncias não permitiria visitas, mas acho que é um caso excepcional. Eu sinto muito mesmo. — concluiu e mordi a parte debaixo da boca com força para evitar o choro.
Eu precisava ser forte e manter a esperança pelo Noah.
— Queremos vê-la. — consegui formular, o médico indicou o caminho.
— Onde está o motorista? — Noah quis saber, a voz carregando uma sombra de dor e abandono.
— Morreu na hora. — respondeu direto.
Não sei dizer se o que senti foi alívio, mas algo bem parecido com isso, sem dúvidas. Senti-me culpada por esse pensamento, só que não consegui evitar. Em mais algumas passadas estávamos em frente a um quarto, o médico abriu a porta e pediu que não deixássemos a paciente agitada e que fôssemos rápidos. Concordei e a cena que vi partiu meu coração. Pamela estava deitada, com diversos aparelhos ligados ao corpo. Seu rosto perfeito e gentil, agora jazia com machucados profundos. Fechei os olhos, não consegui analisar a extensão dos ferimentos. Noah começou a chorar de soluçar e foi pegar a mão da irmã. Meu coração se partiu em tantos pedacinhos, que não seria possível reestruturá-lo novamente. Uma dor profunda perfurou o centro do meu peito e eu quis acordar daquele pesadelo. Minha melhor amiga estava ali na minha frente, em um estado lastimável e eu nada podia fazer. A vida era muito injusta. Por que não fiquei mais tempo ontem na casa deles? Por que não disse à Pamela que estava tudo bem, que eu ficaria com Noah na ausência dela? Por que não fomos tomar café antes? Por que não dei mais valor à amizade dela?
Por quê, por quê… Não dava para voltar atrás no tempo.
— Maninho — falou debilmente. Sua voz fraca e sem vida.
— Eu estou aqui, descansa. — ele respondeu, a frase saindo entrecortada pelo choro. — Você precisa ficar bem.
A ameaça de um sorriso teimou em aparecer nos lábios feridos da Pamela.
— Vem cá, amiga. — ela me chamou com sofreguidão. Não queria atrapalhar o momento entre eles, mas corri para segurar a mão dela.
Ficamos Noah e eu um de cada lado da cama.
— Eu quero falar uma coisa para vocês dois. — dava para notar a dificuldade que Pam tinha para formular palavras.
Quis que ela ficasse em silêncio, que não gastasse suas forças.
— Shii… — sussurrei — Você vai ter todo o tempo do mundo para conversar com a gente. Agora descanse, por favor.
— Eu preciso falar… — ela fez um ruído estranho e eu apertei de leve sua mão. — Lu você é minha melhor amiga, por isso eu te peço. Não permita que o Noah se afunde na solidão e na dor. — pediu, os olhos opacos e sem vida me fitaram. — Faça-o feliz, eu sei que pode. Eu vi como ele olhou para você, amiga. — tentou sorrir, eu ficaria envergonhada se a situação não fosse tão infeliz.
— Não diga besteiras. — Noah interrompeu. — Isso aqui não é uma despedida. — afirmou, sua voz falhando por causa das lágrimas.
— Me deixa terminar… — Pamela puxou o ar e continuou, apesar da dificuldade: — Seja feliz também, Luana. Saia de vez em quando, não fique só enfornada na frente do computador editando vídeo. — Eu quase sorri, foi quando Pam se virou para olhar o irmão.
— E você, Noah. — firmou a voz — não se isole, não fique revoltado com o mundo. Eu sempre estarei contigo, assim como nossos pais nunca nos abandonaram de verdade. Estaremos sempre aqui. — ela tocou o peito dele, na altura do coração.
— Não, não não. — Noah retrucou, o rosto banhado em lágrimas. — Você continuará comigo, maninha. Não diga essas coisas!
— Por favor, não volte a ser o Noah de antes. Você chegou tão longe… — ela olhou para mim nesse ponto. — Vá em frente, eu apoio seu interesse pela Luana. Ela é a melhor pessoa que eu conheço, sei que não machucará minha melhor amiga. Ficarei torcendo por vocês de onde eu estiver. Sei que você é um bom homem, seja feliz, me promete que vai ser feliz, Noah. — suplicou.
— Pam… — ele choramingou.
Meu rosto também já estava inundado em lágrimas de sal. Eu podia senti-las escorrerem pelo meu pescoço.
— Meu tempo está acabando, portanto, o último pedido que eu faço é que não se sinta culpado. Tinha de acontecer. Não sinta culpa por nada e não se isole, permita que a Luana fique perto de você. É o que eu peço… — ela fechou os olhos, eu quis morrer — Eu amo vocês... — seu aperto sutil em minha mão afrouxou.
O barulho do monitor cardíaco começou a disparar, indicando que algo estava errado. De repente tudo ficou em câmera lenta, enquanto Noah entrava em profundo desespero. Gritei pelo médico, por alguém que pudesse ajudar. Quando Akira voltou, rapidamente empurrou Noah e eu porta afora. Enquanto outros médicos analisavam os sinais vitais da Pamela.
Busquei Noah e me enrosquei em sua cintura, como ele era muito mais alto que eu. Tombou a cabeça na minha, envolveu meus ombros e apertou-me contra si. Eu sentia a dor dele e ele sentia a minha.
Compartilhávamos a mesma dor.