Sorrio timidamente, algo em mim sabia que não era uma das melhores ideias, mas sabia que precisava fazer alguma coisa.
Luciana me dá um beijo na bochecha e anda até a porta do meu quarto. Antes de sair, ela me olha com uma expressão indecifrável.
Sozinho no meu quarto, encarava a foto de Mariana na minha mesa de cabeceira. Ela estava sorrindo, seus olhos brilhavam, e seu cabelo estava iluminado pela luz do sol. Essa foto foi tirada por mim no dia em que a pedi em namoro, estávamos no Parque Sempione, onde meu pai costumava me levar nos verões. Os verões em Milão eram sempre belos e radiantes, assim como os olhos da minha Mariana.
Sabia que minha amada estava diferente, mas me sentia um monstro por desconfiar de sua índole, especialmente depois de todo esse tempo ao meu lado. Afinal, ela esteve comigo quando meu pai morreu e eu tive que assumir seus negócios ilegais.
Apesar de ter um carinho imenso pela Mariana, ela jamais desconfiou que eu sou o herdeiro de John Bianchi, o mafioso mais temido dos últimos tempos.
Meu pai foi um homem que colecionou inimigos, e isso acabou levando à sua morte prematura. Desde os meus 18 anos, procuro o homem que o matou. Jamais descansarei até encontrá-lo e fazê-lo sentir exatamente o que minha família sentiu quando viu o corpo do meu pai sem vida em um caixão. A morte é pouco para essa criatura abominável. Eu o farei pagar, destruí-lo tirando tudo da sua vida, e quando eu terminar... Bem, quando eu terminar com o desgraçado, ele implorará por piedade e uma morte rápida. Mas não farei isso.
Saio dos meus pensamentos de vingança e preciso de notícias. Ligo do meu telefone protegido para Leonardo, meu primo e homem de confiança. Preciso saber se ele teve progresso em suas buscas pelo culpado da morte do meu pai.
Leva apenas alguns segundos até a ligação cair. Estranho, geralmente quando são números desconhecidos, ele atende porque sempre mudo de número com frequência.
Ligo novamente, e dessa vez sou atendido no primeiro toque. Escuto gemidos e risadas ao fundo.
— Alô? – Sua voz está mais rouca que o habitual. – Droga, pare com isso, Mari!
Escuto ao fundo uma risada seguida de um gemido. Meus olhos ficam arregalados, e sinto meu coração acelerar. Não, isso não pode estar acontecendo comigo. Não pode ser a mesma Mari, a minha Mari!
— Quem é, gatinho? – escuto sua voz ao fundo e sinto meu coração acelerar. –Desliga logo e volta pra cama!
Desligo a ligação e jogo meu celular contra a parede. Arremesso o porta-retrato na parede e, num surto de fúria, quebro várias coisas pelo quarto. Sento no chão ofegante, sentindo as lágrimas querendo sair dos meus olhos. Como ela pode ser tão baixa? Há quanto tempo isso está acontecendo? Ela já me amou algum dia?
Minha cabeça se enche de perguntas, passo a mão no rosto tentando afastá-las inutilmente. Um grito de fúria escapa do fundo da minha alma. Eu desejo vingança, não vou deixar isso como está.
Ando até a minha mesa de cabeceira, pego minha pistola 9mm. Hoje, vou honrar o nome do meu pai e, assim como ele sempre fez, vou exterminar os traidores antes que se proliferem.
Saio do meu quarto sentindo minha cabeça girar. É como se eu não estivesse no meu corpo, mas sim observando tudo de cima, flutuando como em um sonho. Parece que meu corpo tem vontade própria e controla suas ações sozinho.
Quando percebi, já estava em frente à sua casa, sentado no banco do motorista do meu carro, terminando minha garrafa de vodka. Nas minhas mãos, eu conseguia ver respingos de sangue e tentava me lembrar de onde eles haviam vindo.
Ah, sim... Lembrei-me de como tudo isso aconteceu.
Momentos antes
— Donatello, onde você vai desse jeito? – Escuto a voz de minha mãe atrás de mim, mas a ignoro ao andar até o final do corredor. – Eu ouvi sons de coisas quebrando e gritos. Aconteceu alguma coisa?
Chego até a escada e, antes que a desça, sou impedido por Enzo. Ele me encara por alguns segundos antes de segurar meu braço.
— Não vai sair de casa. – Sua voz soa preocupada. – Você está com o mesmo olhar que o papai tinha da última vez que o vi.
— Saia da minha frente, pirralho. – Meu tom de voz é tão sério que eu mesmo não me reconheço. Minha voz é áspera, como se pertencesse a outro homem. – Não quero te machucar. Solte-me ou eu te jogarei escada abaixo!
Luciana puxa Enzo pelo braço ao perceber que eu não estava para brincadeiras. Desço a escada rapidamente, e em poucos segundos estou no hall de entrada.
— Escute-me, irmão. – Eu o ignoro e vou até a cozinha, pegando uma garrafa de vodka no armário. Ouço seus passos me seguindo. Tento sair pela porta dos fundos, mas ele segura meu ombro de forma amigável, fazendo-me olhar em seu rosto. – Não importa o que está acontecendo, tome cuidado e não faça besteiras! Não se torne uma desgraça para nossa família.
Suas palavras fazem uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Eram exatamente as mesmas que nosso pai usava. Eram duras, mas eram uma forma de nos motivar. Em nosso ramo, não se pode cometer erros, não se pode ter o luxo de cometer deslizes bobos. Eu o entendia muito bem.
Abro a porta e entro na garagem. Caminho até o meu antigo carro e entro nele. Escuto seus passos próximos ao veículo.
— Se você precisar, estarei aqui por você. – Sua voz soa cansada, mas doce como sempre. – Não morra.
Acelero o carro e saio da garagem, sem me importar com os gritos de Luciana.
Estou fora de mim, sinto como se estivesse flutuando fora do meu corpo, apenas observando minhas ações em meu estado sanguinário. Desejo vingança, irei me livrar de todos os traidores, custe o que custar.
Em alta velocidade, ultrapasso todos os semáforos. Não me importo com as buzinas dos motoristas furiosos com minha falta de educação no trânsito. Apenas quero chegar ao meu destino.
Paro o carro do outro lado da rua, em frente à casa de Mariana. Não me dou ao trabalho de desligá-lo. Ninguém seria louco o suficiente para tentar furtar o carro do chefe da maior máfia da Itália.
Mal sinto meus pés tocarem o chão, é como pisar em nuvens de um sonho causado pelo abuso de substâncias tóxicas. Chego à porta e ajusto meu silenciador, dou um disparo na maçaneta, liberando minha entrada. Em passos curtos, caminho até o quarto, onde sinto meu sangue ferver ao presenciar a cena mais grotesca de todos os tempos: Mariana e Leonardo trocavam carícias enquanto ele a penetrava.
— Que bela visão. – Minha voz os assusta. Leonardo pula para o lado de Mariana, e consigo ver o terror em seus olhos. – Desculpe estragar a festinha do casal.
— Donatello, não é nada disso que você está pensando. – A voz chorosa de Leonardo me faz gargalhar. Seus olhos estão marejados e seu corpo treme. – Vamos, primo, me deixe explicar.
Mariana olha incrédula para seu amante e o xinga.
— Você é um frouxo! – É possível sentir seu desgosto. – É isso que você está vendo, Donatello. Quer saber? Eu te traí sim, sempre fui apaixonada pelo seu primo. Mas pelo jeito, ele é um inútil, assim como você!
— Cala a boca! – Leonardo grita antes de dar um tapa em Mariana. É possível ver o desespero dele. O homem se levanta e consigo ver suas pernas tremerem. – Você é como um irmão. Não escute as palavras dessa meretriz!
Sem pensar duas vezes, disparo em sua cabeça. Ele sabia do que eu era capaz. Leonardo sempre soube que a lealdade sempre foi uma das coisas que eu mais prezei em nossa convivência. Meu "amado" primo sabia exatamente no que estava se metendo quando escolheu iniciar esse caso.
Leonardo não é uma vítima, esse traidor sabia exatamente como terminaria quando eu descobrisse.
Ignorando os gritos histéricos de Mariana, me sento na beira da cama e acendo meu cigarro. Sinto a fumaça sair de meus pulmões enquanto vejo o líquido vermelho sair lentamente da cabeça de Leonardo. Seus olhos estão abertos, olhando em direção à porta. Seu corpo está espremido entre a mesa de cabeceira e a cama queen size. Por um segundo, quase sinto pena dessa pobre alma.
Pedaços de seu cérebro estão espalhados pelo carpete, assim como respingos de seu sangue e fragmentos de seus ossos.
Quando foi que cheguei a esse ponto? Não poder confiar sequer em minha família, em meu próprio primo. Os Bianchi sempre se protegeram, somos uma família unida, nosso sangue é mais forte que tudo. E agora? Agora sinto nojo de mim mesmo, vendo seu sangue em minhas vestes, ouvindo os gritos e soluços de sua amante.
— Seu monstro! Você o matou! – Sua voz furiosa me tira dos devaneios. Dou uma tragada em meu cigarro enquanto olho para o espelho no teto. Consigo vê-la encolhida na cama, seu corpo tremendo debaixo dos lençóis de algodão egípcio. – Não me mate, eu imploro.
Em uma gargalhada amarga, levanto-me da cama e apago meu cigarro no cinzeiro. Caminho até a porta e, antes de sair, a encaro pela última vez.