VICTOR ALENCAR
Acordei do mesmo jeito de sempre: com o tédio me corroendo e uma mulher nua ao meu lado que eu m*l lembrava o nome.
Linda, n***a, corpo escultural.
Mais uma das várias que fazem fila pra deitar na minha cama — e sumir logo depois.
Me levanto sem olhar pra trás.
Banho gelado.
Terno sob medida.
Relógio suíço.
Perfume amadeirado.
Máscara de CEO no lugar.
Desço as escadas com a certeza de que o inferno corporativo me espera.
— Bom dia, senhor Alencar — cumprimenta Ana, a governanta.
— Bom dia, Ana. — Respondo seco, pegando minha xícara de café.
— Quando a moça do meu quarto acordar, mande-a embora discretamente. Aline pode aparecer, e não estou com saco pra mais uma cena.
— Mais uma, senhor? Já perdeu a conta? Vai tomar jeito um dia desses ou vai continuar colecionando escândalos?
— Ana... — ergo o olhar. — O que eu faço — e com quem faço — não é da sua conta. Apenas obedeça. Já tenho problemas demais com a Aline me seguindo como uma sombra.
— Claro, senhor. Como quiser — responde, mordendo a língua como sempre.
Termino meu café. Sem pressa, mas também sem vontade. O dia promete ser uma tortura.
Tenho uma fila de candidatas pra vaga de secretária.
De novo.
A última tá lá em cima, provavelmente ainda roncando na minha cama.
Clichê.
Basta mostrar um relógio caro e uma taça de vinho que elas abrem as pernas.
Todas iguais.
Já virou rotina: contrato uma, fodo, e demito no dia seguinte. Não sou babá de carente. E definitivamente não preciso de mulher gritando que me ama depois de um boquete bem-feito.
Saio de casa, entro no meu carro de luxo, afundo no couro e deixo o ronco do motor me lembrar que, ao menos isso, eu controlo.
Estaciono na frente da empresa. Armani impecável. Óculos escuros. Foco no prédio.
Mas a p***a do universo adora brincar comigo.
— Ai! — Um baque. Algo quente. E o som de café espirrando.
Olho pra baixo.
Camisa branca.
Café preto.
Merda total.
— MAS QUE p***a! — rosno. — Você não olha por onde anda?
— De-desculpa, senhor… eu não vi…
— Você destruiu uma camisa que custa mais do que seu salário do ano, sua desastrada!
— Eu posso... posso pagar... — ela gagueja, encolhida.
— Nem se você trabalhasse uma década, querida. Agora sai da minha frente antes que eu perca o resto da paciência.
— Eu já pedi desculpa, seu arrogante! Quem você pensa que é pra tratar alguém assim?
Paro.
Ergo o rosto.
Encosto um passo no dela.
— Olha a boquinha, princesa. Antes que você diga algo que te faça perder o que resta da sua dignidade.
E entro no prédio.
Mas claro que a mocinha tinha que gritar pelas minhas costas.
— RETIRO MEU PEDIDO DE DESCULPAS, SEU BABACA CRETINO! BEM FEITO!
Ignoro.
Mesmo com a mancha ridícula na camisa, sigo até minha sala.
— O que foi isso? — pergunta Scott, meu sócio, me encarando com deboche.
— Uma garota desastrada se achando rebelde.
— O dia promete, hein?
— Já começou uma merda — retruco, passando direto.
Scott é meu parceiro desde moleque. Assumimos a empresa juntos, no lugar dos nossos pais.
Mas, ao contrário dele, eu não finjo ser um bom moço.
Eu sou o vilão da história.
E gosto de deixar isso bem claro.