Proposta

1298 Words
Em casa, aproveitei para colocar meus pensamentos no lugar. Tanta coisa aconteceu desde quando resolvemos levar a Sofia no hospital que eu esqueci que precisava lidar com a minha faculdade. Abri o portal de estudante e rolei até as notícias com o mouse. Lá estava a manchete "Vagas para monitoria abertas". Nossa! Eu havia esquecido completamente! Eu estava na expectativa de ser a monitoria do curso nesse último ano, mas não daria certo, como eu poderia conciliar? Tenho um TCC para finalizar, provas, e outras milhares de coisas. Ouço pegadas na escada e meus pensamentos somem. Tinha esquecido completamente que Jasper estava aqui também. Quando ele me vê, abre um sorriso largo e me beija. — Está tudo bem? — Indagou e encarou o monitor do computador. Eu fiz que sim com a cabeça, suspirando. — Tem certeza? — Insistiu. — Não — bufei. — Na verdade, estou triste. Abriram as vagas para a monitoria e eu acho que não vou conseguir me inscrever. São muitas coisas nas minhas costas. — Por que você não convida alguém pra te ajudar nas pesquisas? Ou te auxiliar nos detalhes... — Sugeriu, sorrindo. Meus olhos brilharam. — Você faria isso? — Desculpa, princesa, eu infelizmente não posso. O trabalho está uma loucura! —  Eu sei, amor. Eu entendo — Respirei fundo, pensando nas possibilidades. — Então, voltamos para a estaca zero. — Concluí. — Eu sei que vai pensar em alguma coisa. Você quis muito essa monitoria, não vai desistir fácil. Eu sorri. Ele sempre sabia exatamente  o que dizer. — Como foi lá no hospital? — Como sempre: triste. — Resumo — Não gosto de frequentar a ala de urgência, me sinto destruída. — Não parece mesmo ser nada divertido. — Ele disse. — A Sofia está melhor? — Melhor na medida do possível. Ela deve receber alta hoje. Inclusive, você pode me deixar lá antes de ir para o trabalho? Ele concordou e horas depois já estávamos dentro do carro a caminho do hospital. Jasper me deixou na frente, depositou um beijo em meus lábios e se despediu. — Podemos nos encontrar a noite para um jantar? Eu disse que sim e ele foi embora. Antes de entrar no hospital, algo me apavorou. A sensação de que eu podia me esbarrar com aquele rapaz, me deixou desconcertada. Eu acho que nunca contei o motivo pelo qual decidi fazer psicologia. Quando eu tinha por volta dos 7 anos, estava procurando moedas na rua, eu juro que rodei o quarteirão do condomínio mais de 2 vezes procurando. Era divertido, sabe? Eu não sei por que, mas antigamente as pessoas tinham uma mania de deixar moedas caírem do bolso sem se importarem em voltar para procurar, como se elas não tivessem valor nenhum. Enfim, eu consegui juntar em torno de 10 dólares. Pouca coisa, mas para uma criança de 7 anos, era ouro. Dava exatamente para comprar 10 balas de doce de côco, as minhas preferidas. Eu estava empolgada voltando para casa segurando um saco de moedas, quando avisei um morador de rua sentado ao leu no meio fio da calçada. Eu parei, mesmo com a minha mãe dizendo que eu não deveria falar com estranhos, e o encarei porque tinha muita curiosidade em saber por que. Por que aquele homem estava na rua? Por que ele simplesmente não vai para casa? A criança de 7 anos não entendia que existem coisas muito maiores do que nosso próprio entendimento pode compreender. Ele me olhou, abaixou a cabeça e depois voltou a me encarar quando viu que eu não havia ido embora. — O que foi, garotinha? — Lembro dele ter perguntado. Eu tive receio de responder, a voz da minha mãe me dizendo que eu não deveria falar com ninguém na rua me perseguiu. Mas a situação tão frágil daquele homem havia me tirado a atenção. — Por que não vai pra casa? — Questionei, inocentemente. Ele riu. Lembrando disso agora, teria sido cômico se não fosse trágico. — Eu moro aqui. — Aonde? — Indaguei, olhando para os lados. — Aqui, do lado de fora. — Respondeu, simplesmente. Eu não entendia. Se estávamos dentro de um condominio aberto, por que ele não entrava em alguma daquelas casas. — Eu nem mesmo deveria estar aqui. Mas as vezes, as pessoas me presenteiam com um prato de comida, então eu fico até mais ou menos o horário do almoço. Eu estava concentrada, queria entender motivo que o trouxe até ali. — Você está com fome? — Indaguei. Ele fez que sim com a cabeça. Eu não tinha comida, mas tinha os 10 dólares de pratas que havia achado. Peguei a bolsinha então e o entreguei. Ele pegou a bolsa, espiou por dentro e estendeu de volta para mim, alegando: — Não posso aceitar. Me desculpe, isso é seu. — Oh, não é meu. Achei na rua. Se você mora aqui, então na verdade, é seu. — Afirmei. Ele sorriu e eu fui embora. Poucas coisas fizeram tanto sentido pra mim quanto aquele dia. Eu gostava de entender as pessoas, os motivos, as aspirações, o gatilho que os levou a isso. Foi por isso que alguns anos depois, eu resolvi ser psicóloga. E nessa fase da minha vida, entender o mundo daquele rapaz era a chave de ignição que eu precisava para iniciar minha profissão. Eu sempre tive muitas ideias loucas quando se trata de ajudar alguém, então, não seria diferente dessa vez. Entrei no hospital finalmente, minha irmã estava sentada, já estava sem soro nas veias e a minha mãe conversava com o médico. Apressei os passos até a minha irmã, e fui recebida com um abraço. — Achei que não viria me buscar! — Foi bem tentador — Brinquei e me virei para falar com a mamãe. — Oi, querida. Como está? — Bem, e onde esta o papai? — Trabalhando. — Respondeu. — Já estamos indo para casa. — Tá certo. — Afirmei. — Preciso ir ao banheiro. Vocês me esperam na saída? — Se você prometer não demorar, com certeza. — Disse por fim. Apressei os passos até a sala daquele rapaz. Tive medo que ele não estivesse mais lá, mas quando eu cheguei, ele estava. Seus olhos se encontraram com os meus, e ele se levantou. — Você de novo? — Indagou. — Tenho uma proposta pra você. — Que proposta? — De emprego. Ele riu. — Não estou no clima para zoação. — Não é zoação, eu quero te ajudar. — Você por acaso é uma daquelas Testemunhas de Jeová? Eu não preciso da sua ajuda! Aquilo me assustou, mas me esforcei para não transparecer nada daquilo. — Não! Eu sou estudante do último ano de psicologia, só quero que me ajude a organizar os gastos da formatura, para que eu possa focar minha atenção na monitoria e no meu TCC. — Obrigado, mas não obrigado. Não tenho tempo pra isso, se você ainda não percebeu, minha mãe está morrendo. — Disse, ríspido. — Sua mãe precisa da sua ajuda financeiramente, não? — Argumentei, fingindo que não havia me abalado. — É — falou. — Então? Ele não respondeu. — O que foi? Você não é bom com financeiro? Ele riu em tom irônico. — Nem imagina. — Temos um acordo? — Faremos um teste. E terá que ser do meu jeito. — Você realmente acha que o mundo gira em torno de você, não é? Acho que foi uma péssima ideia vir aqui. Ele se virou como alguém que não dá a mínima. E eu bufei por ele não ter se importado. Eu não podia desistir fácil assim. — Espera. Por favor, vamos nessa. — Insisti. — Nós conversamos sobre as regras. Eu vou ceder o meu máximo. — Ok. — Foi tudo o que ele disse.
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