Capítulo quatro, por Angelique Balti.

1341 Words
Damon Ricci. Alto, belo, jovem, não aparenta ter mais que trinta anos. Íris de um azul intenso, que em alguns momentos se confundem com verde, graças à luminosidade que entra pelas enormes vidraças da nossa sala e reflete em seus olhos. Cabelos negros lisos, um pouco bagunçados, algumas mechas rebeldes caem pela sua testa. Lábios rosados, finos, mas desenhados. Um perfume marcante, doce, dá para sentir todas as vezes em que se aproxima, explicando algo, encarando-me. Nesses momentos, ouço um riso baixo atrás de mim, e sinto Eve me beliscar, em uma parte do meu braço esquerdo que não foi machucada. Perdi as contas de quantas vezes se aproximou de mim, e sussurrou em meu ouvido que nosso professor está interessado em mim. Como resposta para tais besteiras, apenas reviro meus olhos e tento me concentrar nas aulas. Não posso ficar com alguma nota baixa, e dar brecha para um castigo de Lorenzo. Os minutos passam, mais rápido do que costumam passar. Meu nervosismo parece aumentar cada vez mais, e nem mesmo os comentários de Eve sobre Damon Ricci, ou como sou sortuda em ficar com ele no fim das aulas, me faz esquecer esse fato: ficarei aqui, com ele, no fim das aulas. E isso me atormenta demais. Sinto minhas mãos trêmulas; os nós dos meus dedos estão brancos, de tamanha força que uso para apertar as mangas do meu suéter. Como hoje é segunda-feira, Lorenzo chegará mais tarde em casa. Não irá almoçar, voltará apenas após às seis da noite, dando para mim alguns minutos de paz. Mas as vezes, seus planos mudam. Ele desiste de ficar na empresa — geralmente pois sua ressaca nas segundas é mais intensa que nos outros dias —, e volta para casa, para me atormentar com sua presença. E por isso aceitei ajudar nosso professor, pois considerando toda bebedeira da noite passada, em poucas horas Lorenzo estará em casa. E não desejo vê-lo de forma alguma. Não quando as marcas estão evidentes em meus braços, e foi necessário tomar alguns analgésicos para conseguir vir para faculdade. Mas não aceitei apenas por isso. Uma mínima parte, devo admitir, foi por causa das palavras da minha melhor amiga, sua insistência. Está plenamente convicta dos sentimentos do nosso professor, Damon, por mim. Atração, um possível amor, segundo Eve. Prometeu que, caso não me oferecesse para ajudá-lo de bom grado, iria me obrigar. E bem, sei que Eve Salvatore nunca falha no que diz, sempre cumpre suas promessas. Ainda há outro motivo. O próprio Damon Ricci. Não consigo explicar, mas há algo nele que me deixa completamente atraída. Desde que meu olhar encontrou o seu, ontem pela manhã, não consigo esquecê-lo, principalmente quando ele está em minha frente, e fica completamente sexy explicando algo sobre sua disciplina. Seu rosto, com traços tão belos, não deixou meus pensamentos ontem; em todo momento, pensei nele. E agora ele está aqui, olhando para mim, com um discreto sorriso ladino nos lábios. Nunca me senti atraída por boa parte dos homens que conheci. Preciso admitir que parte disso é graças à minha liberdade inexistente, ou seja, os únicos homens que conheço são os homens da igreja que frequento — adultos, calvos, com barrigas enormes e pouco tamanho; casados, porém são infiéis —, os garotos da minha turma — futuros sacerdotes em sua maioria, desprovidos de beleza ou de qualquer outro detalhe que os torne atraentes — e os homens que conheço quando vou à Peccato, em minhas fugas noturnas. Esses são os piores. Bêbados, com um forte odor de suor, misturado com álcool. Além de asquerosos — já tentaram por várias vezes algo comigo ou Eve, e não aceitam receber um não; são insistentes, tentam nos tocar sem consentimento, tentam algo que está explícito que não estamos interessadas —, são agressivos, irritantes, querem apenas um brinquedo para usar por algumas horas e depois descartar de qualquer forma. E o pior em tudo isso é que eles são tão parecidos com Lorenzo, meu pai. Mas Damon é diferente. Além da sua beleza — preciso admitir, ele é muito bonito; como um Deus, nas palavras da minha amiga —, ele é inteligente, foi simpático conosco, completo oposto de alguns dos nossos professores, que apenas estão aqui nos ensinando por pura obrigação, como se nossa presença fosse pior que qualquer outra coisa. Damon interage conosco, didático, consegue explicar tudo perfeitamente, além de deixar as alunas — incluindo minha melhor amiga — suspirando por sua beleza. Às nove e quinze, pontualmente, sua aula acaba. Nossas próximas aula serão vagas, pelo que entendi. Eve contou para mim que nossa professora, uma mulher cujo nome nunca consigo lembrar, adoeceu. Os alunos saem da sala, animados, conversando entre si. As meninas acenam para Damon antes de sair, e ele apenas as retribui com um discreto sorriso e um acenar de cabeça. Organizo minhas coisas na bolsa, Eve faz o mesmo, enquanto murmura algo sobre sair mais tarde. Até ouço tudo que diz, mas minha atenção está em nosso professor, encostado na mesa, lendo algo no seu celular. — Angel? — ao ouvir Eve me chamar, desvio meu olhar do homem mais a frente. — Está me ouvindo? — Sim, claro. — E sobre o que eu estava falando? — Eve ergue uma sobrancelha, irônica. — É... — penso em algo. Peccato? Namorados? Trabalho? Damon? — Está vendo. — ela ri. — Peccato hoje? — Vou tentar. — suspiro. — Lorenzo com certeza ficará me perseguindo nesses dias, mas vou tentar. — Posso dar um soco nele, ou sei lá, causar um acidente com ele. — sugere e eu n**o, rindo. Ainda há uma aula mais tarde, então deixarei minhas coisas aqui mesmo, é cansativo andar para lá e para cá com uma mochila. Eve entrelaça nossos braços e seguimos em direção à porta. — Angelique? — Damon me chama. Ele ainda está no mesmo lugar, na mesma posição, porém sem seu aparelho celular em mãos; estas, estão nos bolsos da sua calça de alfaiataria. Me lança um sorriso breve, e sinto meu rosto queimar. — Estarei esperando por você na sala dos professores, tudo bem? — assinto. No mesmo momento, todo meu nervosismo retorna, em proporções maiores que antes. E não consigo entender, como um homem que conheci ontem — e que nunca troquei mais que duas palavras — pode me deixar tão nervosa? Saímos daquela sala, e posso finalmente respirar outra vez. Eve ri, enquanto comenta sobre um futuro relacionamento entre nós. Reviro os olhos, rindo das asneiras que diz, mas ao mesmo tempo minha traiçoeira imaginação cria cenas de nós dois juntos, dos seus lábios avermelhados nos meus, e faço um esforço imenso para esquecer isso. Ele é meu professor, nos vimos apenas uma vez, mesmo que ele seja tão belo, nunca acontecerá nada entre nós. Por um bom tempo, minha amiga ficou comigo sentada nos jardins malcuidados da Universidade, conversando sobre seu novo amor — Eric, um calouro no curso de psicologia —, até que nossa última aula começou. E tão rápido começou, quanto terminou. Quando acabou, juntei meus materiais com as mãos trêmulas, nervosa para ir até Damon. Despeço-me rapidamente de Eve, que está acompanhada de um rapaz moreno, que presumo ser Eric. Seguro firme meu caderno entre minhas mãos, de forma que os nós dos meus dedos estão esbranquiçados. Sigo pelos corredores silenciosos em direção à sala onde falou que estaria, e quando chego em frente à porta de número 202, sinto-me nervosa, com vontade de correr para longe dele. Não sei explicar, mas há algo nele que me deixa atraída, ao mesmo tempo que me intimida. Respiro fundo, e bato na porta. Ouço sua voz rouca no outro lado, pedindo para que entre. Faço o que pediu, e entro naquele cômodo vasto, com várias mesas, computadores, estantes enormes com vários livros, há um pequeno sofá preto próximo às janelas, cobertas pelas persianas claras. Damon está em uma das mesas, rodeado de papéis, com seu laptop aberto em sua frente. Ao me ver, sorri. — Olá, Angelique.
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