Capítulo 5

712 Words
A casa acorda antes de mim. Descobri isso no terceiro dia. Não há despertadores, nem correria. Apenas passos constantes, vozes baixas, o som metálico de portas sendo abertas e fechadas. É um organismo vivo, funcionando em silêncio, como se todos ali soubessem exatamente onde estar e o que fazer. Menos eu. Levantei da cama ainda sentindo o peso do dia anterior. O vestido pendurado, os olhares, a forma como cada homem parecia me medir em silêncio. Não com desejo, mas com cálculo. Como se estivessem decidindo quanto tempo eu duraria. Caminhei até o banheiro e lavei o rosto com água fria. Meu reflexo ainda me parecia estranho. Não fisicamente, mas no que representava agora. Noiva do Don. Ainda parecia irreal. Troquei de roupa por algo simples e saí do quarto. Ninguém me impediu. Ninguém me seguiu de forma óbvia. Ainda assim, eu sentia os olhos invisíveis em cada esquina. A cozinha era ampla, organizada demais. Teresa estava lá, supervisionando o café. — Dormiu bem? — perguntou. — O suficiente — respondi. Ela me serviu uma xícara de café sem açúcar. Não perguntou como eu gostava. E acertou. — A casa tem regras — disse, enquanto organizava a mesa. — Mas nenhuma delas envolve te prender. — Ainda. Ela me lançou um olhar rápido. — Enquanto você estiver aqui por vontade própria… será tratada como parte da casa. — E se eu não estiver? Teresa suspirou. — Então nada muda. Só o jeito como as pessoas te olham. Sentei à mesa, observando a luz entrar pelas janelas altas. — Matteo já saiu? — perguntei, antes que pudesse evitar. Ela ergueu a sobrancelha. — O Don sai cedo. Sempre. Claro que sai. Bebi o café em silêncio. A tranquilidade era quase enganosa. Não havia gritos, nem tensão aparente, mas eu sentia como se estivesse pisando em algo frágil demais para confiar. Depois do café, decidi andar pela casa. Ninguém me acompanhou. Ninguém me proibiu. Passei por corredores longos, salas vazias, espaços que não eram feitos para conforto, mas para vigilância. Tudo ali tinha um propósito. Menos eu. Ou talvez eu fosse o propósito. Em uma das salas menores, encontrei Matteo. Ele estava sentado, lendo algo no tablet. Camisa clara, mangas dobradas. Parecia… normal demais. Se não fosse o peso invisível que carregava, poderia ser qualquer homem concentrado em trabalho. Ele ergueu o olhar quando me viu. — Bom dia — disse, simples. — Bom dia. O silêncio entre nós não era hostil. Apenas… cauteloso. — Está se acostumando? — perguntou. — Observando — respondi. Um canto da boca dele se moveu levemente. — É assim que se sobrevive aqui. Aproximei-me um pouco mais. — Ontem você disse que eu aprenderia quem são seus aliados. — Disse. — E aprendi quem não gosta de mim. — Isso é inevitável. — Porque eu sou um risco? — Porque você existe — respondeu. Cruzei os braços. — Não posso simplesmente desaparecer. — Não deveria — ele disse, sério. — Isso levantaria suspeitas. — Suspeitas de quê? — De que você não aguenta. Engoli a resposta automática. — Eu aguento. Ele me analisou por um segundo mais longo do que o necessário. — Eu sei. A frase me desarmou mais do que qualquer ameaça. — O que você espera de mim? — perguntei. — Que não minta — respondeu. — E que não confie em ninguém além de mim. — Isso inclui você? Ele sustentou meu olhar. — Especialmente eu. Ri baixo. — Isso não faz sentido. — Bem-vinda ao meu mundo. Ele se levantou. — Hoje não há compromissos — disse. — Aproveite. — Aproveitar o quê? — O silêncio — respondeu. — Ele não dura. Ele saiu da sala, me deixando com aquela sensação estranha no peito. Não medo. Não alívio. Algo entre curiosidade e reconhecimento. Passei o resto do dia observando. Aprendendo horários. Rostos. Dinâmicas. Percebi quem evitava meu olhar e quem parecia interessado demais. Aprendi quem falava pouco — e quem falava demais. À noite, sentei na cama, olhando o anel mais uma vez. Eu não estava apaixonada. Não estava segura. Não estava feliz. Mas também não estava quebrada. E, naquele mundo, isso já era uma forma de resistência. Sob o nome do Don, eu não seria invisível. Eu seria consciente. E, talvez… perigosa.
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