A noite, assim como os relacionamentos, pode ser sombria para quem não sabe apreciar, reconfortante para quem escreve e extremamente divertida para aqueles que não medem as suas consequência.
O fato é que a noite nos faz refletir, em dias chuvosos então? Pior ainda. E é nesse momento de reflexão que Zoe passou sua primeira noite longe de Belisário. Algo que parecia inviável para quem os conhece, realmente aconteceu. E pior do que dormir sozinho no escuro, é ter de voltar a enfrentar seus demônios internos.
A vasta escuridão do véu noturno chuvoso às vezes nos confronta a experimentar coisas que não deveríamos, como drogas e s**o. Por vezes, chegamos até a flertar com o suicídio, mas, como diria o meu amigo j**k: 'vamos por partes'.
Já estávamos nos aproximando da meia noite quando Belisário saiu do apartamento da Zoe e decidiu passar numa hamburgueria artesanal, a favorita de sua namorada, aliás.
Foi como uma despedida simbólica para ele, Belisário sabe que pisou na bola, mas será que precisava de tanto ou a confiança foi realmente quebrada?
Para muitos, foi apenas uma mentirinha, algo necessário ou como a própria Zoe disse, 'ele omitiu, não mentiu'.
Mas o fato é que a confiança é algo frágil e, quando é quebrada, dificilmente consegue ser reconquistada. É extremamente difícil acreditar de novo quando você já acreditou demais em quem infelizmente não fez por onde.
Em algumas raras vezes, pode até ser que o perdão dê a sua cara, mas a confiança? Jamais será a mesma. E é aquilo né? Por mais que o coração não se importe, o cérebro se toca. Se a confiança se quebra, o amor se desmorona junto!
– Mãe, estou indo para casa, vou passar alguns tempos ai, tudo bem? – escreveu Belisário.
Dona Antônia simplesmente se levantou do sofá de onde tirava seu cochilo e respondeu tranquila.
– Pode vir, eu já esperava pela sua companhia.
O w******p é realmente bem útil para os dois.
Em pouquíssimos minutos, Belisário estava de volta ao início. Ele tocou a campainha e Débora lhe atendeu. Ela estava realmente feliz com seu regresso, nem disfarçou.
Assim que passou pela porta, Débora voou para seus braços, lhe dando um abraço mais apertado de todos. Repleto de amor, carinho e sinceridade. Até mesmo Antônia podia sentir que um sentimento verdadeiro, mas nós sabemos o qual deturpada ela pode ser, não?
– Deixa que eu coloco sua mochila no quarto, estou passando um café. – sinalizou Débora em LIBRAS.
Belisário apenas balançou a cabeça confirmando.
Assim que viu sua mãe, ele lhe abraçou com lágrimas nos olhos. Antônia sabia que aquilo era sério e mesmo que não fosse assim tão chegada na Zoe, qual é a mãe que quer ver o seu filho infeliz, não é mesmo?
Os dois se sentaram no sofá da sala.
– Débora, por favor, faça três daqueles pudins rápidos que aprendeu, ok? Um pra cada está ótimo. – ordenou Antônia.
– Sim Senhora! – confirmou Débora.
Antônia voltou sua atenção para Belisário que, choroso, não tinha reação.
– Se eu falar, você consegue ler meus lábios, certo?
– Fale olhando para mim e seja mais lenta, tudo bem?
– Ok filho.
Belisário sorriu.
– Filho, todos nós estamos sujeitos a cometer erros e até mesmo a desapontar alguém. Realmente existem pessoas boas que machucam os outros, e por mais que os vilões dos livros possam se parecer com alguém da nossa realidade, por muitas vezes, está bem claro que não fazemos isso com a intenção de magoar, mas sim com o desejo de acertar. Mas nem sempre isso fica evidente para a pessoa que nós erramos. Por isso mesmo que reconquistar a confiança de alguém que decepcionamos pode ser desafiador.
Nesse momento, Belisário ousou deixar uma lágrima cair.
– Calma bebê, saiba que não é impossível, como um bom ser humano que erra de cinco em cinco minutos, saiba que existem algumas formas de mostrar que você se arrependeu verdadeiramente.
– Como? Quem eu tenho que m***r para a Zoe voltar pra mim? – brincou Belisário no w******p.
Antônia alisou seu rosto e os lindos cabelos esvoaçantes dele.
– Eu meio que entendi o que de fato aconteceu por alto, mas o simples fato de ter sido com a Angélica e as duas já terem essa rivalidade, prejudicou tudo. Mas o que você deve se atentar é que o processo para reconquistar a confiança de alguém, dependendo das circunstâncias, pode ser bastante complexo e demorado, mas não é impossível.
Belisário ainda não havia se tocado que o fato em si realmente era irrelevante para a situação dos dois, mas por ter sido com Angélica, o problema tinha outra figura.
– Gosto de acreditar que o diálogo é sempre o melhor caminho, pois, por meio dele, é possível desfazer m*l-entendidos e saber quais foram os pontos da situação que magoaram a outra pessoa. Ou seja, e de extrema importância que seja uma conversa sincera, olho no olho, para somente assim, resolver definitivamente as questões e evitar que dúvidas possam atrapalhar o processo de reconquista da confiança.
Nosso herói balançou a cabeça positivamente.
– E por onde começo? – questionou no w******p.
– Primeiro de tudo, peça perdão. – respondeu ela.
Belisário franziu a testa e replicou a sobrancelha questionada que sua mãe tanto usa,
– Entenda que para algumas pessoas que cometem erros, simplesmente acreditam que não têm o direito de pedir perdão para aqueles que magoaram, pois não se sentem dignos dele. É como aquele pecador que para de pedir ajuda à Deus, pois pecou demais, entende?
Belisário fez um sinal de joinha. Antôa sorriu.
– Outro ponto importante é sobre dar tempo ao tempo, pois a ansiedade é algo que pode atrapalhar quando se está buscando o perdão de alguém.
– Mas eu realmente estou arrependido, sabe? Estávamos vendo um filme de terror, tudo parecia tão bom e do nada, me vi de mão dada com Angélica. – escreveu ele.
Dona Antônia realmente queria saber como Zoe assiste à um filme sendo cega e não viu que Belisário e Angélica ficaram de mãos dadas pro um tempo, mas enfim.
– O arrependimento pode até ser bom para te ajudar a rever suas atitudes e trazer aprendizado. Entretanto, tome cuidado para que esse sentimento não o leve à autopunição. Afinal, este é o seu primeiro relacionamento, sabe? Não precisa ficar martelando nisso o tempo todo, vocês nem são casados. – respondeu.
Belisário sorriu.
– Aproveite a circunstância. Enquanto ainda vai passar um tempinho com ela, por conta do livro, aproveite para tirar proveito da situação que está para refletir.
– Como assim? – pontuou Belisário, confuso.
– Um dos maiores aprendizados que podemos ter é saber tirar boas lições dos erros que cometemos. Aproveite essa experiência para refletir a respeito de sua vida e suas atitudes. Busque se conhecer para entender melhor a razão que te levou a agir de tal maneira. O autoconhecimento te ajudará a evitar cometer o mesmo erro, seja com a mesma pessoa ou com qualquer outra.
Belisário lhe deu um abraço tocantemente emocionado. Os dois nunca haviam tido uma conversa franca como essa ou sobre qualquer outra.
"O meu menino cresceu". – imaginou.
"No fundo, eu sempre soube que poderia contar com ela". – pensou.
– Estão prontos. – interrompeu Débora.
– Vou jogar uma água no corpo, trocar de roupa e já volto. – gesticulou Belisário.
Antônia assentiu e assim ele fez.
Tocada com a situação, Débora se sentou ao lado de Antônia e sorrateiramente lhe deu um abraço a pegando desprevenida.
– O que houve garota? Bebeu meu whisky de novo?
– Eu escutei toda a conversa e eu sei que vocês têm dificuldades de se relacionar, mas acredite, vocês se dão bem.
Antônia imediatamente devolveu o abraço. As duas nem parecem as antagonistas da primeira parte da obra.
– Eu deixei de falar sobre a expectativa. – desabafou.
– Como assim?
– É que, durante a espera, pode ser que criemos expectativas de que o perdão está próximo de acontecer, mas por muitas vezes, às pessoas ofendidas podem simplesmente decidir não te perdoar. – esclareceu.
– Ou então, pode acontecer pior para mim.
– O que seria pior? – perguntou Antônia.
– A pessoa pode simplesmente perdoar, mas sem que a amizade ou a relação volte a ser o que era antes... – respondeu.
É exatamente o que aconteceu entre ela e Belisário. Ele verdadeiramente a perdoou, mas os dois nunca mais foram como antes.
– De um jeito ou de outro, espero que ele entenda que a vida continua e que pessoas simplesmente entram e saem. Que nem todo mundo que quis ficar, conseguiu. E nem todo mundo que quis ir embora, tentou ficar. Nem sempre as coisas saem do jeito que queremos, nem todo mundo é como a gente quer. Nós só podemos controlar as nossas atitudes, mas nunca as do as outras pessoas.
– Tudo aquilo que nos resta é fazer nossa parte e ser resiliente para lidar com todas as negativas que temos pelo caminho. – comentou Débora.
Antes, inimigas, agora amigas. As duas até que tiveram um momento emocionado interessante ao selarem as palavras com um caloroso abraço apertado. Se olhar assim, bem de longe, ambas possuem um coração bondoso sendo encapado por atitudes não tão boas assim. Mas enfim, o que é delas, está guardado.
Agora, indo em direção ao fim do corredor, Belisário acabava de ligar a luz do quarto. O lugar continua impecavelmente arrumado, pois sua mãe realmente se esforçava para manter o ambiente à seu gosto e Débora, muito mais. Sempre ajeitou tudo com muito carinho, parecia que esperava pelos dias em que ele retornaria. Pois bem, Belisário tirou a blusa e se encarou no espelho, suas memórias ruins quanto ao quarto, começaram a surgir. Ele passou pela cadeira do computador e e jogou a blusa nele, lembrando-se de sua última noite com Débora.
O vento que soprou pela janela do quarto, percorreu todos os quatro cantos do lugar, fazendo subir uma corrente de ar, arrepiando toda e qualquer parte do corpo de nosso inocente herói.
"Deixa disso". – pensou.
Belisário pegou um short de pijama para dormir e caminhou até o banheiro. Foi, segundo ele, 'a pior ducha da minha vida'.
Aquela explosão de sentimentos depressivos e ansiosos inventaram de se confrontar no exato instante em que a água quente percorria seus músculos e lavava o shampoo de seu cabelo.
Depois de um banho que durou pouco mais de vinte minutos, Belisário saiu e se secou o suficiente para não aparentar estar molhado. Vestiu o short e passou o olho na sala. Nenhuma delas estava por lá.
"Devem estar na cozinha". – imaginou.
Ele seguiu em direção ao quarto e trancou a porta. Foi em direção à mesa do computador e colocou as mãos no encosto da cadeira. Nesse momento, saindo por detrás de uma cortina aleatória, estava Débora.
Ela se aproximou sorrateiramente de Belisário, nenhum cobra teria tamanha audácia, sua ousadia assustava até o mais feroz leão.
Débora passou as mãos pelo corpo de Belisário enquanto sua boca acompanhava o torço de seu pescoço, sempre com beijos carícias e sussurros. Mas foi ao chegar próximo do ouvido dele, que ela destilou o seu mais letal veneno.
– Estava com saudades desse lugar também, não é? Isso me trás lembranças boas. – sussurrou e sorriu.
Débora iria completar o ataque com um beijo, mas rapidamente, acabou sendo impedida por Belisário.
Ele segurou uma de suas mãos que envolvia seu pescoço, virou o rosto e a encarou de frente, olhando no olhos.
Belisário ainda fez um gesto se aproximando dela perigosamente, olho no olho. Débora chegou a fazer biquinho de beijo. Toda a movimentação estava garantida, ele avançou sessenta por cento enquanto ela foi além dos quarenta. Mas nosso herói cessou a impulso na metade do caminho, ele, com o celular em mãos, digitou e mostrou a tela para que ela pudesse ler.
– Não vou mais te tirar da solidão, tão pouco voltarei a ser sua companhia.
Débora nunca havia sido afrontada por Belisário. Aquilo era um ultraje muito grande para ela.
Débora recuou, deu dois passos para trás, mas queria dar cinco para frente. Queria de uma vez por todas voltar a colidir com o mundo de explosões que é quando fica com nosso herói, porém, Dona Antônia lhe interrompera.
– Povo, cadê vocês? Vamos comer ou não? – esbravejou.
Débora desviou dos olhos de Belisário e saiu do quarto.
"Ela deve ter escutado algo, acho que minha mãe nos chamou para o pudim, pois a Débora não é sair assim, sem mais nem menos". – ponderou.
Belisário logo vestiu uma camisa qualquer e foi se encontrar com todas na cozinha, contudo, apenas sua mãe estava lá, se deliciando de um maravilhoso pudim enquanto bebe uma generosa xícara de café.
– Onde está a Débora? – questionou Belisário pelo w******p.
– Ela disse que beliscou demais e que estava com sono, está no banho, não deve fazer esse pequeno aperitivo noturno. – respondeu Antônia.
Belisário assentiu com a cabeça enquanto sua mãe lhe cortava um pedaço de pudim e esquentava o leite para sua mistura maravilhosa com chocolate.
Voltando ao mesmo banheiro que nosso protagonista teve a pior ducha de sua vida, encontrava-se Débora, completamente quebrada pelo enfrentamento de Belisário.
– Ele me paga. Ele me paga. Ele me paga... – sussurrava enquanto a água fria percorria seu corpo.
Débora chegou a socar o piso da parede de tanta raiva. Ela mesma ainda não conseguiu entender o sentimento chamado de amor, ao invés disso, sempre preferiu se esconder da escuridão que lhe assusta.
– Ele vai ver o que acontecerá daqui para frente. – completou.