Lídia narrando
Como o previsto quando cheguei em casa havia cadeado no armário da cozinha e a TV não estava mais na sala.
Ele deixou bilhetes nos dois lugares mas nem me dei ao trabalho de ler, fui direto pro meu quarto e comi as frutas que escondi.
Não sei como minha vida chegou nesse ponto mas tô vendo que minha mãe tinha razão.
Ela dizia as vezes minha filha pagamos um preço muito alto para manter a nossa dignidade.
Eu tô sentindo na pele isso me deitei e antes de dormir me lembrei da vida que tínhamos no vilarejo.
Era muito humilde mas éramos felizes, meu pai nos abandonou com a desculpa de ir para o Rio de Janeiro, em busca de uma vida melhor para nós.
Até o dia de hoje ele nunca mais voltou mamãe quase morreu de tanta tristeza e vergonha.
Eu fui o motivo pelo qual ela não desistiu da vida, mas por não aguentar mais as piadas e ofensas de algumas pessoas do vilarejo.
Ela decidiu vender nossa casa e se mudar para a cidade, assim viemos parar aqui.
Ela começou a trabalhar na casa dos pais do Sergio e ele logo se interessou por mamãe que de fato era linda.
Logo o pai de Sergio que era advogado conseguiu uma certidão de óbito para mamãe que se casou com Sergio no mês seguinte.
Ninguém esperava que o velho falisse meses após o casamento e infartasse, ele morreu dias depois do infarto.
Deixando a família afundada em dívidas, o Sergio era estudante de direito e estava no último ano.
Como ele não tinha como pagar os meses que faltavam mamãe usou o dinheiro da venda da casa,para custear o restante da faculdade.
E assim Sérgio se formou e começou a advogar em cidades vizinhas foi ganhando causas pequenas, até que ganhou um caso importante.
Isso elevou o nome dele e o fez ser respeitado no campo do direito, ele nunca devolveu o dinheiro que mamãe gastou pagando sua faculdade.
Mas até ela morrer ele era um bom marido e um bom padrasto.
Adormeci em meio às lembranças e acordei no dia seguinte com um barulho na porta.
Me assustei ao ver a porta se abrindo, era um chaveiro que mudou a fechadura da porta.
Sergio: Bom para ter privacidade é necessário pagar.
Ele passou a mão no cabelo enquanto entrava no meu quarto.
Sergio: como você ainda não contribuiu com as despesas da casa, imagino que não tenha dinheiro.
Eu: você está indo longe demais Sergio
Sergio: Não queira ver o quão longe eu posso ir pretinha.
Eu: SAI DO MEU QUARTO SAI MALDITO
Eu não suportei mais estava sendo forte a tempos demais, gritei com ele enquanto chorava.
Ele saiu rindo se divertindo com o meu desespero.
Sergio: Seu tempo está acabando negrinha tic tac tic tac
Meu pai era n***o e minha mãe italiana, tenho os cabelos da minha mãe todo encaracolado.
E a cor do meu pai, sou muito bonita minha beleza é especial mas Sergio sempre demonstrou um certo incômodo com a minha cor.
Ele tentava de forma sutil clarear minhas origens.
Lidia Lembrando
Sergio: porque você não alisa o cabelo da Lídia, ela fica mais bonita com ele liso
Mamae: não não a única coisa que ela tem parecido comigo é o cabelo, se alisar ela não terá nada que lembre a mim.
Sergio: bobagem amor o cabelo dela lembra mais uma teia de aranha, um ninho de passarinhos rsrsrs vamos alisar e você verá como ficará melhor.
Na mesma semana mamãe me levou no salão para fazer uma escova e eu odiei, o vapor do secador era quente demais.
E a escova doía quando batia no meu couro cabeludo, chorei a noite toda sentindo falta dos cachos.
No dia seguinte fomos ao clube e eu pulei na piscina meu cabelo virou uma bucha.
Fui motivo de piadas por dias na escola,nunca mais deixei mamãe escovar meus cabelos.
Fim da lembrança
Sai da cama decidida hoje eu vou mudar minha vida, criei coragem e fui atrás de Joana.
Não tinha como ligar pra ela já que o meu telefone não tem crédito e o fixo de casa, adivinhem?
Acertou quem disse que está trancado? enfim peguei um ônibus até o centro da cidade e caminhei até o condomínio de luxo de Joana.
Passei pela portaria e o porteiro me anunciou, demorou um pouco mas Joana liberou minha entrada.
Joana: Lídia querida que surpresa te ver aqui, entre querida.
Ela disse vindo me receber na porta do elevador, caminhamos até sua sala que é enorme. E nos sentamos no sofá .
Joana: enfim o que te traz aqui?
Eu: você disse que se eu precisasse de ajuda eu poderia vir.
Joana: claro claro como posso ajuda-la?
Eu: preciso de um emprego
Joana ergue a sobrancelha parecendo não entender o que eu acabei de dizer.
Joana: co..como assim um emprego?
Eu: você é dona de várias lojas da cidade, pode me indicar para alguma de suas lojas?
Joana: Lídia querida
Ela fez uma pausa.
Joana: eu não estou entendendo. Você é herdeira do maior escritório de advocacia da cidade e até da redondeza...porque você ia querer trabalhar em uma loja de roupas?
Eu: Sergio não é meu pai sendo assim não sou herdeira de nada.
Falei firme, ela me olhou assustada eu já estava no meu limite e me preparei para contar a verdade a ela.
Foi por um instante que meus olhos caíram em uma pasta no canto da sala, uma pasta preta..de advogado.
Desviei os olhos para que Joana não percebesse que eu vi.
Eu: Eu preciso arcar com as minhas despesas pessoais e não acho certo, pedir ao Sergio.
Abaixei meu olhar e segurei minhas mãos.
Eu: Já que ele já paga meu curso e banca minha alimentação e moradia enfim... você pode me ajudar?
Fiz minha cara de triste e sofrida enquanto ela me analisava.
Joana: claro que sim querida será um prazer ter você trabalhando comigo.
Ela se levantou e disse
Joana: me aguarde um minuto vou ver o que posso fazer
Ela saiu da sala e eu corri até a pasta confirmando minhas suspeitas, a pasta tinhas as iniciais S.C de Sergio Cortês.
Ele estava no apartamento voltei para o meu lugar e fingi demência, pouco tempo depois Joana voltou com um semblante triste e caído.
Joana: desculpe querida mas no momento nosso quadro está completo.
Ela não me olhava nos olhos eu sabia que era mentira.
Joana: Eu estou vendo com algumas amigas se consigo algo para você,vá para casa e descanse.
Ela se levantou e foi comigo caminhando para a porta.
Joana: assim que eu tiver um retorno eu te ligo.
Agradeci sua atenção e saí dali, sei bem que foi Sergio quem impediu que ela me ajudasse.
Eu: Tá vendo mamãe,que bela amiga a senhora tinha?
Ri sem humor indo ao ponto de ônibus voltei pra casa e esperei pela retaliação,eu sei que ele vai aprontar alguma.