Passatempo

2255 Words
Aquele brutal azul-marinho misturado com o tom índigo do céu escuro. A lua e as estrelas que tanto brilhavam silenciosamente, haviam dado lugar à um azul claro e um dia ensolarado. Coisas que somente o carioca vive, o eterno problema de sinusite causado pela mudança brusca do tempo. Uma hora faz chuva com frio e em poucas rotações da terra, já temos de conviver com o calor e o suor. Zoe, mesmo que não pudesse ver, abriu os olhos e sentiu a quentura do sol que atravessava a janela para lhe avisar que o dia havia amanhecido à muito tempo. Quando ela respirou o ar externo pela primeira vez no dia, aquele que ousava adentrar em seu quarto como uma brisa matinal, fez com que todo o seu corpo tremesse como se ela estivesse esperando por algo. "d***a, eu dormi com a roupa do corpo, estava realmente morrendo de sono, mas que horas são?" – pensou. A campainha do apartamento começa a tocar. – Já vai! – gritou. "Quem será numa hora dessas?" Zoe saiu do quarto correndo e caminhou até o banheiro para lavar o rosto, o sono era tanto e o peso dos seus atos a deixou tão para baixo que ela chegou a babar no travesseiro. A campainha volta a tocar. – JÁ VAAAAAAAAAAAAAAAAAI! "Deve ser o novo síndico". – imaginou. Assim que se aproximou da porta e a abriu, Lilian pulou em seus braços. – Amiga! – exclamou. – Oi? O que? Calma! Lilian? Quer me m***r do coração? Eu sou cega, esqueceu? Eu nem preciso explicar sobre assustar um cego tocando nele aleatoriamente, né? – Perdão, é que eu te avisei que viria e sabia que precisava de um carinho. – Como assim? Avisou? Mas que horas são? Não está cedo demais? – Zoe estava perdida. – Cedo? – Lilian passou os olhos no relógio. – São exatamente onze e quarenta e sete da manhã, pra mim, você já estava arrumada ou muito ocupada, te liguei três vezes e mandei várias mensagens. – completou. – Perdão, tava cansada demais, dormi o triplo, levantei não tem cinco minutos. – concluiu. – Engraçado, vendo daqui, nem parece que você dormiu direito, tá com o rosto inchado e com olheiras enormes, amiga, você não está bem. Zoe deu um sorrisinho de lado e respondeu com frieza. – É assim mesmo Lilian, o amor transforma todos nós num i****a. Quando iria fechar a porta, Lilian a interrompe. – Espera, ele tá subindo. – O Belisário? – E quem mais seria? – brincou. Belisário chegou um pouco atrasado, m*l encarou Zoe nos olhos, mas fez todo o barulho possível para que ela notasse que ele estava feliz. – Está muito contente, o que houve? Dormiu com o bozo? – alfinetou Zoe. – É que poucas coisas no mundo ainda me fazem feliz, mas você é uma delas, lide com isso. – alfinetou de volta. Como diria o meu amigo Bial 'isso reflete como será o paredão de hoje'. Lilian bem que tentou segurar o riso, mas não deu. Belisário trancou a porta e a primeira tarde de trabalho coletivo encima do livro, começava. Prontos para uma longa tarde de implicâncias e troca de farpas? Então, vem comigo. – O que faremos hoje? – perguntou Lilian sentando à mesa que sempre se reúne com Zoe. – Para adiantar, eu consegui falar para o gravador de voz converter uma grande quantidade de texto, mas como ele perde a precisão com texto acima de cinco minutos, você ainda precisa corrigir. – argumentou Zoe se sentando. – Tudo bem, pegamos de onde você parou durante uma hora e enquanto você descansa, eu pego no pesado escrevendo. Tudo bem assim? – Obrigado pelo esforço! – agradeceu Zoe. Belisário, que não tinha nada haver com isso tudo, se sento ao lado da Lilian e tirou de sua mochila o seu Notebook. Lilian realmente não se importou com o ocorrido, era mais um dia normal, mas Zoe estava um tanto incomodada, afinal, ele nunca participa das reuniões com sua intérprete, Belisário se reúne com Valentina que está para o lado jurídico assim como ele. "Será que ela vai se incomodar?" – imaginou ele. "Ele tá fazendo tudo isso pra me incomodar!" – ponderou ela. – Podem fazer o que tiverem de fazer, o que preciso concluir é rápido, mas lá em casa é movimentado demais, e afinal de contas, eu ainda sou o agente literário. – está foi a mensagem que Belisário enviou para as duas. Nosso herói simplesmente abriu o notebook e começou a digitar sem emitir qualquer barulho de seu teclado mecânico. Incrível, eu diria. – Podemos? – disse Lilian. Zoe, como sempre, se espreguiçou e começou a narrar os fatos para que Lilian escrevesse tudo em seu Netbook minúsculo. – Não há dúvidas de que um dos lugares mais incrivelmente surpreendentes do Rio de Janeiro é a Vila do Largo, um charmoso conjunto de casinhas bem perto do Largo do Machado que mais parece uma vila europeia, uma viela na Alemanha ou um cantinho da Noruega. Como realmente a população carioca desconhece este cenário, sem conhecimento prévio de sua quase que nula existência, é preciso atenção para descobri-la, pois a entrada é extremamente discreta, mas uma vez encontrada, contudo, ela encanta os olhos de qualquer visitante. O seu real nome é 'Casas de Ofício da Vila do Largo' e sua história é bem comum. No início do século passado, havia aqui uma vila operária. Um pouco depois, com a descentralização das indústrias do centro, as casas foram sendo desocupadas e formou-se um pequeno cortiço na região. Nosso tímido personagem principal que nem é tão velho assim, se lembra do vendedor de sorvete de anilina, algo que era feito a partir de umas garrafas coloridas montadas sobre uma máquina muito barulhenta. Seu pai sempre lhe levava e o sorveteiro fazia ponto ali. Estão são as lembrança deliciosas de um adolescente que perdeu a mãe e o pai em tão pouco tempo. – narrou Zoe. Lilian digita rápido, é uma exímia datilógrafa, faz tudo para que as coisas deem certo. Mas Zoe meio que hesitou em muitas partes da narrativa, visto que reparou Belisário encarando sua boca por inúmeras vezes. Sabe como? Ela sentiu a mesma presença de quando eles iriam se beijar. Era surreal demais. O que Zoe estava lidando, ia muito além dos seus cinco sentidos sensoriais. "Mas era isso ou ele estava só prestando atenção no que eu estava falando?" – ponderou ela. "Ela nunca vai saber se eu estava encarando sua boca ou prestando a atenção nela. Aliás, será que ela reparou que eu estava reparando?" – analisou ele. Acredite, a única perdida nessa tardezinha conflitosa, era justamente a simpática Lilian, quem podia realmente enxergar e falar. Curioso, não? Enfim, após passar mais de uma hora narrando para sua intérprete, Zoe notou que já haviam avançado o combinado e se levantou. Lilian ficou sem entender nada. Belisário que encarou o horário no seu notebook, fez o mesmo. Nossa protagonista pegou um banquinho e ficou relativamente próxima ao fogão, enquanto o nosso protagonista encheu uma chaleira com água e pôs para ferver. Lilian se atentou à situação e notou que estava no horário em que a dupla tomava seu café da tarde, pois todos os dias desde que começaram o ritual do livro, eles faziam exatamente o mesmo movimento. Assim, Belisário que não escutava, mas enxergava, fazia todo o rito do pão e arrumava o material para fazer café enquanto Zoe, que só poderia escutar, ficava ligada com o barulho da chaleira e o alerta sonoro da chapa de pão. Os dois, mesmo separados, ainda conversavam com seus corpos e sentidos. "Quando eu crescer, quero ficar nessa sintonia com o Felipe". – confessou Lilian para si mesma. Em poucos minutos, o café estava pronto e a mesa arrumada. Lilian, novamente sendo a única sem deficiência, não havia feito nada. Aliás, os dois realmente estavam agindo seriamente à ponto da própria garota acreditar que ela era invisível para eles. Zoe foi quem puxou a orquestra que era o encontro dos dois para o café. Mesmo cega, ela sabia exatamente onde estavam todos os utensílios necessários, bem como o pão, a manteiga, os pratos e as xícaras. Ela enfileirava todos eles no cantinho da mesa e cabia à Belisário para separá-los ao longo da mesa. Lilian aproveitou que estava invisível para os dois e enviou uma mensagem para seu namorado. – Saudade do que só a gente sabe. E ele rapidamente escreveu. – Saudade do seu abraço e de fazer um cafuné gostoso em você. Enquanto se distraía com a conversa, quem ousou puxar assunto foi nosso despretensioso herói. – O livro está adiantado? – escutou Zoe. – Boa tarde pra você também. – leu Belisário. – É que eu fico grosseiro quando tô com saudades. – ponderou ele. – E eu fico agressiva quando quero te ver. – rebateu ela. Belisário abriu um sorriso. – Mas você é cega, não vai me ver. – escutou Zoe caindo na risada. Lilian ergueu sua sobrancelha, claramente notando que os dois estavam conversando e se dando bem. – Você entendeu, seu i****a. Quero que saiba que mesmo não podendo falar, eu sinto que encontrei conforto na tua voz. – leu Belisário. Mexido pela situação que se formava, ele arriscou. – Sei bem como é, pois mesmo sem escutar, amei a sua risada, fiz morada no teu sorriso e nele fiz a minha casa. – escutou Zoe. Ela ficou toda sem graça pelas palavras dele. Mesmo tendo dado um tempo, o amor realmente não morreu. Mas em poucas horas, a reunião acabou e como parte do acordo, Belisário simplesmente se foi junto da Lilian. Mas não antes de sem querer, ela acabar com o clima festivo entre eles. – Conseguimos adiantar muita coisa hoje, creio que se mantermos este ritmo, nos próximos dias faremos muito mais. – Obrigado pelo trabalho. – agradeceu Zoe. – E te digo mais, você deveria se preocupar mais comigo do que com a Angélica, pois o meu livro está ficando incrível graças as suas dicas, quem agradece sou eu. Belisário que estava prestando atenção na conversa, reparou o nome de Angélica sendo pronunciado pelos finos lábios de Lilian enquanto Zoe, complexada, se calou ante a situação. "p**a que pari$#@! Eu fiz m***a". – pensou Lilian. – Assim espero. – respondeu Zoe com um sorriso forçado. Belisário abaixou a cabeça e foi o primeiro à chegar na porta. Lilian estava logo atrás, cabisbaixa por ter acabado com o clima entre eles e muito sem graça para tornar a tocar neste assunto outra vez. – Até amanhã... – se despediu. Zoe e Belisário m*l tocaram palavras. A última mensagem entre os dois marcava minutos atrás quando ele perguntou onde estavam algumas coisas dele que ela prontamente foi pegar. Mas do lado de fora, com mais tempo e coragem, Lilian o desafiou. – Manda mensagem para ela agora! – afrontou pelo w******p. – Porque? – Belisário questionou de volta. – Porque essa é a melhor maneira de vocês quebrarem o gelo. Se insistirem em não conversar, a situação de vocês não mudará e certamente alguém irá aparecer. – Mas o que faço? Lilian se aproximou do Belisário em pleno elevador e disse bem pausadamente para que ele entendesse. – Elogie algo que você sabe que ela repara, fala como ela estava hoje de tarde, tanto faz, mas seja rápido, ou então, as vozes internas das neuroses de toda mulher vão começar a agir por você. Belisário então, mais do que depressa pegou seu celular e começou a escrever a sentença mais linda que Zoe escutou em toda a sua vida. – Zoe, você pode até desconhecer, mas a Lua é o único satélite natural da Terra e o quinto maior do Sistema Solar. Ela também possui o título do astro mais brilhante objeto no céu depois do Sol. Muito embora a sua superfície seja na realidade escura, com uma refletância pouco acima da do asfalto, o reflexo que ela faz sendo vista de qualquer lado do planeta, é sem dúvidas um espetáculo maravilhoso. Mas ainda assim, ela consegue perder para o brilho do seu sorriso. Você é um milagre termodinâmico dos pés à cabeça. Hoje, quanto reparava na sua boca, senti uma vontade enorme de te beijar de novo, o seu beijo me enlouqueceu. – escutou Zoe. Nossa protagonista imediatamente começou a gravar a resposa. – Belisário, você é o meu fogo literário, o protagonista da minha vida e o antagonista perfeito para todos os meus livros. Eu queria morrer na profundidade escura da solidão, e realmente não estava esperando por alguém. Mas você, como uma rara e única euforia, me apareceu e foi lindo. Parecendo um livro de poesias no momento certo de nossa vida, trazendo uma conexão além dos sentidos, algo que nem mesmo eu que tanto escrevo e fantasio, ousei sonhar. Você é o que me fez parar de investir e outras pessoas para apostar em sua boca. Eu sei que você pe a paz que eu tanto esperava. Meu equilíbrio. – leu Belisário. Os dois por fim, mesmo que as portas estivessem abertas, ainda dormiram em camas separadas durante aquela noite. Ainda bem que temos ciência de que o tempo sempre leva tudo nessa vida. Porque por mais que passe tempo, o tempo sempre passa e muda nossos pontos de vista. Os dois ainda darão outros primeiros beijos em outros momentos específicos da vida, mas não no dia de hoje, que a propósito, acabou de se encerrar.
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