Na telecomunicação, um contratempo nada mais é do que um intervalo de tempo que ocorre entre as falas dos atores que estão em cena. Mas este substantivo masculino possui uma série de significados e sentidos. Contudo, comumente serve para exprimir uma situação inesperada ou um acontecimento imprevisto. Ou seja, trata-se daquilo que impede a realização normal de alguma coisa, algum funcionamento ou relação com algo.
Um contratempo é o que atrapalha, um obstáculo, estorvo. Ou até mesmo aquilo que é capaz de aborrecer; ou um aborrecimento, e até mesmo um desgosto.
Quando alguém utiliza essa palavra delicada num relacionamento, quer dizer que ocorreu uma circunstância ou incidente inesperado, que impede ou contraria o curso de um acontecimento, de um projeto, mas é bem mais comum tratarmos como um estorvo, um empecilho. Que nosso caso, tem nome e sobrenome.
– Tivemos um contratempo hoje amiga e a situação meio que saiu do controle por um tempo. – esclareceu Zoe.
– Como assim? Me explica, pelo amor de Deus, que tipo de contratempo que vocês tiveram de enfrentar para que tudo acabasse assim de uma hora para a outra? – questionou Lilian.
Para todos, Zoe e Belisário são a definição real do casal perfeito que mesmo sem ver ou falar, conseguem se comunicar melhor do que qualquer casal normal e sem deficiências por aí. Eles conseguiram transformar sua dificuldades em amor e superação de vida. Mas ninguém é de ferro, certo? Afinal, já dizia meu amigo Wesley 'chorar não paga imposto e nem faz m*l pra saúde'.
– Estávamos vendo um filme de terror japonês aleatório e foi aí que tudo começou.
Ao começar a explicação, Zoe encarava a janela de seu quarto, uma pena ela não poder ver a noite fria e chuvosa que havia se formado. O clima estava propenso à dormir de conchinha logo após aquela generosa caneca de chocolate quente que Zoe toma ao lado de Belsário que prefere um café com leite quente acompanhado de uma deliciosa barra de chocolate preto meio amolecida mergulhada na caneca.
O pior de se separar de alguém é se lembrar de alguém. E isso ocorre sempre nas piores horas, quando estamos fragilizados emocionalmente.
– Nossa, mas ele sumiu? – Lilian retomava o assunto de onde Zoe parou para chorar.
– Ele havia me dito que iria comprar pão e outras coisas que estavam faltando no sacolão, como gosta de saladas no jantar, sempre abusa disso.
– Continue, continue.
– Daí, insistiu na tecla de que os sacolões daqui estavam fechados.
– E estavam?
– Sim. E que foi para um sacolão perto do apartamento da mãe.
– Então ele não mentiu poxa! – ponderou Lilian.
– Em termos! – Zoe aumentou o tom de voz, estava querendo se fazer esclarecida.
– Como assim?
– Ele omitiu, não mentiu, de fato, mas se ele sabia que a garota estava indo vê-lo, porque procurou um sacolão tão distante daqui se temos dois supermercados na área?
– Belo ponto, né? É fogo.
– Chegando lá, parece que me intrometi numa briga entre eles, a garota tem uma briga antiga com a mãe do Belisário, algo sobre escrita. Isso me aborreceu profundamente.
– E quem era a garota?
– Você não vai acreditar em como o deus do destino e a senhora da casualidade adoram ferrar com a minha vida! – brincou.
– Como assim?
– A garota é uma antiga amizade colorida dele e também é s***a, mas usa um aparelho para escutar e consegue falar. Eles tem deficiências diferentes, me entende?
– Que coincidência! – Lilian realmente estava surpresa com a notícia.
– Mas essa não é a surpresa que o destino e a casualidade me deram.
– Não?
– O pior de tudo é que a garota se chama Angélica e ela é atualmente a melhor escritora da Nightmare.
– Atualmente? Vocês se conhecem? Caraca! – agora sim, Lilian estava surpresa com a situação que se formou.
– Ela vivia em posições abaixo da minha, estourava uma webnovela e sumia, estava com um one-shot ou outro nas primeiras fileiras e chegou a ganhar alguns curtas sobre pequenas cenas de suas histórias. – pontuou.
– Como assim?
– As histórias com mais de dois mil seguidores ganham curtas de até dez minutos de determinada cena escolhida por votação do próprio público do site. Como ela mora atualmente na Europa, ganhava sempre. – explicou.
– Nossa, então ela é tudo isso mesmo, é tipo você, só que pior? Sabe?
– Como assim? – Zoe caiu na gargalhada.
– Ela era sempre a segunda melhor e não namorou com Belisário. É tipo a sua sombra.
Zoe realmente não havia parado para pensar assim.
– Mas como foi de fato que vocês abriram? – completou.
– Nós não abrimos, ou terminamos de fato, sabe?
– Então o que? – questionou Lilian.
– Nós demos um tempo. – pontuou.
– Explique-se mulher.
– Ok, foi assim...
Os acontecimentos narrados a partir de agora aconteceram durante a live que vimos do Edmundo nos capítulos anteriores.
Os dois haviam cessado a discussão na sala e foram parar no quarto de Zoe. Nossa protagonista ergueu o celular na altura da boca a tampando. Caso pensado, Zoe sabe que Belisário pode ler seus lábios, mas ela queria poder falar o que pensava e que ele pudesse assimilar aquilo que ela queria dizer.
– Belizário, você me conheceu assim e sabe que eu não sou muito de rodeiros – disse Zoe um tanto hesitante segurando o celular e gravando o áudio. – Mas eu quero um tempo.
Enquanto Zoe estava sentada na cama, Belisário estava sentado à sua frente, na cadeirinha do computador. Ele batia os pés contra o chão de maneira constante, não há dúvidas de que aquilo denunciava seu nervosismo extremo ante aquela situação.
E por mais que Zoe não pudesse enxergar, ela conseguia sentir a tensão que estava no ambiente.
O conversor de áudio em texto que Zoe utiliza, leva exatamente três segundos para converter um áudio simples de aproximadamente trinta segundos. Para nosso herói, estes foram os mais longos segundos de sua vida. Encarar aquela apreensão enquanto Zoe gravava o áudio, fazia com que seus joelhos rangessem de tanta bateção de pé. Dava pra cortar o clima entre eles com uma faca de tão pesado.
Quando o texto chegou e Belisário finalmente viu a mensagem, ficou incrédulo, ele realmente sabia o porquê, só não queria acreditar.
Ele releu a mensagem para ver se não entendeu nada de errado, concluiu com uma respiração profunda combinada com aquela fechada de olho para tomar uma decisão. Belisário voltou a encarar a tela do celular e com as mãos tremulas começou a escrever.
– Você tem certeza disso? Que tal a gente conversar um pouco mais, sabe? Me deixa eu me explicar mais uma vez, foi apenas um grande m*l entendido. Por favor.
O mais hilário desta situação é que Zoe ouviu muito atentamente franzindo a testa enquanto fazia uma careta, que por um segundo fez Belisário sorrir.
Mas infelizmente, nosso menino Belisário não sabia que o momento não estava propício para brincadeiras, e os segundos de felicidade que viu no rosto de sua namorada no ato de brincadeira, acabariam rápido. Zoe estava imaginando como seria daqui pra frente enquanto se descuidava e gravava o áudio sem o telefone na frente de sua boca.
Ele a viu gravar o áudio e na sua expressão enquanto falava conseguiu enxergar aquelas cinco palavrinhas mágicas que lhe fizeram desabar. 'EU QUERO DAR UM TEMPO'.
Belisário rapidamente parou de bater o pé no chão, pois havia sentido que estava sem ele. Mas este não era o áudio inteiro, havia mais coisa naquele texto do que somente aquelas cinco palavras.
– Belisário eu não quero um tempo, porque eu não te amo mais ou porque tenho outra pessoa em mente. Quero um tempo, um tempo pra mim, simplesmente para por todos os meus pensamentos no lugar. Quero um tempo só meu. Tem muita coisa acontecendo ultimamente sabe? O cara que eu achei que gostava de mim, me abandonou, fiquei cega, meu pai morreu, tentei me m***r, encontrei você, preciso finalizar o livro para a Bienal e sinceramente? Eu não sei se confio mas em você. Como relacionamentos são baseados em confiança mútua, eu preciso desse tempo para pôr algumas coisas em ordem.
Belisário a encarou a assentiu com um emoticon de ok que o conversor traduz para Zoe com o mesmo sentido da palavra. Zoe não estava esperando por aquilo, foi um plot twist para ela que sentiu quando ele se levantou da cadeira e começou a arrumar as coisas atrás dela. Naquele momento, Zoe havia perdido o ar, não sabia exatamente o que fazer.
"Porque ele não está reclamando comigo? Ele nem hesitou ou questionou, ele só disse ok e foi arrumar suas coisas". – ponderou.
Mesmo sendo contradizente com o que disse, Zoe pegou o celular e mandou outro áudio para ele ler.
– O que você está fazendo? Não vai questionar nada? Como assim? – leu Belisário.
Belisário, de mochila arrumada, voltou a ficar de frente para Zoe que se levantou ao sentir a respiração dele mais próxima dela. O nosso herói prontamente lhe respondeu da maneira mais clara e objetiva possível.
– Zoe, você ainda me ama e eu ainda amo você. Somos pessoas boas que não fizeram nada de errado, tivemos nosso primeiro desentendimento agora e não precisamos piorar isso. Quando a Lilian vier transcrever o que você quer para o livro, eu venho junto, não levarei meu notebook, o deixarei aqui. E afinal de contas, isso não é um adeus é um ate logo, certo? – escutou Zoe.
Para encerrar este recorte temporal, os dois eventualmente se abraçaram e puderam sentir as violentas vibrações que oscilavam entre querer estar certo e hesitavam sobre a medida tomada. Mas o fato é que aconteceu, Zoe e Belisário haviam dado um tempo para que pudessem pensar melhor sobre o que queriam.
– Estou indo, tá? Vou para o apartamento da minha mãe.
– Pode ir, ficarei no quarto.
– Não vai me acompanhar até a porta? – perguntou.
– Não, eu não quero vê-lo partir. – brincou.
Zoe fez uma expressão engraçada ao enviar o áudio.
– Entendi. – respondeu.
– Então, vê se me promete uma coisa?
– O que seria? – viu ele.
– Não chore enquanto eu estiver saindo, eu não ouvi-la chorar. – brincou.
Belisário havia feito a mesma cara engraçada.
– Seu b****a. – leu Belisário.
As brincadeiras ao menos serviram para quebrar o gelo e esfriar um pouco o clima tenso que estava no ar.
Ao se virar para a porta, Zoe instintivamente puxou a ponta da blusa de Belisário que retornou em seu pedido.
Zoe lhe deu mais um abraço apertado. Belisário que é ligeiramente mais alto, retribuiu com um beijo na testa de sua namorada. Mas o que está feito, está feito. Ele saiu do quarto e foi embora para seu antigo lar enquanto Zoe teria de lidar com sua antiga vida. Mas por quanto tempo isso iria durar?
Enfim, retornamos para o momento atual durante a conversa de Lilian e Zoe.
– E foi isso que aconteceu. – expôs.
– Nossa, sinto muito, vocês meio que deram um tempo mais para pensar do que para terminarem então.
– Foi meio que isso, mas sabe-se lá o que está reservado para nós, certo?
– Você precisa de ajuda, né? Vou pedir para que a Thaís me libere por alguns dias, posso ficar de Home Office enquanto estou aí, assim, eu te ajudo com o que for necessário, trabalho e nós adiantamos o seu livro, que tal? – informou Lilian.
– Fico grata, preciso mais disso para adiantar o livro do que propriamente para os meus afazeres diários.
– Sério?
– Uhum, o Belisário adaptou o meu apartamento em muitos sentidos e lugares. Já sei onde cada coisinha minúscula ou objeto grande se encontra aqui dentro.
– Então eu irei pelo livro por volta de uma hora da tarde, combinado?
– Combinado!
– Mas e o Belisário? Como vai ser o lance do marketing e da betagem? Digo, com o livro e da participação dele como um todo, me entende? – questionou Lilian.
– Ele continuará fazendo tudo o que tem que fazer, pois nós assinamos um contrato.
– Até o seu agenciamento?
– Espero que sim, pois dificilmente confiarei em outra pessoa que não seja ele para fazer algo assim por mim, me entende? – expôs.
– Claro, eu entendo perfeitamente a situação.
– Ok, já desabafei, mas tem outra coisa, a última.
– O que foi agora? – brincou Lilian.
– A Angélica também participará da competição de melhor autor, ela praticamente fez uma declaração de guerra para mim e para Antônia.
– Nossa, tenho que te dizer mais uma coisa então!
– O que foi agora? – brincou Zoe repetindo a fala de sua amiga.
– Anne, aquela escritora que estava em hiato, lembra-se?
– MAS É CLARO! Eu mesma comprei um livro e ela autografou da última vez que ela foi para a Bienal.
– Então ficará feliz em saber que ela saiu do hiato e participará do prêmio, o próprio Edmundo a convidou para sair e se conhecerem.
– Nossa, agora mesmo que eu não tenho chances! – ponderou Zoe brincando e rindo.
– Se você não tem, imagina eu? – brincou.
– Então amiga, agora é sério, preciso ir tudo bem?
– Ok, se precisar de algo, me liga manhã de manhã que eu levo amiga, ok? – disse Lilian.
– Sem problemas, combinado então amiga.
– Até amanhã! – despediu-se Zoe.
– Até! – despediu-se Lilian.
Lilian foi imediatamente para o chuveiro ao desligar o telefone e fechar as anotações que fez da live. Enquanto isso, ao desligar o celular, Zoe se jogou na cama de costas como fazia antigamente quando Belisário não estava em sua vida.
Mas foi nesse momento que aquelas vozes suicidas voltaram a sussurrar em seus ouvidos.