VICTOR ALENCAR
Quantas candidatas mais eu ainda tenho que entrevistar hoje?
Sinceramente, não aguento mais.
Uma mais burra que a outra. E, claro, proporcional à burrice, vem o rebolado.
Pelo menos visualmente não é um total desperdício.
Viro minha cadeira, massageando as têmporas, tentando encontrar o último traço da minha paciência.
Pego o botão e aperto.
— Pode mandar a última entrar.
A porta se abre.
Ouço o som dos saltos — não, tênis? — e uma leve hesitação.
Me viro, pronto para dispensar mais uma.
Mas congelo.
É ela.
A desastrada do café. A do escândalo na entrada. A que me gritou no meio da rua como se estivesse numa novela mexicana.
— VOCÊ? — dissemos os dois ao mesmo tempo.
Cruzo os braços, contendo um sorriso irônico.
— Quem diria... reencontrar a Srta. Desastre do café, e justo aqui. Que sorte a minha.
— Já pedi desculpas, senhor...
— Alencar. — corto seco, e aponto para a cadeira. — Senta.
Ela obedece, um pouco tensa. E agora, com a luz certa, sem o caos de café derramado, percebo o que não notei antes.
Ela é linda.
Não do tipo óbvio. Tem algo natural nela, real.
Mas definitivamente... está demais vestida pro meu gosto.
Ela estende o currículo com mãos trêmulas. Pego, sento de novo e começo a ler.
— Isabela Ferrari, é?
— Sim, senhor Alencar.
— Hm... — percorro o papel. — Formada em Administração. Fluente em inglês, francês e italiano. Olha só...
— Sim, senhor.
Ela mexe nos dedos sem parar. Ansiosa. Nervosa. Um contraste absoluto com a atrevida de algumas horas atrás.
Decido me divertir um pouco.
— Então quer dizer que a senhorita desastre é toda estudada?
Pena que faltou na aula de atenção.
Ela ergue o rosto, firme.
— Olha aqui, senhor Alencar… — diz com um tom calmo que me surpreende — já pedi desculpas. Se não pretende continuar a entrevista, eu posso ir embora agora.
A ousada voltou.
E isso… me instiga.
Olho para ela por mais alguns segundos.
Séria. Digna. Determinada.
Merda.
Já estou cansado de entrevistas inúteis. Ela, ao menos, tem cérebro. E personalidade.
E, com sorte, vai acabar na minha cama em poucos dias como todas as outras.
A diferença?
Ela pode durar um pouco mais. E eu não me importaria de vê-la entrando no meu escritório com um vestido colado todo santo dia.
— Ok, senhorita Ferrari. Está contratada.
Ela arregala os olhos.
— Sério?
— Eu costumo brincar com esse tipo de coisa?
— N-não. Claro que não. Obrigada, senhor Alencar. Prometo que não vai se arrepender.
— Espero que não. E que venha com mais atenção da próxima vez.
— Prometo.
— Pode se retirar. Passe no RH, pegue seu uniforme e finalize os papéis.
— Certo, senhor. Obrigada novamente… e desculpa mais uma vez.
Ela sai apressada, a porta não chega a se fechar. Me levanto para terminá-la de fechar, mas antes que eu toque a maçaneta… paro.
Ela está no corredor.
Pulando.
Dançando.
Como se tivesse ganhado na loteria.
Uma dancinha tosca, mas engraçada. Quase fofa.
Quase.
Quando ela me vê, congela, horrorizada.
Se recompõe em segundos, ajeita os ombros e desaparece no corredor.
Fecho a porta com um meio sorriso no rosto.
— Onde eu estava com a cabeça pra contratar essa maluca? — murmuro, voltando pra minha cadeira.
Mas a verdade é que já sei por quê.
Ela é diferente.
Linda. Espirituosa. E… perigosamente provocante.
Só espero que ela faça o trabalho direito.
Na mesa.
E, quem sabe… na minha cama também.